São muitas as circunstâncias da vida que podem levar uma mulher a decidir ser mãe, mesmo quando não tem um parceiro. Uma opção que nem sempre é bem entendida pelos próximos e por aquela parte da sociedade que ainda tem dificuldade em aceitar que a mulher seja a única dona do seu corpo e da sua vida.
Para as mulheres que assim o decidem, o percurso revela-se, normalmente, difícil. Mas, no final, há a gratificação de ser mãe e esquecem-se as agruras.
Sónia Oliveira fala-nos da sua experiência pessoal e de como a maternidade a completa.
Como surgiu a decisão de ser mãe através da inseminação artificial?
A decisão foi tomada por não ter um parceiro já tinha 42 anos e não iria utilizar ninguém para satisfazer um desejo que nasceu pela necessidade de dar amor, de ter amor e em suma de ser feliz.
Há muito tempo que tinha o desejo de ser mãe?
A vontade de ser mãe, nasceu recentemente, ou seja, eu nunca pensei em ser mãe, vivia dedicada ao meu trabalho e ao bem-estar da minha mãe. Eu vivi 40 anos com a minha Mãe e por todas as dificuldades que passamos juntas, tinha na minha mente a vontade de estar com ela até ao fim.
A vida trocou-me as voltas e ela partiu, o meu Mundo desmoronou, a minha companhia de vida, a mulher que mais admirei em todo o mundo partia. Na minha cabeça durante algum tempo, soava uma conversa que tivemos, em que ela me dizia frequentemente “Soninha, tu deverias ser Mãe, se não quiseres ter adotas”.
Coloquei-me em marcha a pesquisar como tal seria possível.
Depois de tomada essa decisão, por quais fases passou o processo?
Pela pesquisa e tentativa de perceber qual a melhor clínica, etc. Fui a uma clínica em Lisboa e optei à primeira consulta pela Ginmed, em Lisboa. Numa primeira fase passamos por um batalhão de exames, análises, tudo tem de ser bem estudado para que nada fique por saber acerca do funcionamento do nosso corpo.
Depois segue-se o tratamento para aumentar a nossa ovulação, para que se extraiam o maior número de óvulos possíveis para que possam fazer a inseminação. Fiz a primeira tentativa falhada no dia 1 de Junho de 2017, que não resultou, passei por algumas complicações que não vale a pena referir aqui.
Acabou por recorrer a uma clínica em Espanha, porquê?
Após a segunda tentativa falhada, e algumas alterações legislativas relativamente ao processo de inseminação em Portugal, resolvi alterar o meu processo para Espanha, na mesma empresa mas com uma legislação mais protetora, quer para mim, quer para a minha filha.
Basta ver o seu processo clínico, para entender as dificuldades que estão presentes neste processo… na sua opinião, quais as maiores dificuldades pelas quais passa uma mulher que decide ter uma criança através deste método?
No meu caso a maior dificuldade foi emocional, todo o processo é cansativo e desgastante psicologicamente, fisicamente também, mas a minha maior dificuldade foi mesmo a parte emocional e isso pelo que assisti é transversal a quase todas as mulheres que escolhem este caminho.
Acima de tudo, apesar de vivermos numa sociedade aberta, não é uma situação comum e levanta sempre algumas questões.
Tive de recorrer a terapia, pois o estado de ansiedade e a vontade de conseguir engravidar estava a bloquear todo o processo e felizmente rodeada das pessoas certas, que tiveram muita paciência para me aturar, este sonho tornou-se realidade.
Não teve medo de ter de assumir toda a responsabilidade? Tinha alguém a apoiá-la?
Medo…. Não, não tive medo, a vontade de amar este ser, que ainda não conhecia, era tanta, que o único medo que tinha era o de não conseguir. As primeiras pessoas a saber desta jornada foram os meus irmãos e duas ou três pessoas mais próximas, que me acompanharam, incentivaram e ajudaram desde o primeiro minuto. A quem estou grata para o resto da minha vida.
Há quem pense que uma mulher ter sozinha uma criança é um ato de irresponsabilidade, que vai privar a criança de um pai. Como encara essa situação?
Eu penso que irresponsabilidade é trazer ao mundo crianças a quem não se dá amor, a quem não se protege e educa. Eu cresci sem Pai desde os meus 7 anos, não faz de mim menos que ninguém, faz de mim alguém que cresceu com uma Mãe maravilhosa, eu tive uma perda, a minha filha não.
A minha filha nasceu do amor que eu tinha cá dentro e precisava de sair, vai ter uma Mãe que vai fazer de tudo para que ambas sejamos felizes e isso é a coisa mais maravilhosa que há na vida.
Quantos anos tem a sua filha?
Neste momento tem 5 anos.
Quando olha para trás para todas as dificuldades que teve de enfrentar e as do presente, o que sente?
Penso que valeu a pena, o sorriso da minha menina, o amor que sentimos, os passeios que damos, até as noites em branco são maravilhosas. Que coisa melhor posso eu ter que este amor incondicional, sem ter de prestar contas a ninguém?
Que conselhos poderia dar a uma mulher que quer ser mãe e que não quer ou não pode partilhar esse desejo com um parceiro?
A única coisa que posso dizer é que siga em frente, faça uma pesquisa detalhada, encontre apoio emocional e financeiro antes de começar o processo, e, acima de tudo, siga o seu coração. Não deixe que julgamentos externos bloqueiem o seu caminho para a maternidade, até porque o resto da vida vai ser maravilhosa.



