Na comemoração do 25º aniversário, o jornal Terra Ruiva presta tributo aos colaboradores que já nos deixaram. Em memória de Silvério Martins.
Na noite de S. João
Estamos no meio do ano, o verão começou há poucos dias, as flores deixam cair as pétalas e as coroas ficam nuas e secas, as árvores estão verdes ainda e à entrada da vila erguem-se em duas fileiras plátanos centenários onde a passarada se acoita lutando pelos galhos mais abrigados e trinando forma a mais linda orquestra da Natureza.
As luzes acenderam-se, a vila quase dormia, quando o vento nessa noite de S. João a fustigou, trazendo da serra o ar fresco com cheiro a estevas e a rosmaninho, todavia o calendário do tempo diz-nos que noites mornas e quentes hão-de surgir.
Vieram do outro lado da rua e vieram de longe, de todo o concelho, as marchas populares que desfilaram ao som da música no salão de festas a céu aberto na vila de São Bartolomeu de Messines divertindo o povo e dando alegria aos jovens estudantes anunciando-lhes que as férias estão à porta e com elas, para uns, as perspectivas de diversão de um mundo agora parado, para outros, os que dizem “adeus” às Faculdades e que se vêem com o “canudo” preparados para ganhar a vida cheios de ambições e de sonhos, a esses a vida mostra-lhe o amargo da frustração que os obrigará a respirar lufadas de angústia e revolta.
Em ritmos vibrantes, a Sr.ª Dr.ª Isabel Soares, Presidente da Câmara Municipal de Silves, com a auréola que as distingue, num rasgo de simpatia, dançou acompanhando as marchas e trazendo nas mãos o símbolo maior do nosso país, a bandeira das quinas, que no ar flutuava ao sabor do vento e ao som da música, transmitindo à gente de um povo humilde, laborioso e acolhedor a sua contagiante alegria.
A meu lado, um homem que conhece a fome, de olhar triste, cansado de injustiças e de pobreza em que a vida, dia a dia, se vai afundando, que sente os excessos que medram nas teias da política, que gosta de música e sabe dançar desabafou comigo dizendo “Se houvesse trabalho para toda a gente, se as reformas dessem para viver, se a justiça fizesse justiça, todo o povo dançava agora aqui”.
Silvério Martins
Junho de 2011






