As obras de reconstrução da ponte e de reedificação da Sé, ocorridas em meados do século XV, traziam grandes encargos financeiros e problemas de mão-de-obra, o que levou a terem-se arrastado por cerca de três décadas (c.1439- c.1473). Tanto o bispo de Silves, como o concelho procuraram obviar à dificuldade de conseguir, na região, os pedreiros e carpinteiros de que se necessitava, de modo que pediram e alcançaram de D. Afonso V privilégios de escusa para esses ofícios e para os moradores de Silves:
1458, Março, 15 – “Havia mui grande tempo que a Sé da dita cidade caíra e nunca mais fora reedificada (…) e [o bispo] não achava em aquela terra pedreiros, nem outros oficiais para isso [e pedia] que fossem escusados de ir às armadas (…) (A.N.T.T., Leitura Nova, Liv. 5 de Odiana, fls. 120v.-121)
1459, Junho, 26 – [A cidade de Silves] “ao presente jaz muito destruída, em queda mais que alguma outra que em vossos reinos haja. E isto, senhor, pelos grandes trabalhos, e doenças e serventias, assim em Ceuta, onde em cada um ano vão [os moradores] por vosso serviço. E em uma ponte que temos que escusar não podemos e por trilhamento de alguns oficiais da terra e por muitas outras serventias e sujeições que lhe fazem” (A.N.T.T., Leitura Nova, Liv. 3 de Odiana, fl.81v.).
Não sendo conhecidos pormenores do desenvolvimento das demoradas obras, o certo é que estavam concluídas em 1473, como declararam, com algum orgulho, os representantes de Silves nas Cortes de Évora:
1473, Março, 28 – Ora, senhor, em vosso tempo depois que com a graça de Deus reinais, temos que é feita, em vossa virtude, a igreja é feita, ponte acabada, muitas casas de novo feitas e outras reparadas (A.N.T.T., Leitura Nova, Liv. 4 de Odiana, fl. 161 v.)
Voltamos a encontrar notícias da velha ponte, em 1577, na Corografia do Reino do Algarve, de Frei João de São José (in “Duas Descrições do Algarve do Século XVI”, Lisboa, ed. 1983, p. 41; “Corografia do Reino do Algarve -1577”, Faro, ed. 2023, p. 75):Tem da ribeira que lhe corre por junto da banda do Sul, com uma boa ponte, onde, com águas vivas, chega a maré que lhe sobe pela barra acima duas léguas.
Volvidos poucos anos, um outro documento corográfico, datável de cerca de 1600, informa-nos que a ponte estava sem servir e se passava o rio a vau:
Tem Silves um rio, que o lava pelo sopé do seu arrabalde, e apegacom as casas uma ponte grande, por onde passa o rio, que é muito antiga, feita em tempo dos mouros, muito forte; hoje estão caídos dois arcos dela e se passa o rio a vau (Henrique Sarrão, História do Reino do Algarve, in “Duas Descrições do Algarve do Século XVI”, Lisboa, ed. 1983, p. 154).
Desta vez, a reconstrução não tardou e, em 1621, já se voltava a passar o Arade pela antiga ponte de pedra:
De uma parte [da cidade] corre o dito rio e com água doce, quase até defronte dela. E ali achega a maré salgada e se passa o rio por uma boa ponte de fábrica e antiga (Lívio da Costa Guedes, “Aspectos do Reino do Algarve nos séculos XVI e XVII. A Descrição de Alexandre Masai (1621)”, Lisboa, 1988, p. 120)
De finais do século XVII, chegou até nós uma interessante gravura da cidade de Silves* que, embora algo convencional na representação das edificações, nos dá uma ideia bastante próxima da configuração da ponte.

Observam-se cinco arcos redondos e cinco talha-mares, uma curvatura pouco acentuada do tabuleiro e os parapeitos de resguardo, com a curiosidade de no parapeito a montante, perto da margem esquerda, ser visível um cruzeiro, talvez memorial.
Um aspecto não apresentado na gravura, são uns arcos de descarga que foram entaipados numa grande empreitada de reconstrução da ponte, em 1716, como veremos num próximo artigo.
*Publicada pela primeira vez em 1842 (O Panorama, II série, nº 27, pp. 209-211). Foi impressa a partir de uma gravura sobre madeira, executada por José Maria Baptista Coelho (1812-1891) que a copiou de um desenho existente num álbum de finais do séc. XVII.


