Na edição passada falámos da importância do tempo na fase de crescimento do indivíduo e do impacto que tem, no nosso desenvolvimento, o tempo que nos dedicamos e nos dedicam. Nesta edição partilharei algumas ideias sobre uma outra etapa de vida, em que o tempo ganha um outro valor. Continuando a ter um impacto enorme o tempo que nos dedicamos e nos dedicam.
O envelhecimento é um processo único, variando de pessoa para pessoa. Ou chamemos-lhes “outonecer”, como tão bem designa esta fase o Dr. Júlio Machado Vaz.
Vivemos cada vez mais anos — e isso é uma excelente notícia. Mas viver mais não significa necessariamente viver melhor. O verdadeiro desafio do século XXI é garantir que os nossos anos pós reforma/pós carreira sejam cheios de saúde, autonomia e propósito. É aqui que entra o conceito de envelhecimento ativo.
Envelhecer ativamente não é apenas praticar exercício físico — embora esse seja um pilar fundamental. É também manter a mente desperta, o coração ligado aos outros e a vontade de aprender sempre viva. Trata-se de encarar a velhice não como um fim, mas como uma nova etapa de oportunidades.
Nas nossas comunidades, especialmente nas regiões mais pequenas, vemos muitas vezes idosos que se isolam, que deixam de participar na vida social, ou que são vistos apenas como destinatários de cuidados. No entanto, as pessoas mais velhas têm um papel essencial no tecido social: guardam a memória coletiva, partilham saberes, apoiam famílias, e inspiram gerações mais novas com o seu exemplo de resiliência.
Promover o envelhecimento ativo é, por isso, uma responsabilidade de todos nós — cidadãos, instituições, autarquias e famílias.
Atividades simples podem fazer uma enorme diferença: uma caminhada diária, um grupo de leitura, um ateliê de artes, um curso de informática, ou até o voluntariado. Tudo o que estimula o corpo, o intelecto e a convivência ajuda a prevenir doenças, a melhorar o bem-estar e a fortalecer o sentido de pertença e de utilidade.
Num país que envelhece rapidamente, é urgente mudar o olhar sobre a velhice. O envelhecimento ativo não é um luxo — é uma necessidade. Cada pessoa deve ter a oportunidade de envelhecer com dignidade, saúde e alegria. E isso começa por acreditarmos, enquanto comunidade, que envelhecer é continuar a viver — plenamente.
A perceção das várias perdas por parte do/a idoso/a, associada às alterações de rotina, aos constrangimentos e às mudanças nas relações com outros, favorecem uma maior fragilidade e vulnerabilidade psicológica e emocional. Uma atenção e sensibilidade redobradas aos sinais e sintomas são necessárias, diferenciado o normativo do patológico. Velhice não é sinónimo de depressão e de patologia mental.
Habitualmente quando falamos de alterações associadas ao envelhecimento são ativadas automaticamente as perdas/limitações. Contudo, apesar destas, há um conjunto de capacidades que se mantém e outras até que aumentam.
Mantêm-se assim os conhecimentos adquiridos ao longo da vida (inteligência cristalizada), a inteligência verbal, a atenção, a memória a longo prazo, a habilidade de cálculo e a maioria das aptidões de linguagem. Aumentam o vocabulário, as competências sociais, a capacidade de resolução de problemas práticos, o pragmatismo e a sabedoria. Na China e no Japão, a velhice é sinónimo de sabedoria e respeito. Os japoneses consultam os seus anciãos antes de qualquer grande decisão, por considerarem os seus conselhos sábios e experientes.
Fatores protetores para um envelhecimento saudável são a existência de objetivos, uma emocionalidade mais positiva (com consequente impacto na satisfação de vida; maior foco nos ganhos que nas perdas) e relações sociais saudáveis (menor isolamento). Ter um propósito, uma razão para começar cada dia, algo para partilhar e contribuir, cuidar do corpo e da mente.
No geral, envelhecer deve ser também ganhar um lugar importante e crucial nas famílias e nas sociedades, uma vez que os/as idosos/as devem manter um elevado envolvimento na comunidade, desempenhar cargos, realizar voluntariado. São ainda o apoio insubstituível das famílias, com a sua disponibilidade, sensibilidade e saber acumulado.
Cuidar dos nossos maiores, é cuidar das nossas raízes e da nossa identidade.
“Envelhecer sem vergonha é usar ao máximo todos os talentos que Deus me deu! (…) Envelhecer sem vergonha é não ter vergonha de viver!”-Martha Gabriel


