O Algarve é muitas vezes associado às praias e ao turismo balnear, mas o interior da região esconde um património com milhões de anos, capaz de revelar capítulos fundamentais da história do planeta.
- Paisagens que são livros de pedra
- À descoberta do nosso território
- Ponto 1
- – Fortaleza de Armação de Pêra
- Ponto 2
- Lagoa dos Salgados – Tsunamito de 1755
- Ponto 3
- Rios de Lava de São Bartolomeu de Messines
- Ponto 4
- Continente Antigo de Vale Fuzeiros
- Ponto 5
- Mar Antigo de Vale Fuzeiros
- Ponto 6
- Castelo de Silves
- Outras rotas e pontos de interesse
Esse legado ganhou nova projeção com a criação do Geoparque Algarvensis, que em outubro será reconhecido oficialmente pela UNESCO, como Geoparque Mundial, e que se estende pelos concelhos de Silves, Loulé e Albufeira.
Em Silves, o projeto assume um significado especial. O concelho, já conhecido pela sua herança cultural e histórica, torna-se agora também palco privilegiado para a valorização da geodiversidade, da ciência e do turismo sustentável.
Sabia que em São Bartolomeu de Messines pode “ver” vulcões? Esta e outras propostas fazem parte da “Rota do Mar à Rocha Vermelha” que o Terra Ruiva divulga.
Paisagens que são livros de pedra
O interior algarvio tem uma riqueza única, comparável às melhores regiões geológicas do planeta, como tem sido destacado por técnicos do Geoparque, e o concelho de Silves é um belo representante dessa riqueza, em particular a freguesia de São Bartolomeu de Messines.
As serras e vales de Silves guardam formações geológicas que remontam a centenas de milhões de anos. Aqui podem encontrar-se fósseis raros e estruturas rochosas que testemunham eras em que o território tinha um aspeto muito diferente do atual. Para geólogos e investigadores, trata-se de um verdadeiro “laboratório a céu aberto”.
Para proteger estes sítios, o Município de Silves assinou, a 1 setembro de 2025, dois acordos de colaboração com os proprietários de prédios onde foram identificados geossítios com interesse de classificação, na Freguesia de São Bartolomeu de Messines, em particular no Monte de São José.
Com estes acordos, “pretende-se dar a conhecer o património geológico do concelho de Silves, de grande valor científico, e dar um primeiro passo no sentido de se proceder à sua classificação.”
Deste modo, abre-se a possibilidade de visitar locais que antes não estavam acessíveis, dando a conhecer sítios de grande relevância geológica, e permitir a sua divulgação quer a públicos especializados, quer ao público em geral.
A esta riqueza geológica soma-se a riqueza histórica de Silves, a antiga capital do Algarve, dominada pelo castelo de arenito vermelho e a riqueza natural de Armação de Pêra, que a icónica Fortaleza protege.
As tradições locais, a agricultura, o artesanato e a gastronomia encontram neste projeto uma oportunidade para se ligar a uma estratégia de valorização territorial mais ampla.
As comunidades locais são chamadas a participar ativamente, reforçando a ideia de que o Geoparque é, acima de tudo, um projeto feito de pessoas para pessoas.
À descoberta do nosso território
Como “santos da casa não fazem milagres”, o mais certo é que o cidadão comum, que tem ouvido falar do Geoparque Algarvensis, não tenha ainda ido à descoberta deste nosso território.
No concelho de Silves, encontram-se muitos locais de interesse e várias rotas já com sinalética. A mais completa dá pelo nome de Rota “Do Mar à Rocha Vermelha”, que liga paisagens marinhas a vestígios de vulcões e oceanos antigos, aos monumentos de Silves, como a Sé, o Castelo e o Museu Municipal de Arqueologia.
Ponto 1
– Fortaleza de Armação de Pêra
Edificada por determinação do capitão lacobrigense João Galego (c.1610 – 1680), a Fortaleza de Santo António da Pedra da Galé terá ficado concluída em 1667. O seu construtor fora capitão da Companhia dos Mareantes em Vila Nova de Portimão de onde transitou, em 1660, para o forte de Santo António, situado junto à armação da Pedra da Galé. Quer a fortaleza quer a ermida foram construídas a suas expensas. Exerceu o cargo até ao seu falecimento, sendo substituído pelo filho e mais tarde pelo neto, todos de nome João Galego.
A fortificação tinha por objetivo proporcionar a proteção, contra os ataques de corsários, às povoações de Alcantarilha e Pêra, bem como às armações de atum que eram lançadas na baía.
O tsunami que se seguiu ao sismo de 1755, devastou profundamente a fortaleza e a ermida. Pouco depois reedificadas, a ermida com 32 m2, apresenta nave única e planta retangular, com portal de verga reta e singelo campanário, consagrada a Santo António é também denominada por Nossa Senhora dos Aflitos.
O monumento foi classificado como Imóvel de Interesse Público em 1978. Na década de 1960 e face a grandes desmoronamentos, provocados pela forte agitação marítima, nomeadamente em 1963 e 1968, a DGEMN procedeu à sua reconstrução. Em 1977, foi a capela intervencionada. Em 2013 incidiram trabalhos de restauro e consolidação no arco e paredes adjacentes. Núcleo genético da vila, a Fortaleza, continua a ser o símbolo da vila de Armação de Pêra.
Ponto 2
Lagoa dos Salgados – Tsunamito de 1755
O tsunami de 1755 tem sido amplamente estudado na região do Algarve, onde deixou marcas tanto em terra como no mar.
Três desses estudos foram realizados no território do Algarvensis, analisando os sedimentos no estuário da Ribeira de Quarteira e da Ribeira de Alcantarilha, na Lagoa dos Salgados e na plataforma continental. Na Lagoa dos Salgados, os investigadores conseguiram determinar a direção exata da entrada da onda no local, o que permitiu estimar a sua altura máxima, que foi menos de 10 metros.
Ponto 3
Rios de Lava de São Bartolomeu de Messines
As rochas vulcânicas que se observam neste sítio, no Monte de São José, junto à entrada da Vila, ao lado da EN 124, fazem parte de um importante episódio vulcânico global denominado por Província Magmática do Atlântico Central (abreviada como CAMP), e tem uma idade de aproximadamente de 201 milhões de anos, coincidindo com início do período Jurássico.
O CAMP foi um episódio de intenso vulcanismo que, apesar de curto, expeliu enormes volumes de lava e piroclastos de composição basáltica. Este é um dos melhores lugares para ver essas rochas vulcânicas e entender como elas se formaram.
Ponto 4
Continente Antigo de Vale Fuzeiros
O “Algarve Vermelho”, como o Castelo de Silves, deve a sua cor ao conjunto de sedimentos denominados como “Grupo de Silves”. Esta sequência de sedimentos avermelhados foi depositada durante o Triássico Superior e base do Jurássico Inferior (230 a 200 milhões de anos atrás) em rios, lagos e lagoas do único continente existente na altura, Pangeia, o qual se começava a separar. Apesar do “Grupo de Silves” ser visível em todo o Algarve, numa estreita faixa de direcção E-W, a sua sequência mais completa encontra-se na região de São Bartolomeu de Messines – Amorosa – Vale Fuzeiros.
Destaca-se a presença de fósseis de vertebrados, como o Metoposaurus algarvensis, fitossauros e placodontes. O grupo de Silves termina a topo com o Complexo Vulcano-Sedimentar, cuja idade é atribuída à base do Jurássico Inferior (201 milhões de anos).
Ponto 5
Mar Antigo de Vale Fuzeiros
Na Serra Algarvia encontram-se as rochas mais antigas do Algarve, datadas até cerca de 345 milhões de anos atrás, do período Carbónico. As camadas de pelitos laminados e grauvaques característicos da serra acumularam-se no fundo de um antigo oceano, denominado de Rheic.
Em Vale Fuzeiros, aflora a Formação Brejeira, que tem entre 318 e 307 milhões de anos (por volta da altura em que os primeiros répteis começavam a surgir!). Aqui, ainda se podem ver marcas de correntes, estruturas de erosão na base das camadas de grauvaque e impressões de plantas, cujos fragmentos também foram transportados pelas correntes de turbidez.
Também se encontraram na Formação Brejeira fósseis de goniatites (espécies extintas de moluscos marinhos de concha espiralada), que ajudam a contar a história de um mar profundo, varrido por correntes de turbidez – uma espécie de avalanches submarinas de lama e areia que descem ao longo do talude continental em direção ao fundo do oceano. Ao se acumularem depósitos dessas sucessivas correntes de turbidez, que mais tarde foram pressionados e aquecidos, formaram-se os xistos e grauvaques da serra.
Ponto 6
Castelo de Silves
Antiga alcáçova islâmica é referida nas fontes históricas a partir do século X. Possui planta irregular, é construída em taipa militar revestida por blocos de grés de Silves compondo-se por dez torres sendo duas do tipo albarrã. O acesso às torres faz-se através do passeio de ronda e a entrada no imóvel a partir de uma porta dupla com galeria.
No interior observam-se dois dispositivos de armazenamento de água destacando-se o Algibe, bem como silos e ruínas de antigas habitações palatinas.
Outras rotas e pontos de interesse
Para quem queira explorar o Geoparque Algarvensis a partir de Silves, há já vários pontos de apoio e recursos disponíveis:
- Cerro de São Miguel (Barrocal de Silves) – um dos pontos altos do território, com vistas deslumbrantes sobre a serra e a costa algarvia.
- Barragem do Arade e Vale do Arade – espaço onde a natureza, a água e a geologia se encontram, ideal para caminhadas e observação de aves.
- Percurso da Via Algarviana (troços em Silves) – parte integrante do grande trilho que atravessa o Algarve, proporcionando uma viagem pelo interior serrano.
- Pedreira abandonada em São Marcos da Serra, pode-se observar o limite entre as tubiditos da Formação Mira, e as rochas da Formação Brejeira. Também se observa neste local o vale formado pela Falha de São Marcos da Serra-Quarteira, uma enorme fratura que atravessa as rochas do território de noroeste a sudeste e separa a Serra do Caldeirão a este, da Serra de Monchique.
- Monchique-Silves Geotrail (troços incluídos) – rota interpretativa que liga o património geológico da serra à zona de Silves, com painéis explicativos.
- Castelo de Silves, Sé de Silves e Museu Municipal de Arqueologia – pontos culturais onde a história humana dialoga com a geologia que forneceu a matéria-prima para a cidade medieval.
Estes percursos e locais permitem que visitantes e residentes descubram o território de forma integrada, combinando natureza, cultura e ciência, sempre com uma perspetiva de turismo sustentável.
Todas as informações sobre estes percursos e território podem ser encontrados no Posto de Turismo de Silves, localizado na Praça do Município, ou na plataforma online do Geoparque Algarvensis que disponibiliza informações atualizadas sobre rotas, eventos, visitas educativas e projetos em curso (www.geoparquealgarvensis.pt).
A melhor forma de conhecer o Geoparque é a pé, através dos trilhos que cruzam a serra e o barrocal, ou em visitas guiadas organizadas pelas entidades locais. Para famílias, grupos escolares ou visitantes ocasionais, há programas específicos que permitem mergulhar na geologia, na biodiversidade e na cultura de Silves.












