É a primeira mulher a assumir um cargo de comando nos Bombeiros Voluntários de São Bartolomeu de Messines e é a única no Algarve, em funções de liderança operacional.
Conhece todos os cantos à casa, que começou a frequentar ainda bebé, ao colo do pai, um dos bombeiros mais antigos na corporação.
No dia 7 de junho de 2025 tomou posse como Adjunto do Comando, tornando-se no “braço direito” do Comandante Fábio Neto.
Na cerimónia de tomada de posse foi o pai, o Sub-Chefe Silvestre Santos, quem colocou as insígnias na farda da filha. Emocionado, claro está. E cheio de orgulho por ver a sua menina, agora com 34 anos, assumir um cargo de comando nos Bombeiros Voluntários de São Bartolomeu de Messines, no quartel que, para ambos, é “uma segunda casa”, como nos diz Sara Santos.

O percurso que nos traz a este momento foi feito de várias etapas. Sendo o pai um bombeiro muito dedicado, os tempos livres das duas filhas eram preenchidos com largas horas passadas no quartel. “Os operacionais mais antigos andaram comigo ao colo”, conta Sara.

Assim, de uma forma natural, por volta dos 17 anos, ingressou nos bombeiros e frequentou as formações iniciais, tendo permanecido vários anos na qualidade de bombeira voluntária.
Entretanto, frequentou a universidade e concluiu o curso de Educação Básica e dedicou-se a outras áreas de trabalho. Por altura da pandemia, surgiu-lhe o convite para se tornar “assalariada da casa”, e aceitou.

Foi então concluindo formações em diversas áreas, que a tornaram uma profissional bastante polivalente, tais como técnico de ambulância de socorro, salvamento em grande ângulo (em altura), incêndios urbanos, incêndios com matérias perigosas, desencarceramento e, mais recentemente, cursos de comando e de gestão, necessários às suas atuais funções.
O seu objetivo, explica, é “ter um pouco a noção de tudo e estar preparada para qualquer ocorrência que surja, embora nenhuma ocorrência seja igual”.
Depois de vários anos “na base da hierarquia”, a “puxar mangueira”, segundo a expressão usada pelos bombeiros, surgiu o convite do Comandante Fábio Neto para que assumisse o cargo de Adjunto do Comando. Um convite que não a assustou, por conhecer muito bem o comandante, também ele filho de bombeiro e amigo de infância, por ter recebido grande apoio da Direção liderada por António Mealha, e por conhecer muito bem “a casa”, os seus problemas e pontos fortes, bem como as pessoas que ali trabalham. Tudo isso, considera, facilita o seu trabalho de “elo de ligação entre o comando e os elementos operacionais”.

Também se sentiu atraída pelas novas condições que existem agora na corporação “que vinha de uma fase menos favorável” mas que, com um esforço conjunto da Direção e do Comando, conseguiu aumentar o quadro de efetivos, dar mais estabilidade e condições de trabalho, quer salariais, quer de veículos e de equipamentos, e melhorar as relações interpessoais.
E como é isso de ser uma mulher a liderar, num universo tão marcadamente masculino, a única nas corporações dos bombeiros do concelho e a única atualmente no Algarve ? – pergunta inevitável que Sara Santos encara com um sorriso e tranquilidade.
“Fui surpreendida pela positiva, tem havido respeito hierárquico pelo meu trabalho e pelo comando. Este é um trabalho em que a hierarquia tem de ser respeitada, mas estive cerca de 15 anos na base da hierarquia, não deixo de ser um deles, cada um tem as suas funções. Mas de facto este é um mundo muito masculino, ainda, era assim a tradição, só os homens tinham esta profissão, e ainda existem pessoas que estranham, mas tem havido uma evolução ética e de relações. A nível do Algarve só existe uma outra mulher no comando, nos Bombeiros de Olhão, mas é adjunta técnica. Em Albufeira houve uma comandante, mas esteve nessas funções muito pouco tempo.”
Se não será fácil conduzir “uma casa” com cerca de 90 profissionais, mais difícil será quando se está a lidar com pessoas que têm uma profissão muito complexa, obrigadas a enfrentar muitas dificuldades e a defender a preciosa vida humana. E como é que se lida com isso, Sara?
“Nem sempre é fácil”, concorda Sara Santos, mas acrescenta: “Mas eu acho que se deve olhar para as dificuldades como uma possibilidade de crescimento e de superação. O nosso trabalho é a resolução de dificuldades. Dificuldades é o que se nos apresenta quando somos chamados a algum lado. O nosso trabalho é olhar para a fase seguinte, ver o que é preciso fazer e resolver a situação, é para isso que nos chamam.
É uma profissão ingrata, pelas dificuldades, por isso temos que estar bem preparados, a nível técnico, mas não só. Temos que ter capacidades na parte humana, há muitas situações em que as pessoas só precisam que alguém lhes agarre a mão. Não podemos olhar para esta profissão só como uma fonte de rendimento, temos que ser também uma fonte de esperança e de humanidade.”
Há situações, acrescenta Sara, “em que não podemos fazer nada, mas pelo menos não vamos piorar, temos que dar algum conforto às pessoas que nos chamaram. Não basta ser um bom técnico. A nossa função vai para além disso.”
No que respeita a si própria, a Adjunto do Comando dos Bombeiros Voluntários de São Bartolomeu de Messines, tem um objetivo principal: “dar de mim o melhor para corresponder às expetativas em relação ao meu trabalho, quer da parte do Comando quer da Direção. E não só corresponder, mas superar. Gostava de conseguir fazer isso e um pouco mais, acompanhar este Comando e dar continuidade ao trabalho de crescimento dos Bombeiros Voluntários de São Bartolomeu de Messines”.
Dito de uma forma mais simples: “ gostava de melhorar o mundo à nossa volta”.


