Egas Moniz venerou João de Deus ao longo de toda a sua vida. Na juventude e no ocaso bem o demonstrou.
Já depois de ter recebido o Prémio Nobel de Medicina, em 1949, mostrou o seu apego ao poeta e pedagogo.
Eu já o tinha topado quando compus João de Deus – Vida, publicada pela Imprensa Nacional no princípio do ano de 2024, que ora findou.
António Caetano de Abreu Freire de Resende Egas Moniz integrara a comitiva de milhares de estudantes da Universidade de Coimbra que se deslocara em comboio fretado a Lisboa para homenagear João de Deus, pelos seus 65 anos, a 8 de Março de 1895.
Egas Moniz tinha 20 anos. Era um novato de Medicina. Não queria faltar à homenagem e estar na presença de João de Deus. O poeta e pedagogo sensibilizava-o como raros. Já com 75 anos, numa das suas “conferências médicas”, evoca esse tempo de juventude. Vale a pena ouvi-lo.

Na “algazarra dos rapazes”, no comboio, todos iam deitando contas aos que já conheciam Lisboa. Ainda eram muitos. Uns da cidade. Outros da margem sul, falavam como lisboetas e lançavam olhares de desdém sobre os que nunca tinham pisado a calçada do Rossio e Chiado.
Eram a maioria como ele, nascido na paróquia de Santa Marinha de Avanca, em Estarreja, em 1874. O padrinho de batismo, o tio Francisco Pais de Rezende Pereira e Melo, era Abade da mesma paróquia. Acreditava que a sua família, de origem aristocrata, descendia, em linha directa de Egas Moniz, o aio de D. Afonso Henriques. Daí o apelido que correrá mundo.
Em todas as carruagens havia uma “alegria ruidosa”. Os versos de João de Deus andavam nos ouvidos de todos que os sabiam de cor. Um dos companheiros dava “tratos ao miolo” para contar o dinheiro que podia gastar durante dois dias, em Lisboa .Com a “bolsa magra” declamava:
O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
A rapaziada entoava, em coro estridente, as estrofes do poema. O remate final foi estrondoso
Tlim!
Pois não!
Os estudantes de Lisboa receberam os colegas de Coimbra, no teatro Avenida, com muitos vivas a João de Deus. Egas Moniz foi um dos “palradores”. Discorreu sobre a união dos académicos de todo o país e a “estrela” que os guiava, João de Deus. Acha que não foi feliz na alocução.
Para reparar a “culpa dos irrequietos 20 anos” voltou, meio século depois, a prestar tributo ao “admirável poeta lírico, notável pedagogo e o símbolo da Bondade, virtude que aureola a cabeça dos santos e acarinha e junta em suave amplexo as almas bem formadas.” Recorda a romagem à casa de João de Deus, na Estrela, que teve “um aspeto apoteótico nunca visto”.
Evoca a festa no teatro D. Maria II, na presença da do rei D. Carlos e família, em que Augusto Hilário, “fraco estudante” de Medicina, mas grande cantor de fados. A ovação “estrugiu formidável” aos seus improvisos, com a guitarra de Coimbra, cantados e declamados.
Egas Moniz demora-se, sobretudo, pela obra poética de João de Deus. Das primeiras composições em Coimbra, no Algarve e finalmente em Lisboa, não vê “características diferenciais”. Tudo se mistura “na suavidade do mesmo ritmo”, no encantamento em que revela “os arroubos amorosos em que borboleteiam frases tristes de dúvida e desalento, de ardor e ansiedade, mas tudo contido numa ingenuidade sóbria, que comove, e de uma mágoa que nunca roça pelo trágico.”
Nos versos de João de Deus, como os lê, não há “increpações ou cóleras”. Somos suavizados pelas “doçuras magoadas dos que sabem chorar silenciosamente, sem que se veja o deslizar das lágrimas, nem se ouça o murmúrio dos lamentos. Tudo na obra “é claridade, luz, lírico devaneio, nimbados de bondade, característica máxima da sua formação de homem e de poeta.”
Egas Moniz assegura, por outro lado, que João de Deus “não podia ver graças alheias sem se comover.” Não se conformava com a existência de analfabetos em Portugal e “fez-se pedagogo”. Empenhou-se em “arrancar às brenhas da ignorância as populações que cresciam na sombra da incultura.”
Deixou-nos também “uma primorosa arte de aprender a ler” e dedicou-a aos pequeninos. E quantos lhe devem, pelo país fora, esse “precioso capital do primeiro saber”. Na “Cartilha Maternal” até o nome lhe dá “a suavidade de um conto que se aprende, entra carícias, adentro do lar!” João de Deus é “uma das figuras máximas da Pátria portuguesa”, assim o considera.
Embora nomeado em 1928, 1933, 1937, 1944, Egas Moniz só recebeu o Prémio Nobel, em 1949. Os seus trabalhos pioneiros na deram impulso ao desenvolvimento da medicina, desbravando caminho para o aperfeiçoamento da cirurgia cerebral e de outras áreas que exploram os mistérios da mente e das emoções. É igualmente, pelo seu rigor científico e sensibilidade literária, uma das figuras máximas do nosso país.
João de Deus e Egas Moniz unidos no diverso pelo bem comum, físico e espiritual, da humanidade. No seu tempo e mais adiante.







