O Homem e o Político
(Em Setembro também se comemora Abril)
No dia 12 de Setembro de 1924 (fez este ano um século), nasceu em Bafatá, «Guiné Portuguesa», na freguesia de Nossa Senhora da Graça, AMÍLCAR LOPES CABRAL. Foram seus progenitores, Juvenal Lopes da Costa Cabral, professor de Instrução Primária na Escola Elementar do Sexo Masculino, de Bafatá, e Iva Pinhel Évora, doméstica – ambos cabo-verdianos, naturais da Ilha de Santiago.
Era ainda muito jovem quando os pais regressaram a Cabo Verde. Amílcar fez aí a instrução primária, tendo depois frequentado o Liceu Gil Eanes, em São Vicente, onde concluiu o 7º ano com a alta classificação de 17 valores.
Ainda estudante de liceu, interveio no movimento literário cabo-verdiano dessa época, no qual participaram, entre outros, Jorge Barbosa, Baltazar Lopes, Manuel Lopes e Nuno Miranda, todos figuras eminentes da cultura cabo-verdiana – colaborando com poesias e contos.
Em 1945, Amílcar Cabral veio para Lisboa, com uma bolsa de 500$00, que lhe foi concedida pelo Liceu onde tinha estudado, e matriculou-se no Instituto Superior de Agronomia. Não podendo manter-se com uma bolsa de tão baixo valor, recorreu à Secção de Guiné e Cabo Verde da Casa dos Estudantes do Império (recentemente criada na capital do dito), que lhe concedeu uma nova bolsa um pouco mais valiosa: 700$00.
Mesmo assim, para subsistir – e, sobretudo, para auxiliar a família (o pai tinha falecido) em Cabo Verde – Amílcar passa a dar explicações e procura um emprego que não colida com a frequência das aulas. Quem lhe valeu nesse transe foi o seu amigo e poeta cabo-verdiano Aguinaldo da Fonseca que o levou para a antiga Caixa de Previdência e Abono de Família dos Técnicos e Operários Metalúrgicos e Metalo-Mecânicos, onde trabalhava. E aí permaneceu até concluir o curso de Engenheiro agrónomo, em 1948.
Alguns dos trabalhadores mais antigos dessa Instituição foram colegas de Amílcar e com ele privaram diariamente, quer em relações de trabalho, quer em actividades circum-profissionais das que, então, se praticavam no âmbito das Caixas de Previdência. Nesse aspecto, Amílcar Cabral colaborou literariamente em “O METALÚRGICO” – Boletim que o C.A.T. (Grupo Desportivo) então publicava – e praticou várias modalidades desportivas, entre as quais o futebol.
Quem o conheceu nessa altura, e com ele conviveu de perto, quer no emprego, quer na Casa dos Estudantes do Império, como o já referido poeta Aguinaldo Fonseca, e os seus companheiros de futebol, definiam-no como um rapaz afável e muito inteligente, revelando todas as qualidades próprias dos indivíduos pertencentes à burguesia mais culta da Cidade da Praia – que se considerava, de certo modo, uma elite no conjunto da população cabo-verdiana. Mas, revelando sempre, em todas as circunstâncias, uma enorme admiração pela cultura portuguesa, incluindo um conhecimento impoluto da língua de Camões.

O engenheiro agrónomo
Desde a sua chegada a Lisboa, Amílcar Cabral manifestou logo uma grande preocupação em se integrar nas correntes de pensamento político e cultural que agitavam o mundo daquela época. Participou na grande campanha pela PAZ; fez parte dos movimentos da juventude democrática; e, sobretudo, esteve na origem do lançamento das bases para a consciencialização dos estudantes africanos que viviam em Lisboa.
Ele e um grupo de companheiros oriundos das várias colónias portuguesas desenvolveram esforços no sentido de encontrar as suas raízes africanas, a fim de adoptarem, em conjunto, os meios adequados à luta contra o colonialismo.
No Instituto Superior de Agronomia – onde teve como condiscípulo, entre outros, o Eng.º Sousa Veloso (que durante muitos anos manteve na R.T.P. o programa “TV Rural”) – seu amigo e autor da caricatura de Amílcar que se encontra no Livro de Curso do ano em que ambos concluíram os estudos-Amílcar Cabral foi sempre aluno distinto, formando-se com alta classificação, tendo apresentado uma tese sobre “Solos” – matéria que viria a ser a sua especialidade. Ao findar o curso, trabalhou como investigador na Estação Agronómica de Lisboa – o que lhe permitiu aprofundar os seus conhecimentos sobre a situação do povo português. Mas, passado algum tempo, partiu para a Guiné, como engenheiro agrónomo contratado pelo Estado Novo.
Durante os dois anos que permaneceu na Guiné pôs todo o seu saber tecnológico ao serviço da análise das realidades vivas do povo guineense.
Ao mesmo tempo que procede, de colaboração com a sua mulher, a engenheira silvicultora portuguesa Maria Helena Vilhena, ao recenseamento agrícola da Guiné, elaborando um mapa económico daquela colónia – tenta criar legalmente um clube desportivo em Bissau, o que foi logo proibido pelo governo local.
O Fundador do P.A.I.G.C.
Seguidamente é obrigado a deixar a Guiné, onde só lhe é permitido regressar uma vez por ano. É numa dessas passagens anuais pela sua terra que Amílcar Cabral, em 19 de Setembro de 1956, juntamente com cinco camaradas seus, funda em Bissau o P.A.I.G.C. – Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde.
Nas condições de dominação colonial só a mais rigorosa clandestinidade poderia permitir o desenvolvimento da actividade do Partido. Assim, o trabalho político foi, desde o início, a base dessa actividade. Foi necessário um profundo trabalho de mobilização e organização, principalmente nas cidades, e particularmente em Bissau, onde os novos membros são recrutados entre os trabalhadores do porto, os assalariados, empregados e funcionários.
Após três anos de aturado trabalho político, as massas populares da Guiné, sob orientação do P.A.I.G.C., estão prontas para protestar contra as prepotências das autoridades Coloniais. Estas, em resposta, desencadeiam a repressão; e, a 3 de Agosto de 1959, praticam o massacre dos trabalhadores do Cais de Pidjiguiti.
Amílcar Cabral, ao ter conhecimento daquele massacre sangrento, regressa clandestinamente a Bissau, onde, em 19 de Setembro (dia do 3º aniversário do P.A.I.G.C.) preside à histórica reunião do Partido, quando fica decidida a mobilização das massas camponesas, e se conclui que o único caminho capaz de levar à conquista da independência nacional era a luta armada.
O Político e o Guerrilheiro
Depois da repressão violenta desencadeada pelo Governo de Salazar contra os nacionalistas angolanos em Fevereiro de 1961, o P.A.I.G.C. prepara-se activamente para passar à acção directa. A luta armada só começará em Janeiro de 1963; mas, 6 meses depois, todas as regiões ao sul, do Geba e do Corubal, estavam libertadas.
Como Secretário Geral do P.A.I.G.C., passa desde então Amílcar Cabral a desenvolver uma actividade política e social, quer a nível interno, quer a nível externo, o que faz dele o dirigente dos movimentos africanos de libertação com mais prestígio no mundo. Profundo conhecedor da cultura lusíada, exprimindo-se e cultivando com esmero a nossa língua – como provam os trabalhos literários, políticos e científicos que escreveu e publicou em língua portuguesa – Amílcar Cabral sempre se mostrou disposto ao diálogo com as autoridades portuguesas – diálogo esse rejeitado com petulância pelos governos de Salazar e Caetano.
A Guerra – Uma actividade política
Todavia, Amílcar Cabral jamais confundiu o povo português com a minoria colonialista que governava Portugal e massacrava os povos das colónias. Sem deixar de ser um patriota africano, era essencialmente um revolucionário contemporâneo. Homem de inteligência superior e dotado de uma determinação notável, Amílcar Cabral foi um diplomata de fino trato, que possuía um apurado sentido das oportunidades. Para ele a guerra foi sempre encarada como uma actividade estritamente política. O seu principal esforço orientou-se para a criação de novas estruturas políticas e sociais nas regiões que os guerrilheiros do P.A.I.G.C. iam libertando.
Assim, dez anos após o levantamento armado de 1963, os combatentes do P.A.I.G.C., dirigidos por Amílcar Cabral tinham libertado mais de dois terços da Guiné, criado Concelhos Regionais e eleito a primeira Assembleia Nacional Popular, com vista à proclamação da independência, o que de facto veio a acontecer em Setembro de 1973, na data prevista – mas quando Amílcar Cabral já não pertencia ao número dos vivos.
Na verdade, em circunstâncias nunca esclarecidas, Amílcar Cabral foi assassinado em CONAKRY (Capital da República Popular da Guiné) em 20 de Janeiro de 1973, por elementos traidores que agiram a soldo da P.I.D.E. e dos ultras portugueses.
O Colonialismo acreditou que assassinando Amílcar Cabral alcançaria a vitória. Mas cometeu apenas um crime hediondo… porque os povos da Guiné e de Cabo Verde demonstraram que não se deixariam abater pela liquidação física do fundador e Secretário Geral do P.A.I.G.C.
Efectivamente, a morte de Amílcar Cabral não veio beneficiar em nada a situação portuguesa; nem sequer conseguiu retardar a proclamação da independência do Estado da Guiné-Bissau. O desespero dos colonialistas não pôde, pois, travar o curso irreversível da História. A luta do povo guineense prosseguiu até à vitória final.
O valor de um homem
E o mundo inteiro recorda hoje Amílcar Cabral, não só como guerrilheiro e o político dirigente da luta do seu povo pela independência, mas também como o teórico e o intelectual cujo nível está bem patente, quer em todos os trabalhos que escreveu e publicou, quer nas conferências que fez e nas comunicações que apresentou nas Assembleias internacionais em que tomou parte – desde a tricontinental de Havana, em 1965, à UNESCO – onde em Julho de 1972 participou na qualidade de perito sobre noções de RAÇA, IDENTIDADE e DIGNIDADE, e em que apresentou o trabalho, já hoje célebre, “Sobre o Papel da Cultura na Luta pela Independência” – bem como na Organização da Unidade Africana, e na O.N.U. onde chegou a ser recebido pelas mais altas individualidades da política mundial, e de cujo Secretário Geral, Kurt Waldheim, era amigo pessoal.
O valor político e intelectual de Amílcar Cabral pode ainda ser avaliado pelas várias condecorações e diplomas que lhe foram concedidos pelas diversas Universidades e Institutos Científicos de categoria internacional.
Podemos dizer que os seus ensinamentos tiveram desde sempre a melhor aceitação por parte dos políticos progressistas de todo o mundo e influenciaram a actividade dos Movimentos Africanos de Libertação. Isto, sem esquecer que os capitães portugueses que em 1973 se encontravam na Guiné e aí deram início à formação de um grupo que depressa evoluiu para o célebre Movimento dos Capitães, que no ano seguinte levou a cabo o histórico 25 de Abril de 1974 – também foram de algum modo influenciados pelos ensinamentos e pelo exemplo de AMÍLCAR CABRAL. E por isso se pode dizer: «Em Setembro também se comemora Abril.»
Texto: Ezequiel Ferreira






