Foi em 1992 que, em Silves, nasceu a banda de metal gótico Inhuman. Três décadas depois — entre pausas, mudanças de formação e reinvenções — o projeto mantém-se vivo e lança em 2025 Gloriae, um álbum que, segundo o vocalista Pedro Garcia, representa a consolidação da identidade atual da banda.
À conversa com o músico, revisitámos o percurso do grupo, as transformações no panorama musical independente e o processo criativo por detrás do mais recente trabalho.
Dos anos 90 ao reconhecimento internacional
A história dos Inhuman começou “com poucas expectativas”, recorda Pedro Garcia. O objetivo inicial era simples: gravar uma demo tape que deixasse registo do que faziam. Conseguiram-no — e a receção superou largamente o que imaginavam.
A demo circulou não só em Portugal, mas também pela Europa, impulsionando a ambição de gravar um primeiro álbum, que acabou por acontecer em 1996. O disco alcançou reconhecimento no circuito underground, com críticas oriundas de vários pontos do mundo, incluindo Estados Unidos e Ásia.
Seguiu-se um segundo álbum, editado pela União Lisboa, numa fase em que a editora reunia artistas de diferentes géneros musicais. A gravação decorreu em Inglaterra, com um produtor britânico que, à época, trabalhava com nomes relevantes do metal internacional. A experiência marcou profundamente a banda — não apenas pela dimensão profissional, mas também pela visibilidade mediática alcançada, incluindo uma reportagem televisiva.
Contudo, a crescente pressão trouxe desafios internos. “Talvez por falta de maturidade”, admite o vocalista, começaram a surgir tensões. Pouco depois do lançamento do segundo álbum, Pedro Garcia deixou a banda. O projeto ainda prosseguiu com outro vocalista, mas acabaria por cessar atividade antes da gravação de um terceiro disco.
O regresso e a persistência
Apesar da interrupção, “o bichinho da música nunca desapareceu”, reforça o artista. Em 2017, os membros originais reuniram-se para assinalar os 20 anos do primeiro álbum. O reencontro resultou em novos concertos e, em 2020, no lançamento de um disco gravado pouco antes da pandemia.
Entre restrições e mudanças na formação, os Inhuman voltaram ao estúdio, culminando agora em Gloriae, editado em 2025.
Uma identidade em construção
Se nos anos 90 o destaque nacional era mais acessível pela menor quantidade de bandas no género, hoje o cenário é substancialmente diferente. Pedro Garcia reconhece que o panorama musical se transformou radicalmente: multiplicaram-se os projetos, diversificaram-se os canais de divulgação e alteraram-se os hábitos de consumo.
“Nos anos 90 divulgávamos a nossa música por telefone, cartas e cassetes enviadas para rádios e revistas. Hoje é tudo digital”, explica. A adaptação às novas ferramentas — redes sociais e plataformas de streaming — tem sido um processo gradual para uma banda cuja génese pertence a outra era.
Musicalmente, os Inhuman nasceram sob influência do metal gótico emergente dos anos 90, cruzando-o com elementos de metal industrial. Desde cedo procuraram conjugar diferentes estilos, numa tentativa de criar um som próprio — um processo que, segundo o vocalista, continua em evolução. “Acho que ainda estamos em desenvolvimento”, afirma, embora considere que no novo álbum a banda se aproxima de uma identidade mais definida.

Gloriae: conceito e maturidade
O mais recente trabalho distingue-se desde logo pelo método de composição. Ao contrário dos discos anteriores, tradicionalmente construídos em ensaio coletivo, Gloriae surgiu num contexto atípico: a banda encontrava-se reduzida a dois elementos — Pedro Garcia e o guitarrista João Pedro.
Desta vez, a base musical foi composta maioritariamente por João Pedro, que assumiu a criação inicial dos temas. As ideias eram depois partilhadas e trabalhadas em conjunto, incluindo com o produtor, cuja presença externa é considerada fundamental para garantir distanciamento crítico e apurar decisões artísticas.
O título, em latim, significa “da glória” ou “através da glória”. O conceito do álbum gira precisamente em torno da glória — ou da sua ausência. A opção por uma capa integralmente preta, com letras vermelhas, traduz essa reflexão. “Não encontrámos nenhum elemento gráfico que representasse a glória para toda a gente”, explica o vocalista. A solução foi deixar espaço à interpretação individual.
Em termos artísticos, Pedro Garcia reconhece uma evolução técnica e composicional. A maturidade — fruto da idade e da experiência — reflete-se na forma como estruturam as músicas e desenvolvem os temas.
Entre a adversidade e o futuro
Nem tudo correu de forma linear durante a gravação. O vocalista revela, com humor, que registou as vozes numa semana marcada por uma forte sinusite, medicado e longe das melhores condições físicas. “A semana que tinha para gravar era aquela e teve de ser”, recorda.
Com a formação atualmente estabilizada, os Inhuman já começar
am a pensar num próximo álbum, embora ainda numa fase embrionária. Para já, o foco está na divulgação de Gloriae e no reencontro com o público.
O apelo final é simples: que as pessoas ouçam a música da banda, acompanhem o seu percurso e compareçam nos concertos. Trinta e três anos depois da fundação, os Inhuman continuam a provar que a persistência é, também ela, uma forma de glória.


