Há quatro anos foi anunciada a criação da Reserva Natural da Lagoa dos Salgados.
Quatro anos depois, a Reserva Natural da Lagoa dos Salgados continua a ser uma promessa, sucessivamente adiada, não obstante a pressão de associações e do Município de Silves.
A proteção desta importante zona húmida e um apelo à ação por parte das entidades competentes é o tema de um comunicado conjunto de várias associações de defesa do ambiente alertando para que, na ausência dessa proteção, “os problemas antigos repetem-se no presente”.
Este verão voltaram a aparecer peixes, caranguejos e aves mortas — entre as quais espécies protegidas como colhereiros, íbis-pretas, garças e patos — na Ribeira de Alcantarilha, no concelho de Silves. Segundo as avaliações realizadas no local, a situação estará relacionada com baixos níveis de oxigénio na água e com as elevadas temperaturas, uma conjunção de fatores que cria condições para episódios de botulismo, um tipo de intoxicação grave.
Para as associações subscritoras, esta situação é uma consequência da “falta de uma gestão proativa de um dos mais importantes sistemas húmidos no litoral algarvio. Episódios semelhantes têm sido registados em zonas húmidas próximas, como a Lagoa dos Salgados, pelo que estes não podem continuar a ser encarados como problemas distintos.”
“O que aconteceu na Ribeira de Alcantarilha não é, por isso, uma surpresa, mas sim mais um alerta para a necessidade de haver uma gestão integrada de todo este território. Estas situações são o resultado de uma gestão reativa, que se tem limitado a intervenções pontuais para resolver emergências, pelo que é necessária uma mudança de abordagem focada na prevenção e na gestão proativa para o bom estado de preservação destes ecossistemas”.
Para estas associações, a “proposta de Reserva Natural defende uma abordagem de proteção integrada, reconhecendo a importância das zonas húmidas, dunas e áreas agrícolas enquanto ecossistemas integrados. E isso é particularmente importante num sistema onde a quantidade e a qualidade da água determinam diretamente a sobrevivência dos organismos que dela dependem e da saúde humana.”
A constituição da Reserva Natural da Lagoa dos Salgados, que abrange mais de 400 hectares, incluindo a ribeira de Alcantarilha, a poente; a Lagoa dos Salgados, na ribeira de Espiche, a nascente; o sistema dunar e as áreas agrícolas envolventes torna-se, portanto, essencial “pela relevância dos valores naturais presentes, cuja importância não se limita à região algarvia”.
A classificação como Reserva Natural “não impediria, por si só, todos os fenómenos associados a períodos de seca, temperaturas extremas ou baixos níveis de oxigénio”, acrescentam as associações, “mas permitiria fazer aquilo que hoje continua a faltar: prevenir, monitorizar e gerir o sistema como um todo. No fundo, dotar a área de um Programa Especial obrigatoriamente focado na regulação e salvaguarda dos valores naturais, cumprindo os pressupostos de uma área protegida de âmbito nacional — com objetivos de conservação e gestão claros, alicerçados na articulação entre as diferentes entidades com responsabilidades sobre a água, conservação da natureza e território, para benefício de todos os que vivem ou visitam a região.
Estamos perante um território largamente reconhecido como extraordinário do ponto de vista ambiental, mas que continua sem o instrumento legal de proteção e gestão que há anos é reclamado. A questão já não é saber se devemos proteger a Lagoa dos Salgados. A questão é saber quanto tempo mais temos de esperar para a proteção real deste território.”
O que está a ser pedido? Um apelo à ação
As organizações de defesa do ambiente consideram indispensável que as entidades competentes:
- avancem com urgência com a criação da Reserva Natural da Lagoa dos Salgados;
- estabeleçam um modelo de gestão integrado;
- reforcem a monitorização regular dos níveis e da qualidade da água;
- definam medidas de prevenção para situações de seca, temperaturas extremas e redução dos níveis de oxigénio;
- garantam uma articulação permanente entre APA/ARH Algarve, ICNF, Município de Silves, Município de Albufeira e demais entidades com responsabilidades no território;
- e assegurem que a gestão deste sistema seja baseada em critérios científicos, monitorização contínua e objetivos de conservação claramente definidos.
ONGAs subscritoras: A Rocha, Almargem, WWF Portugal, Associação Vita Nativa, Liga para a Proteção da Natureza, Quercus, Sociedade Portuguesa de Botânica, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, ZERO.


