Construída na segunda metade do século XIV-inícios do século XV, a ponte medieval de Silves foi derrubada por uma grande cheia, antes de 1439, e objecto de uma reconstrução inconclusiva, cerca de 1440-1443, obra que só estaria acabada em 1473, para voltar a ruir em finais do século XVI e outra vez ser reparada, cerca de 1621 (vd. Docs. I, II e III).
Por falta de meios humanos e financeiros, as referidas reparações foram incompletas e deficientes, de modo que no princípio do século XVIII houve necessidade e condições para uma grande intervenção, sendo adjudicada a empreitada a Inácio Mendes*, um prestigiado mestre pedreiro de Faro (obra da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Olhão (1698), reconstrução total da Casa do Compromisso Marítimo de Faro (1709) e provável autor da reconstrução da frontaria da Igreja de São Bartolomeu de Messines (1716).

O documento que se segue, em resumo, foi revelado por Francisco Lameira e publicado em excertos por João Pedro Bernardes e Maria José Gonçalves (Monumentos 23, 2005) e mostra bem o alcance e profundidade da intervenção que conferiu à ponte velha de Silves a configuração que ainda actualmente apresenta, no essencial.
1716, Março, 2 (Faro) – Escritura de obrigação que faz Ignacio Mendes da obra da Ponte de Silves (Arquivo Distrital de Faro, Livros Notariais de Faro, Tabelião Borralho, Livro 12, fls. 34-35v. – Cota M242).
Aos dois dias de Março de 1716, na cidade de Faro, “nas pousadas do Doutor Manuel Lopes Ferreira, ouvidor e provedor desta comarca e superintendente da obra da ponte de Silves, onde eu tabelião [Manuel Fausto Borralho] fui, por ser chamado, sendo aí presente também Ignácio Mendes, mestre de obras, morador nesta cidade”, “logo por ele me foi dito” “que a ele lhe fora arrematada em praça pública a obra da dita ponte de Silves em a quantia de sete mil cruzados e cem mil réis que ele dito há-de fazer, com o favor de Deus”, conforme os apontamentos, condições e “obrigações e forma como há-de ser consertada a dita ponte” e que serão feitos de novo o primeiro e segundo arcos, “e junto a este está o terceiro arco que está pela parte da serra, em parte arruinado, falta-lhe várias pedras” e ao quarto arco faltam quarenta pedras, “e junto a este que é o quinto e último levará trinta pedras na mesma forma do dito e as juntas dos ditos três arcos que hão-de ser reparadas todas tomadas com cal e por cima dos talha-mares que acompanham os ditos arcos vão quatro arcos pequenos, os quais hão-de ser tapados à face de pedra e cal e entupidos no desvão (?) de forma que pareça que na dita ponte não há tais arcos. E outrossim será obrigado a fazer na dita ponte noventa varas de parapeito para resguardo da gente que pela dita ponte passa, na forma que está o velho, e assim mais lhe mandará fazer calçada de tal forma que fique com boa expedição para saírem as águas, assim para uma como para a outra parte”. E o dito arrematante “fará a obra na forma dos apontamentos e a fará de pedra ruiva que é da qualidade da mesma pedra que está feita a ponte velha e se poderá ele arrematante aproveitar da pedra que tem a dita ponte para o que lhe for necessário”. Seguem-se as condições e prazos dos pagamentos, isenta-se o arrematante da responsabilidade por qualquer ruína que a ponte possa ter antes de estar consertada e autoriza-se a cortar madeira em Monchique e Loubite. E o arrematante obriga-se a fazer a obra nas condições declaradas e assina o instrumento público, na presença de duas testemunhas (André de Mendonça e António Nunes Calado).
Uma gravura da cidade, em 1844 (publ. J. B. Silva Lopes, Relação da Derrota Naval…), além de nos mostrar que a obra da ponte (r) foi executada conforme o projecto, tem a particularidade de representar ilhotas no rio (X), o moinho da Porta (S) e as muralhas (a).

*Inácio Mendes (falecido em 1727) tem sido estudado e referido por vários investigadores algarvios (Francisco Lameira, Daniel Santana, Aurélio Cabrita, Marco Sousa Santos, Tânia Alexandra Cabecinha Rodrigues).








