(conclusão)
Na primeira metade do século XIX, a pacata aldeia de São Marcos conheceu períodos de grande agitação que perturbaram não só a vida económica e social da pequena comunidade rural (cerca de 250 vizinhos), mas que também afectaram bastante a vida religiosa.

A guerra civil que opôs liberais e absolutistas (1828-1834) e as acções de guerrilha desenvolvidas a partir de 1836, sob o comando do Remechido, e que se prolongaram depois do seu fuzilamento em 1838, até cerca de 1843, deixaram profundas marcas numa freguesia devota e conservadora, naturalmente partidária da causa miguelista do “Trono e do Altar”.
Numa subscrição de donativos monetários do concelho de Silves para o governo de D. Miguel, São Marcos da Serra teve 27 contribuintes, enquanto São Bartolomeu de Messines apenas 12.
E nas contribuições em géneros, destacou-se o cura de São Marcos, Manuel Joaquim Guerreiro, com 60 alqueires de trigo, enquanto o pároco de S. B. Messines participou com somente 15 alqueires (cf. Gazeta de Lisboa, 13/6/1829).
O apoio aos absolutistas não evitou, no entanto, que as forças do Remechido tivessem por vezes ocupado a aldeia (cf. Liv. Óbitos, 31/6/1841) e que, nos combates com as tropas liberais houvesse um significativo número de vítimas, referidas muito parcialmente nos livros de óbitos dos registos paroquiais. Por exemplo: “Mateus da Encarnação, morreu com um tiro que lhe deu a tropa e foi enterrado num campo, no Talurdo, onde o mataram” (7/6/1834); “Manuel da Silva, solteiro, morreu fuzilado por ter sido encontrado de armas na mão contra a Pátria” (972/1839); “Fuzilado no sítio da Silveira, Francisco Dores e sepultado no mesmo sítio” (26/8/1840).
Com o triunfo do liberalismo e a relativa acalmia da chamada Regeneração, a igreja e a freguesia de São Marcos voltaram à normalidade das suas tradições, mantendo a Junta de Paróquia um assinalável conjunto de prédios rústicos e urbanos (54 no total) de que recebia os foros. Esses bens, que foram vendidos ou arrendados em hasta pública, eram foreiros às diversas irmandades e mordomias, ainda existentes em 1866: Nossa Senhora da Saúde, Senhor Jesus, São Pedro, Santo António, Almas, Santíssimo Sacramento, Nossa Senhora do Rosário e São Luís (T.T. , Desamortização e Foros, Livro 247).

Pouco se conhece de obras na igreja, no século XIX, sendo de mencionar a execução de um novo retábulo na capela-mor, com reaproveitamento de elementos de épocas anteriores (Francisco Lameiras, Inventário Artístico do Algarve, vol. XV, 1999, p. 244).
Com a proclamação da República, assumem protagonismo republicanos como Manuel Gomes Santinho (1865-1924) e José Ventura Vargas (1886-1962), constituindo-se na freguesia a primeira comissão política republicana do concelho de Silves. Num ambiente quase geral de anti-clericalismo, o pároco de São Marcos, o padre António Bernardo Salgado, passa por dificuldades várias e vê ser-lhe reduzido o rendimento que tinha de 250 mil réis de pé-de-altar para uma pensão provisória de 180 mil réis, em 21/12/1911.
Em 25 de Maio de 1915, pede licença para deixar de prestar serviços no actos de culto, em virtude de ameaças por parte do bispo e depois por motivos de saúde. Em 1919 e 1920 é desafectado o direito à habitação do presbitério e sugere-se o seu arrendamento. Em 1922, é proposto o despejo da residência do sacristão (Arquivo Digital do Ministério das Finanças).
Entretanto, na noite de 25 para 26 de Agosto de 1921, “um grupo de indivíduos arrombou a porta da igreja, quebrando imagens e mais objectos de culto” (Voz do Sul, nº 209, 28/8/1921). Na mesma notícia, nunca mencionando nomes, diz-se que se seguiu uma festa e pândega pela noite dentro.
Outras versões referem que a imagem de São Marcos foi lançada no Pego do Freixo, na Ribeira de Odelouca (informação que agradecemos a José Silvério) e que se fez uma fogueira com as imagens de madeira (cf. Pinheiro Rosa, Correio do Sul, 15/6/1967: “a célebre fogueira de santos com que elementos republicanos desorientados quiseram celebrar a liberdade de pensamento”).
Em 25 de Setembro, a Voz do Sul publica um texto de José Ventura Vargas, “Em Legítima Defesa”, repudiando acusações de ter sido um dos autores do atentado e que só não fora preso por estar em Lisboa, desde o dia 28, quando em finais desse mês, início de Setembro, um polícia da “secreta”, enviado pelo administrador do concelho, foi a São Marcos prender quatro pessoas, cujos nomes, mais uma vez, não são referidos.
A igreja só reabriu ao culto em Setembro de 1923 e, em 1927, fez-se uma grande procissão. Em 25/1/1932 procedeu-se ao arrolamento dos bens da igreja que passaram em grande parte para o Estado, sendo entregues em 17/6/1933 à corporação encarregada do culto católico os bens considerados suficientes para a prossecução do culto.
Depois da Concordata de 1940, a comunidade católica de São Marcos procurou renovar a igreja e restituir algumas das imagens desaparecidas, como foi o caso da imagem de São Pedro que o prior Vicente Araújo mandou comprar em 1961 (cf. Pinheiro Rosa, op. cit.), altura em que também foi criada uma feira a 28 e 29 de Junho. Há também notícia de procissões de São Luís (ainda se conserva a imagem primitiva) que se efectuaram pelo menos até 1968 (vd. Arquivo da RTP). Muito fica por dizer e acrescentar a esta breve resenha histórica da secular igreja de São Marcos da Serra.








