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Entrevista a Juan Correia e Joana Guinote, dos Amigos de Pequeninos de Silves

Inês Jóia
Última Atualização: 2025/Jul/Ter
Inês Jóia
1 ano atrás
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A Instituição Amigos dos Pequeninos foi criada em dezembro de 1951, como forma de dar resposta às carências socioeconómicas da cidade de Silves.

Nesta época, esta Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) “assinalou um importante marco na sociedade silvense”, assegurando cuidados médicos semanais a crianças e às suas mães, desenvolvendo colónias de férias e disponibilizando bens essenciais às famílias mais carenciadas.

Hoje os Amigos dos Pequeninos têm um conjunto de ofertas muito variado e projetos ambiciosos, como o projeto Utopia, descritos por Juan Correia e Joana Guinote.

Juan Correia e Joana Guinote

Em 1973 introduziu-se a componente educacional e pedagógica, através do desenvolvimento do Jardim de Infância da IPSS e da integração da 1ª Educadora de Infância. Na década de 80, a Instituição investiu no desenvolvimento de infraestruturas de forma a viabilizar o aumento das inscrições, recorrendo ao aumento das salas de Respostas Sociais Creche e Pré-Escolar, criando a Resposta Social CATL, construindo o ginásio e piscina e aprimorando os espaços exteriores.

Juan Correia, presidente da Instituição, afirma que sendo os Amigos dos Pequeninos a única creche que existia na época em Silves “cresceu muito e muitas das antigas gerações fizeram creche aqui”, explicando ainda que para assegurar uma melhor resposta à comunidade, a Instituição  começou também a trabalhar com crianças do pré-escolar, dos 3 aos 5 anos.

A Intervenção Precoce na Infância (IPI) começou a ser desenvolvida pela Instituição em 2001, com o Projeto “Quebra-Nozes” – Programa “Ser-Criança”, sobretudo pela necessidade de existir uma resposta local às famílias com crianças com deficiência ou em risco de atraso grave de desenvolvimento. O projeto foi cessado em setembro de 2004, investindo-se em dezembro desse mesmo ano no “Bem Crescer”.

Joana Guinote, vice-presidente explica que “o Bem Crescer é um acordo de cooperação com a segurança social, através do qual se investiu na intervenção precoce na infância”. Esta Resposta Social foi desenvolvida com o intuito de acompanhar a criança e respetiva família, através de ações de cariz preventivo e reabilitativo nas áreas da educação, saúde e ação social.

Atualmente, o principal propósito da IPSS é possibilitar o desenvolvimento pessoal e social da criança, abrangendo quatro respostas sociais: creche, pré-escolar, centro de atividades de tempos livres (CATL) e IPI.

Juan Correia reforça que os Amigos dos Pequeninos foram “desde sempre uma resposta e uma instituição ligada à necessidade da comunidade” e que honram essa história “não só mantendo esses valores, mas criando novas respostas para fazer crescer a relação de proximidade à comunidade”.

Joana Guinote refere ainda que “na parte pioneira, os Amigos dos Pequeninos são das IPSS, em termos de creche, mais antigas do país e agora vão também ser pioneiros, com o projeto Utopia,  na parte da saúde mental, que não existe na região do Algarve”.

Amigos dos Pequeninos de Silves, Vista geral

 

 Aposta na saúde mental em Silves

 

A Instituição Amigos dos Pequeninos assinou um protocolo, em conjunto com o Instituto Piaget de Silves, para a criação de uma Unidade de Cuidados Continuados Integrados da Saúde Mental. O acordo conta ainda com o apoio do Município de Silves, da Segurança Social e da ARS Algarve. Nasce assim o Projeto Utopia, um espaço para apoiar crianças, adolescentes e adultos na sua jornada para o bem-estar e a inclusão.

Juan Correia explicou que o sonho que tinham, inicialmente, passava pela criação de um Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão (CACI), projeto que visava transformar os antigos Centros de Atividades Ocupacionais em espaços focados na formação de pessoas com deficiência para a sua inclusão no mercado de trabalho. O presidente da Instituição referiu que tanto ele como Joana Guinote têm filhos com deficiência e que a ideia surgiu pela observação da falta de opções em Silves, para famílias com filhos com necessidades especiais.

Joana Guinote afirmou que depois de terem conseguido o bloco para a criação do CACI, convidaram Margarida Flores, diretora de Segurança Social de Faro, para visitar a Instituição. Nessa reunião partilharam o projeto que pretendiam desenvolver e foi-lhes proposta a ideia de criar uma resposta para a saúde mental.

O Instituto Piaget foi identificado como um local apropriado, com diversos edifícios disponíveis, pelo que  propuseram que a “criação e introdução dessas respostas fosse feita lá”. Tiveram por isso que reunir com o Município de Silves, proprietário dos terrenos onde se encontra o Piaget, para explicar o projeto que pretendiam desenvolver.

Inicialmente o CACI, que acabou por evoluir para uma Unidade de Cuidados Continuados Integrados da Saúde Mental, surge da necessidade de dar resposta às dificuldades observadas tanto em crianças como nas  suas famílias, esclarece o presidente dos Amigos dos Pequeninos. Essa nova resposta inclui a criação de uma Unidade Residencial de Apoio Máximo para a infância e a adolescência e de outra Unidade Residencial para adultos, projeto inovador na região.

“Lidamos muito com a questão da saúde mental no nosso dia a dia e na instituição e temos assistido a uma evolução dos problemas, das dificuldades em sala, situações não só com crianças mas também com familiares de crianças”, esclarece Juan Correia.

O presidente expressou ainda a preocupação inicial com a falta de informações sobre as respostas existentes em termos de Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) para a Saúde Mental. Neste sentido, a equipa da instituição decidiu visitar essas estruturas, no norte do país, para entender melhor o que esperar. Surpreenderam-se com a realidade encontrada: um espaço aberto, onde os utentes estão integrados e têm autonomia. Referiu que o grande objetivo é criar um ecossistema que promova a autonomia e a inclusão social, utilizando o ambiente universitário, através do qual poderão trabalhar diretamente com estagiários do Piaget, fomentando sinergias.

Juan Correia referiu ainda que pretendem “dar apoio para perceber, efetivamente, como é que estas pessoas podem tornar-se bons tributos do ponto de vista profissional”, indicando que almejam “uma verdadeira inclusão social, quer para a questão da deficiência, quer para a questão da saúde mental.”

 

 

Reforma dos espaços da Instituição

 A vice-presidente dos Amigos dos Pequeninos enfatizou as conquistas durante os seus mandatos, enfatizando a importância de criar um ambiente inclusivo na instituição. Durante o primeiro mandato, foram realizadas melhorias em infraestruturas, incluindo a criação de um espaço exterior que promove o direito de brincar, acessível a todas as crianças, independentemente de suas limitações.

Destacou também o ajuste da temperatura da piscina terapêutica, que permitiu a criação de condições para as terapias das crianças com necessidades especiais e a instalação de equipamentos adequados, como barras e espaços para treinar determinadas especificidades das deficiências das crianças.

O presidente reforçou que na IPSS tentam incluir as crianças a partir dos 0 anos, mencionando que a creche e o pré-escolar da Instituição têm diversos casos de crianças com necessidades educativas especiais, praticamente em todas as salas, existindo por isso “essa preocupação de levar a saúde para dentro da escola”.

A associação colabora com centros de saúde de várias localidades, procurando integrar saúde, educação e a vertente social de forma a oferecer um suporte mais eficaz às famílias.

 

Caso de Superação

A Intervenção Precoce tem, na perspetiva de Joana Guinote, um papel fulcral para o desenvolvimento das capacidades das crianças, que refere que “às vezes os pais não têm essa perceção, só vão ter essa perceção mais tarde”.

Descreveu o caso do seu filho, no qual a intervenção terapêutica teve um papel fundamental para ajudá-lo a adquirir a capacidade da marcha. Realçou também que este tipo de intervenção, seja na fala, motora ou comportamental é fundamental, enfatizando a importância das terapeutas ocupacionais neste processo ao referir ser “muito importante confiarmos nos especialistas que nós temos”.

 

Novos Projetos dos Amigos dos Pequeninos

Os Amigos dos Pequeninos anunciaram novos projetos, incluindo a ampliação da creche, passando de 74 para 150 crianças, e o aumento da capacidade do berçário, que passa de uma capacidade de 10 crianças para 16, providenciando assim uma maior resposta às famílias com bebés até aos 2 anos.

Além disso, pretendem criar duas residências de treino e autonomia para auxiliar pessoas que, segundo Juan Correia, “já estão inseridas na sociedade mas precisam de acompanhamento e de uma casa”. Desenvolveram ainda uma clínica e um centro terapêutico, que trará profissionais de saúde ao Algarve, especialmente pedopsiquiatras, quase inexistentes na região.

Por fim, pretendem estabelecer um centro de referência para deficiência visual do Algarve, designado Centro de Apoio à Intervenção Precoce na Deficiência Visual (CAIPDV), em parceria com Coimbra, dando assim “uma resposta diferenciada a crianças com défice visual, que também achamos que é um problema na região”, reflete o presidente da Instituição.

 

A Postura Colaborativa da IPSS

 

Juan Correia e Joana Guinote afirmam ser, desde o início, uma equipa, sem distinções de cargos, e onde o respeito e a confiança mútua têm-se mostrado essenciais para o sucesso da Instituição.

Refletem sobre o trabalho desenvolvido pelos técnicos da instituição, que consideram ser louvável, destacando a dedicação da equipa composta por elementos que trabalham há mais de 20 anos na IPSS.

O presidente da IPSS afirma que ao enveredar em novos e diversos projetos é fundamental ter confiança no trabalho desenvolvido pela equipa da Instituição, dizendo que “essa confiança nós temos desde o primeiro dia”.

Referiu ainda que, antes de fazer parte da Direção, era presidente da Mesa da Assembleia e já conhecia parte da realidade da IPSS, explicando que a perspetiva é completamente diferente quando se é orgão social e se lida diariamente com a equipa, um conjunto de pessoas que “gostam do que fazem e querem o progresso da instituição”.

Os Desafios da IPSS

 

Embora as candidaturas para o projeto Utopia estejam aprovadas, não há financiamento para a resposta à deficiência, mencionou a vice-presidente. Ressalta ainda que a jornada da deficiência é repleta de desafios e que a falta de respostas afeta negativamente a inclusão.

A urgência em atender a saúde mental na adolescência, evidenciada pelo aumento de problemas de ansiedade e depressão nos jovens é uma prioridade para a Instituição.

O presidente da IPSS explicou que o orçamento necessário apenas para o projeto da saúde mental pode variar entre 1.4 a 1.6 milhões de euros, sendo que o PRR cobre 900 mil euros. Para a totalidade das necessidades, serão precisos mais 1.5 a 1.6 milhões de euros, considerando que “para uma IPSS, para uma entidade que trabalha sem fins lucrativos, é um número muito assustador”.

Joana Guinote assinala a relevância do projeto na criação de novos postos de trabalho na educação, com profissionais de fora a virem para o Algarve, destacando ainda o desenvolvimento e evolução científica que trará à cidade. Além disso, tornar-se-á possível a capacitação de pessoas com necessidade especiais que “não podem estar no mundo do trabalho, quando têm capacidade para isso ou não podem fazer uma atividade ou um desporto adaptado, quando também podem ter capacidade para tal é algo que deve ser solucionado”.

Aborda-se também o protocolo com o ABC CoLAB, que terá um polo de investigação para o envelhecimento, ligado à área da saúde mental, assegurando não só a componente do apoio social, mas também a componente de investigação ao projeto, reflete Juan Correia.

O projeto resulta assim de um esforço e dedicação conjunta de vários organismos e revela-se pioneiro no Algarve nas áreas da saúde mental, da capacitação e inclusão da deficiência e na  componente de investigação.

 

 

Fotos: Amigos dos Pequeninos de Silves

 

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PorInês Jóia
Natural de Portimão, nasceu em 2000. Licenciada em Comunicação Social, realizou um estágio curricular no Terra Ruiva e atualmente colabora com o jornal.
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