No dia 28 de janeiro de 2026, os silvenses foram prevenidos com um alerta de cheia iminente, que se confirmou horas depois. Para muitos, foi a primeira vez que assistiram a tal acontecimento, dado que a última grande cheia ocorreu em 1996. A mais recente, ocorrida a 7 de fevereiro de 2001 e já registada pelo Terra Ruiva, alcançou uma dimensão muito menor.
Na altura em que esta edição está a ser preparada, vive-se uma ligeira trégua, após a passagem da depressão Kristin, já classificada como a pior tempestade que alguma vez atingiu o país. Mas a semana que se aproxima traz anúncios de chuva forte e alertas da Proteçãoo Civil. Agora, o que mais se teme é a ocorrência de grandes cheias, uma vez que os solos se encontram completamente saturados de água e as barragens cheias, a fazerem descargas consecutivas.

A cidade de Silves poderá vir a ser atingida de novo, como foi no dia 28 de janeiro, quando as barragens de Odelouca, Funcho e Arade começaram a descarregar grandes massas de água que obrigaram o rio a galgar as suas margens.
Mais uma vez, o rio ditará as suas regras.
O Rio Arade
O Rio Arade é um elemento central da história de Silves. Fonte de água, via de comunicação e motor económico em tempos passados, o Arade é também responsável por um fenómeno recorrente que marca a memória coletiva da cidade: as cheias.
Os registos históricos indicam que as cheias do Rio Arade não são um fenómeno recente. Desde a Antiguidade, o Arade era navegável em vários troços, permitindo a ligação entre o litoral e o interior algarvio. Durante o período islâmico, quando Silves era Xelb, uma das cidades mais importantes do Al-Gharb al-Andalus, o rio teve um papel estratégico fundamental.
O geógrafo árabe al-Idrisi, no século XII, descreve Silves como uma cidade próspera, fértil e ligada ao rio, sublinhando a abundância agrícola da região. Essa fertilidade resultava, em parte, das cheias periódicas, que depositavam sedimentos nos campos ribeirinhos. As cheias condicionavam o uso do solo: as zonas baixas eram reservadas à agricultura, armazéns e ancoradouros, enquanto os núcleos habitacionais se desenvolviam em cotas mais elevadas, numa adaptação clara ao comportamento do Arade.
Entre os séculos XVII e XVIII, começam a surgir referências mais regulares a cheias nos documentos administrativos e paroquiais. Invernos chuvosos provocavam o transbordo do rio, inundando campos agrícolas e afetando colheitas. Num Algarve fortemente dependente da produção agrícola, estes episódios tinham consequências graves, incluindo escassez alimentar e dificuldades económicas.
No século XIX, com o desenvolvimento da imprensa e de registos mais sistemáticos, as cheias tornam-se mais visíveis na documentação. Há relatos de invernos particularmente severos em que o Arade invadiu a baixa de Silves, danificando casas, celeiros e vias de comunicação. Um padrão repete-se: chuvas intensas, subida rápida do caudal e alagamento das zonas ribeirinhas. A localização da baixa de Silves, numa área plana junto ao rio, sempre a tornou particularmente vulnerável.
As cheias eram encaradas como inevitáveis. O rio era visto como uma força natural impossível de dominar, embora o assoreamento progressivo lhe retirasse muito da sua imponência de outrora.
O século XX trouxe novas respostas ao problema das cheias. A construção da Barragem do Arade, na década de 1950, e mais tarde da Barragem do Funcho, nos anos 1990, teve como objetivos principais o abastecimento de água e a rega, mas também a regularização dos caudais do rio.

Apesar destas infraestruturas, Silves continuou a registar episódios de cheia, como as já citadas, nos anos de 1996 e 2001, que afetaram a zona ribeirinha e áreas comerciais da cidade. Estas ocorrências demonstraram que, embora as barragens reduzam o risco, não eliminam totalmente a possibilidade de cheias, sobretudo em anos de precipitação excecional. Nessas alturas, podem as barragens funcionar até ao contrário, como aconteceu em 2001.
Lendo a notícia publicada em 2001, no Terra Ruiva, encontram-se as declarações do então Governador Civil de Faro, eng. Fialho Anastácio que admitia ter havido descoordenação nas descargas das barragens do Funcho e do Arade, tuteladas por organismos diferentes. O que levou a que, na noite anterior à cheia, tivessem feito descargas com um caudal que chegou a atingir os 300 metros cúbicos de água por segundo.
Nesse ano, o mau tempo, que se estendeu ao Algarve, provocou prejuízos de mais de um milhão de euros, devido principalmente aos estragos ocorridos na rede viária.

Cheias no século XXI: menos frequentes, mas ainda presentes
Nas últimas décadas, o Algarve tem vivido longos períodos de seca, o que fez com que o tema das cheias parecesse distante.
O inverno de 2025/2026, com uma série de depressões sucessivas, veio relembrar a força do rio.
Após semanas de precipitação prolongada e muito acima da média, as barragens da bacia do Arade atingiram níveis elevados, obrigando a descargas controladas. A conjugação de solos saturados, chuva contínua e marés altas levou ao transbordo do rio em Silves, inundando novamente zonas baixas da cidade e motivando a declaração de situação de alerta municipal.
As cheias do Rio Arade fazem parte da identidade histórica de Silves, mas representam também um desafio atual. Num contexto de alterações climáticas, em que se prevê um aumento de fenómenos extremos — longos períodos de seca alternados com chuvas intensas —, a gestão do risco de cheia torna-se cada vez mais importante.
Planeamento urbano, limpeza e manutenção das linhas de água, sistemas de aviso à população e uma gestão cuidadosa das barragens serão fundamentais para minimizar impactos futuros.
Ter a pretensão de controlar a natureza, nunca passará de uma miragem. O Arade continuará a correr, ao longo dos seus 75 quilómetros, atravessando os concelhos de Silves, Lagoa e Portimão, alimentado pelas ribeiras que escorrem da serra, como sempre correu, indiferente à natureza humana. Cabe-nos a nós respeitá-lo e antecipar os seus ciclos de vida.
Ao longo dos séculos, as cheias do Arade moldaram o território e a identidade de Silves. Marcas de água nas paredes, histórias de ruas transformadas em canais e a vigilância constante do rio nos meses de inverno fazem parte da memória coletiva da cidade.
Compreender a dimensão histórica das cheias é essencial para pensar o futuro. O Arade sempre correu segundo os seus próprios ciclos. A tecnologia pode mitigar riscos, mas não apaga séculos de relação entre um rio antigo e uma cidade construída junto às suas margens. Conviver com o Arade continuará a exigir respeito, planeamento e memória.







