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Memórias

Memórias: Ingrid Bergman, Quando a diva que nasceu há 100 anos, esteve em Silves

Paula Bravo
Última Atualização: 2018/Set/Seg
Paula Bravo
8 anos atrás
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Na Secção Memórias recuperamos o artigo publicado na edição nº 169, de setembro de 2015, escrito por ocasião da comemoração dos 100 anos do nascimento de Ingrid Bergman:

Ingrid Bergman
Quando a diva que nasceu há 100 anos esteve em Silves

A 29 de agosto de 2015 passaram 100 anos do nascimento de uma das maiores figuras do cinema de todos os tempos: Ingrid Bergman.
No percurso desta vida extraordinária encontram-se alguns momentos ligados diretamente à cidade de Silves, nos dias em que Ingrid passou aqui as suas férias.

A atriz

Nascida em Estocolmo, na Suécia, teve uma infância muito difícil. Perdeu os pais muito cedo e, pouco tempo depois a tia, com quem ficara a viver, sendo criada por um tio.
Formada na prestigiada Royal Dramatic Theater School of Estocolmo, começou a sua carreira no teatro. Aos 17 anos teve o seu primeiro papel no cinema. As décadas seguintes seriam um percurso ascendente que a levou a Hollywood.
No auge da fama conheceu o diretor de cinema italiano Roberto Rossellini, por quem se apaixonou. A sua ligação foi um verdadeiro escândalo, à época, por Ingrid abandonar o marido ( o segundo, com quem esteve casada durante 20 anos) e a filha. Mas foi com Rossellini que todo o talento de Ingrid se revelou, ao longo de anos em que, juntos, fizeram seis filmes e três filhos.
Morreu aos 67 anos, no dia do seu próprio aniversário, após lutar contra o cancro da mama. Na prateleira de casa, três estatuetas, os Óscares com que Holywood distingue os melhores.
Dela diziam que era uma “anti-estrela”, que se tornou atriz para combater a timidez, que não queria passar horas a maquilhar-se ou a escolher a roupa perfeita, que preferia ser ela própria a conduzir e que dispensava as limusines.

… Hans Ostelius chega a Silves…

Começava a década de 60, do século XX, quando o popular jornalista e escritor Hans Ostelius se instalou em Silves, numa casa no Cerro de S. Miguel.
A cidade do castelo vermelho exerceu um grande fascínio sobre este homem, jornalista da rádio e da televisão que se especializou como guia de “Viagens à volta da terra”, que o tornaram famoso.

O presidente da Câmara José Viola e a embaixadora da Suécia, na homenagem a Hans Ostelius (1996)

Terá sido atraído a Portugal pelo livro de Selma Lagerlof, escritora sueca distinguida com o Prémio Nobel da Literatura, em 1909. O seu livro, “O Imperador de Portugal”, é a história de um camponês sueco que enlouquece e que a partir daí se convence que é o imperador de “Portugália”, um lugar onde habitavam pessoas amáveis e cultas, vivendo felizes ao sol, nos seus jardins deslumbrantes, comendo laranjas e uvas e bebendo vinho do Porto.
Por essa ou razão, Hans Ostelius chegou a Silves em 1960 e aqui viveu durante vários anos, sendo um grande divulgador da cidade e do Algarve. A sua memória perdura numa rua com o seu nome, fruto de uma homenagem que lhe foi prestada pela Câmara Municipal de Silves, em 1996.

… e convida Ingrid Bergman…

No ano de 1963, Ingrid Bergman chega a Silves, para passar uns dias na casa de Hans Ostelius que se tornara ( e assim foi durante anos), a residência de férias para muitos famosos.
A famosa estrela de cinema passeia pela cidade e pelo Algarve, provocando alvoroço por onde passa.

Ingrid Bergman, dando autógrafos, em Silves

Mas é na praia de Monte Gordo, em Vila Real de Santo António, que se dá o grande escândalo: acabava de ser inaugurado um hotel de 5 estrelas, o hotel Vasco da Gama. Ingrid Bergman dorme aí uma noite e na manhã seguinte vem até à praia. O povo de Monte Gordo, na sua maioria pescadores pobres que ainda viviam em palhotas, acorre para ver a estrela de cinema, considerada uma das mulheres mais bonitas do mundo. E Ingrid surge na praia de bikini, indiferente aos seus 48 anos.
O bikini ainda mal surgira no cinema, possivelmente nenhum dos presentes tinha visto uma peça daquelas, num tempo em que, na praia, as mulheres tinham de usar fato de banho completo, da cabeça aos pés, e os homens não podiam estar em tronco nu. Foi uma comoção generalizada. É então que, perante o povo pasmado, entra em ação o cabo de mar e aplica a multa, implacável: vinte e cinco tostões.

 

 

 

 

 

... Play it, Sam…
Essa década, de 60, traria ainda ao Algarve estrelas como Cliff Richard, Tom Jones, Paul McCartney, seguidos de muitos outros.
Começa a surgir o Algarve turístico e a contribuição de Hans Ostelius e de Ingrid Bergman, embora não seja citada frequentemente, é inegável.
Nos anos que se seguiram à visita de Ingrid, o número de turistas provenientes da Suécia e de outros países nórdicos aumentou imenso e só iria declinar em 1984, quando um surto epidémico gastrointestinal, na zona de Albufeira, atingiu vários turistas, especialmente suecos, que foram hospitalizados. As agências de viagem tiveram de indemnizar pesadamente os clientes afetados e este episódio teve larga repercussão mediática nesses países. Cerca de 70 mil dormidas foram canceladas e o Algarve surgiu como uma região com problemas sanitários graves, capazes de colocar em risco os turistas.
Nos últimos anos, o número de turistas suecos tem vindo a aumentar. O bom clima, o nível de vida barato e as regalias fiscais têm trazido também um número crescente de suecos que procuram o Algarve para residir, especialmente na zona de Tavira. De tal forma que, em janeiro deste ano, foi aberto um novo Consulado Honorário da Suécia, em Tavira.
À margem de todos estes números, a memória da diva que um dia passeou por Silves, permanece viva. Muitos não terão visto a maioria dos seus filmes, nem tão pouco os que foram considerados como os melhores, mas até as gerações mais jovens conhecem e têm-se rendido ao seu sorriso e ao seu ar triste e encantador, no filme “Casablanca” quando se ouve a famosa frase “Play it, Sam”…

 

Texto: Paula Bravo ( fã declarada)

Nota: Para elaboração deste texto recorreu-se à Wikipedia, para os dados biográficos de Ingrid Bergman e ao blogue do Turismo do Algarve para a foto publicada; ao Boletim da Câmara Municipal de Silves ( julho 1996), para os dados sobre Hans Ostelius e foto publicada. O episódio de Monte Gordo é relatado num artigo do jornalista do Público, Paulo Moura, em fevereiro de 2013.
Já os dados relativos ao turismo sueco, constam do artigo “Promoção Turística de Portugal nos países nórdicos (1992-1993)”, de César Faustino, de dezembro de 2014, no site: http://eshtoris.hypotheses.org.

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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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