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Reading: As ambições e constrangimentos de São Marcos da Serra há 100 anos
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História & PatrimónioSociedade

As ambições e constrangimentos de São Marcos da Serra há 100 anos

Aurélio Cabrita
Última Atualização: 2024/Jun/Sex
Aurélio Cabrita
2 anos atrás
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O jornal «Folha de Alte» dedicou a São Marcos da Serra a sua coluna «Terras do Algarve», na edição de 1 de julho de 1924. Num texto assinado por António V. Vargas, o autor traçou as aspirações e dificuldades da freguesia há precisamente 100 anos.

«Conquanto seja uma região pobre, devido à deficiência da fertilidade do seu solo, tem nos seus habitantes uns incansáveis trabalhadores, esforçando-se por auferirem dele o possível, vivendo, por assim dizer, n’uma verdadeira comunidade, auxiliando-se reciprocamente», lê-se naquele jornal.

Vista Geral de São Marcos da Serra – 1924

A freguesia tinha, por aqueles anos e segundo os censos de 1920, cerca de 3 107 habitantes, os quais, a «despeito das precárias circunstancias em que se encontram, para poder arrostar com as pesadas contribuições que, sobre si, a Câmara e o Estado lançam», se prontificavam «da melhor vontade, a fazer alguns melhoramentos, como por exemplo a construção de um novo Cemitério». Este era considerado «como uma das mais imperiosas necessidades» da freguesia. O velho, criado em 1866, com 120 m2 e uma capacidade de 92 sepulturas, estava esgotado, dado que a população vinha sistematicamente a crescer.

Em vinte anos houve um acréscimo de quase 1 000 pessoas (em 1900 a população era de 2 116, quando em 1864 se cifrava em 1 355). Também a aldeia vinha a prosperar em termos urbanísticos, com a construção de novas habitações nas ruas do Algarve, ou da Ladeira, em 1913.

Assim, e porque as verbas obtidas para aquela infraestrutura, advindas das entidades oficiais, eram parcas, a Junta de Freguesia lançara o imposto do trabalho braçal sobre os seus fregueses e desta forma, «sem distinção de classes, teem concorrido, sem o mínimo protesto, com o seu dia de trabalho, demonstrando assim o grande amor que consagram á terra que os viu nascer».

Ao nível da instrução, existiam duas escolas na aldeia, mas uma delas, a feminina, era tida como «um velho pardieiro onde, de inverno, as crianças gelam e de verão sufocam».

Quanto a acessibilidades, o cenário não era melhor, na freguesia apenas havia uma estrada macadamizada, justamente entre a povoação e a estação de caminho de ferro. Construída havia 3 anos, encontrava-se «num lamentável estado», um «célebre quilómetro de estrada, que nem se chegou a concluir, é triste dizer-se, ficou peor do que estava», escrevia a «Folha de Alte».

Refira-se que aquela via constituía uma velha aspiração, com mais de 30 anos, amiúde exigida à Câmara de Silves, desde que ali chegara o comboio em 1889.

Na aldeia pugnava-se também pela fundação de uma Sociedade de Recreio, Instrução e Desporto. A ideia surgira um ano antes, mas encontrara alguns inimigos, e em resultado era apenas um sonho.

Afinal, «partindo do princípio que só de verão podemos praticar sport porque a detentora do terreno, que mais se apropria, se encontrar no firme propósito de não querer aceitar, pela renda, o duplo do que lhe rende, cultivando-o», mas «tenhamos esperança».

Realidade era a iluminação pública, conseguida não havia muito tempo, bem como o subposto da GNR. Ainda que este último não fosse considerado prioritário, os são marquenses consideravam-se «satisfeitos atendendo aos bons serviços prestados pelo seu pessoal, gosando o seu comandante de gerais simpatias».

São Marcos da Serra, que partira os sinos pela República, em 1910, não deixava de lançar uma farpa aos poderes municipais republicanos: «somente o que desejávamos era que os srs. municipalistas reconhecessem o valor deste baluarte, sob o ponto de vista político, pois é facto e notório que é êle que os tem salvo dos seus transes mais angustiosos».

Como era apanágio deste tipo de notícias, as mesmas eram acompanhadas por anúncios do comércio e indústria locais. No caso em apreço, seis casas comerciais e uma industrial fizeram-se anunciar: Mercearia de Ventura dos Santos Vargas; oficina de sapataria de Francisco Guerreiro Galinha e sapataria de Jacinto Ventura Vargas; Estabelecimentos de fazendas, miudezas: viúva de Alfredo Simões Ferreira; António Perpétuo (que tinha também mercearias); e viúva de Feliciano Nunes; e por fim uma fábrica de cortiça, no Vale da Estalagem, a José Ventura Vargas, Lda..

São Marcos da Serra era, deste modo, há 100 anos, uma freguesia desconsiderada, com diversas carências que se protelavam no tempo, de que a ausência de estradas macadamizadas, de um novo edifício escolar, ou a construção de um cemitério, constituíam exemplos.

Em contrapartida, detinha uma população laboriosa, colaborativa e interessada na prosperidade da freguesia e na defesa do bem comum. Afinal, a maior riqueza de uma terra são as suas gentes!

 

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TAGGED:Aurélio CabritaFolha de AlteSão Marcos da Serra há 100 anos
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PorAurélio Cabrita
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nasceu em 1978. Licenciado em Engenharia do Ambiente, é mestrando em História do Algarve e técnico superior no Município de Odemira. Tem publicados diversos artigos e livros sobre a história local e regional. É também colaborador no jornal on-line Sul Informação.
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2 comentários
  • José Domingos diz:
    22 de Junho, 2024 às 22:12

    Há peripécias na nossa vida, que nos ficam gravados para sempre.

    Sempre que, por alguma circunstância, me cruzo com o nome de São Marcos da Serra – simpática terra encravada na serra algarvia, que detém, por mérito indisputável, o título de “capital da aguardente de medronho”, da genuína aguardente de medronho, néctar que jamais trocaria pelo melhor “whiskie” – estabeleço, de imediato, uma relação de memória com um episódio, de que fui a personagem individual e única.

    O meu pai tinha, com profissão, a de fotógrafo ambulante, deslocando-se, no âmbito do exercício do seu mester, a mercados de várias localidades como, entre outras, Garvão, Santa Clara, Sabóia ou Pereiras.

    Corria o ano de 1950, tinha eu sete anitos e, como se ia deslocar a São Marcos da Serra, onde iria ter lugar o mercado mensal, convidou-me a acompanhá-lo, o que, para mim, foi uma novidade e um acontecimento único.
    Iria, finalmente, sair do pequeno espaço que sempre conheci, assim como fazer a primeira viagem de combóio, factos que nos falam, de um modo bem elucidativo, sobre o que era ser criança, por esses tempos, em Messines, em limites, que, aos olhos actuais, nos parecem quase claustrofóbicos.

    Já em São Marcos, enquanto o meu pai atendia os clientes que a ele recorriam para uma fotografia “à la minute”, como então se dizia, resolvi ir explorar as redondezas e fazer um pequeno passeio para melhor conhecer a terra.
    Só que não contei, por inconsciência, que, após a volta de reconhecimento, teria de retornar para junto do pai …
    E a consequência foi que essa criança, cujo mundo era extremamente pobre, quando se deu conta de que desconhecia o caminho do regresso, entrou em pânico, visto que se encontrava num local totalmente estranho e rodeado por gente alheia …

    Felizmente, alguém do nosso bom povo acorreu, de imediato, em ajuda do pequeno “drama” daquele menino e levou-o de volta para junto do pai …

    Responder
  • José Domingos diz:
    22 de Junho, 2024 às 22:24

    Onde se lê :
    “O meu pai tinha, com profissão, a de fotógrafo ambulante, deslocando-se, no âmbito do exercício do seu mester, a mercados de várias localidades como, entre outras, Garvão, Santa Clara, Sabóia ou Pereiras.”

    Deverá ler-se, obviamente :
    “O meu pai tinha, como profissão, a de fotógrafo ambulante, deslocando-se, no âmbito do exercício do seu mester, a mercados de várias localidades como, entre outras, Garvão, Santa Clara, Sabóia ou Pereiras.”

    As minhas desculpas …

    Responder

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