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Memórias Breves (31)- Massenet e Campina

Teodomiro Neto
Última Atualização: 2021/Mar/Qua
Teodomiro Neto
5 anos atrás
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DOIS Nomes importantes na Música Europeia: O Compositor Jules Massenet, nascido na cidade francesa de Saint-Etienne-Loire ( 1842-1912) e a intérprete da sua música, a Pianista Maria Campina, nascida em Loulé-Algarve (1914- 1984). De ambos construi as biografias: “O Último Concerto de Maria Campina”- 1988, e “ Jules Masenet Un  Stéphanois dans le Monde”, 1992 .

Massenet, compositor dos mais fecundos de França, autor de 41 peças: Óperas, Concertos, Composições baléticas, donde se destacam Marie Mgdelaine (1872), Manon (1884), Werther (1892), Tais ( 1894). No século XX,  Le Jongller  de Notre Dame (1901), Don Quixote (1910), Roma (1912), esta sua última composição, em vésperas do seu falecimento. As suas composições passaram pelos palcos do mundo. Massenet foi um dos grandes compositores, aplaudido pelo seu merecimento. Foi um compositor que assimilou o fim do romantismo musical na Europa e pelo mundo artístico. Teve as melhores relações com os compositores portugueses, do seu tempo, num exemplo: José Viana da Mota, figura notável da música (1868-1948), representando Portugal nas comemorações centenárias de Beethoven, em Viena- Áustria, 1927.

MASSENET nasceu em Saint-Etienne, viveu a Europa, mais que os outros continentes, pouco visitou a sua cidade natal, que não esqueceu o seu compositor. Deu-lhe toponímia, deu-lhe estátua, deu-lhe o Conservatório Nacional de Música. E  honra o seu  Compositor em festivais, desde o início do século XX. O Grandioso Teatro que no século XXI, fez construir, num imenso espaço arbório, em honra ao seu compositor, é uma memória cultural e activa.

 

Como se sabe, o Portugal musical tem memória” limitada”… Maria Campina uma intérprete de reconhecimento mundial, ficou no fundo do esquecimento. Só Maria João Pires a sucedeu em continuidade e projeção mundial…

Campina abriu escolas, no ensinamento dessa Arte. Deu contributos a alunos que se formaram no seu ensino. Hoje, no Algarve, alunos, adultos e formados, cultivam as searas musicais/culturais, nos chamados Conservatórios desprotegidos, regionais. Foi nessa “ambição” de  Mulher  que, por força maior, deixou os Concertos para iniciar, pelo Algarve, esse sonho cultural e musical. O que não foi fácil para a concertista de reconhecimento, afirmando-me: Antes Professora que “vedeta”. E assim foi o seu viver contínuo. Ainda na política da ditadura… Campina deixou os concertos para fundar em Faro o primeiro Conservatório de Música, depois de Lisboa, Porto e Coimbra. O governo da ditadura não lho permitiu “ousadias”. A Concertista de reconhecimento mundial insiste, faz frente. Mas não ganha ao ditador. Só depois da morte deste, o conservatório é consentido, num alvará, sem apoio. O seu sonho ganhara um passo,  com o proprietário do Teatro Lethes, Sande Lemos, abrindo-lhe a porta para o início do seu projecto. Admirei essa Senhora, pedagoga da música, sem desistência. Até sucumbir.

Em 2007, num apoio do Ministério da Cultura publica-se o livro: “TEATRO   NA  HISTÓRIA DO ALGARVE”. Quatro peças publicadas e, entre elas, a “APPASSIONATA”, em admiráveis e comoventes representações pelo Grupo de Teatro: “Penedo Grande”, numa criação admirável de Lisete Martins, numa representação, em Faro, no Teatro Lethes- 2007.  Num Teatro oitocentista, pleno. Ana Oliveira publicou uma entrevista e um texto : “Numa cerimónia digna, naquele  que é o mais emblemático teatro da região algarvia. A plateia encheu-se de público. No texto “Appassionata”, foca-se a vida de Maria Campina no contexto do panorama musical do ALGARVE. As comoventes e últimas palavras de Campina são bem elucidativas na preocupação desta mulher humanista pelo legado das artes musicais:  “Eu vou, meu companheiro… Pedro, vou com os meus “anjos” e deixo-te a  “Appassionata”. Deixo-te a responsabilidade o futuro musical  num conservatório, no futuro musical que eu não soube  completar, porque não mo deixaram”.

 

“Encontrei”, em memória, os dois :  Massenet e Campina, em  Salzburg – Áustria, na sala do Mozarteum. Já lá vão uns anos. Foi um convite para “Parler et étudier”,  Jules Massenet, foi um admirador de Wolfgang Amadeus Mozart -1756-1791.  Na cidade de Salzburg, terminada a “conversa” saindo do Mozateum, eis que uma senhora se me dirige, sabendo que sou português, me pergunta por Madame Campina, num francês parisiense, informando-me que a conhecera, vitoriosa em Salzburg, em Agosto de 1949. Encetámos conversa, fomos passeando, quando a Senhora me convida ir ao Café Tomaselli, o centro de todos os acontecimentos culturais e políticos da sua cidade de Salzburg. Entrámos no célebre café, fundado no início do século XVIII- 1705, em tempo do pai de Mozart ser frequentador, assim como o filho. Um centro de cultura muito vivo, em atividade constante. Lá estava o piano onde Campina executara, num pedido dos presentes, uma ária de Mozart.

São cidades com memórias e que vivem nelas. Aquela senhora, lembrou a concertista,  que nesse dia de Verão, dia 25 de Agosto – 1949, no Internationale Sommer- Akademie am Mozarteum in Salzburg,  vencera no mundo musical, do após guerra, o  Prémio Mundial e Concerto no Teatro ao ar livre, no célebre FELSENREITSCHULE.  Campina, na sua fragilidade de Mulher Forte, executou  o 6º Konzertsunde de Mozart- Sonate  B-. K.V. 281- Alegro moderato-Andante-Rondo..

 

Lembro o dia 19 de Julho de 1979 e o Ministro Valente de Oliveira e o Governador Civil, Júlio de Almeida Carrapato. O Ministro representa o Presidente da República, General Ramalho Eanes, e entrega à notável e persistente Senhora, a Comenda da Ordem de Instrução Pública, no espaço mais sublime da cultura farense, o TEATRO LETHES, ao seu tempo, também escola de música, onde sempre ensinou até à sua morte, 27 /02/ 1984.

No último quartel do século XX, após a morte de Campina, foi erguido um Conservatório de Música, em Faro, terreno  cedido pela Câmara Municipal de Faro, financiamento da construção pelo Estado Português. Mas o Conservatório continua na posse do “nada”, num grupo político, familiar. Que respeito.

Recordo que em Março de 1998, período de férias de Páscoa, durante uma quinzena- convido figuras políticas do Algarve. E entre elas Justino Ramos -Director do Conservatório do Algarve Maria Campina.  Que responde à minha pergunta, numa resposta conveniente: “Eu considero, como último recurso essa ambição de o Conservatório se tornar numa Escola Pública, em que todos os alunos, o façam gratuitamente e que  queiram aprender música”. No entanto a direção do Conservatório Maria Campina, continua nessa condição familiar.

 

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PorTeodomiro Neto
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascido em 1938. Concluiu licenciatura em História e o doutoramento em "História Política Europeia". Professor universitário, em França, ( entretanto aposentado), tem colaborado com diversos jornais nacionais e regionais. Tem publicadas várias obras no âmbito da história regional, teatro e romance. Entre outras distinções recebeu a Medalha de Mérito Ouro da Cidade de Faro.
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