António Aleixo e o 25 de Abril

Como já hoje é do conhecimento de quase toda a gente, o primeiro livro de António Aleixo – «Quando Começo a Cantar» – embora editado pelo Centro Cultural do Algarve, sediado em Faro – foi posto à venda pelo próprio autor, em Loulé, sua terra residencial, no Domingo de Páscoa de 1943 – que nesse ano calhou a 25 de Abril.

Assim, mas só por graça, poderíamos dizer que António Aleixo foi um poeta do 25 de Abril– 31 anos antes daquele de que, por esta altura, se comemora o quinquagésimo aniversário.

António Aleixo-Pintura de Tossan

Porém, se o nosso poeta merece ser lembrado e evocado como alguém ligado à Revolução dos Cravos, não é por esse facto circunstancial, ocorrido há 81 anos, mas sim pela importância que algumas das suas quadras – lidas, escutadas e cantadas – tiveram no fortalecimento do estado de espírito dos militares – desde o soldado recruta ao capitão – que puseram em marcha e levaram a cabo a jornada gloriosa do 25 de Abril de 1974 – bem como na preparação do clima necessário à aceitação popular desse acontecimento histórico.

É preciso não esquecer – ou, antes, lembrar – que nos últimos anos de guerra colonial, muitos dos homens, inclusive oficiais, sobretudo milicianos, que eram enviados para Angola, Guiné ou Moçambique, iam contrariados, temerosos do que lhes pudesse acontecer, mil vezes mais desejosos de regressarem depressa e bem, do que se deixarem imolar à cegueira política daqueles que insistiam num erro há muito condenado pela História; e que, nos quartéis, antes de partirem, durante a viagem, ou nas frentes de combate, os versos que mais cantavam para passar o tempo, esconjurar o medo ou iludir a fome (no meio do mato), eram quadras de António Aleixo, amplamente conhecidas depois das duas primeiras edições de «Este Livro que Vos Deixo», 1969 e 1970.

Dessas quadras (e sei do que falo, por testemunhos de vários amigos que estiveram em Moçambique e na Guiné) as preferidas e mais vezes repetidas eram: as que denunciavam os que lucravam (e continuam a lucrar) com a guerra; as que de certo modo, tinham algum teor político – ideológico contrário ao governo; e as que se aplicavam à situação concreta daqueles que as cantavam –  e que eram estas:

À guerra não ligues meia,

porque alguns grandes da terra,

vendo a guerra em terra alheia

não querem que acabe a guerra.

 

Não acho maior tortura,

nem nada mais deprimente,

que ter de chamar fartura

à fome que a gente sente.

 

É fácil a qualquer cão

tirar cordeiros da relva;

tirar a presa ao leão

é difícil nesta selva.

 

A preferência por estas quadras – e por outras do mesmo autor – revela bem o grau de aceitação que elas tinham, não só por parte dos cabos, soldados, e sargentos (principalmente os furriéis, quase todos milicianos), mas até mesmo entre alguns oficiais do quadro, sobretudo os mais novos, mais cultos e mais inteligentes, para quem a mensagem de António Aleixo era altamente considerada como um catalisador a ter em conta.

Isso mesmo compreendeu Diniz de Almeida, jovem capitão de artilharia, colocado na Figueira da Foz, e vibrante elemento do M.F.A. Vejamos o que ele nos diz no seu livro «Origem e Evolução do Movimento dos Capitães», Cap.X, pag. 312, 1ª edição, Lisboa, 1976:

«terça-feira, 23 de Abril de 1974, no R.A.P. (Regimento de Artilharia Pesada, Nº3) (…) À noite, com o espanto dos presentes, preparei três equipas de viola, sem lhes (aos soldados) explicar os motivos, por razões de segurança. Propunha-me a fazer acompanhar a coluna (a coluna que sairia da Figueira para Lisboa) ao som de duas quadras da António Aleixo, impressas a stencil, para reforço de uma favorável acção psicológica sobre o pessoal que as iria a cantar pelo caminho. Numa pequena arrecadação, um grupo coral constituído por cabos instrutores também treinava a melodia de Francisco Fanhais que acompanhava as quadras» – e que eram estas:

 

Vós que lá do vosso império

prometeis um mundo novo,

calai-vos que pode o povo

querer um mundo novo a sério.

 

Que importa perder a vida

em luta contra a traição,

se a Razão mesmo vencida

não deixa de ser Razão?…

 

Este exacto episódio encontra-se reportado no relatório do capitão Fausto de Almeida Pereira, datado de 1 de Maio de 1974. Diz ele: «O capitão Diniz de Almeida havia iniciado uma campanha de mentalização entre os seus (soldados) recrutas. Recordo, por exemplo, os versos de António Aleixo que, em uníssono, ele encorajava a cantar…»

Ora, se dúvidas houvesse acerca da importância que a poesia da António Aleixo teve na preparação do espírito de festa com que cabos e soldados aceitaram participar nas acções militar-revolucionárias daquele dia histórico, os testemunhos daqueles dois Capitães de Abril bastariam para desfazê-las. E, se necessário fosse, mais testemunhos poderiam ser recolhidos; vários militares me confidenciaram que entraram na Revolução de Abril empolgados pelas quadras de António Aleixo – não só as que tinham lido, como as ouvidas nas vozes de José Afonso, José Manuel Osório, Rui Silva, Dário de Barros, Francisco Fanhais, etc… Já para não falar em João Vilaret, que foi quem primeiro disse quadras de António Aleixo na televisão.

Mas a ligação do nosso poeta ao 25 de Abril não se fica por aqui: Como sabemos, a rendição de Marcelo Caetano, arrastou-se até ao fim da tarde de dia 25. No Largo do Carmo, o povo, cada vez em maior número, quer assistir a esse momento crucial.

Pelas 17h:40, chega ao Quartel da GNR, o general Spínola, cuja presença era reclamada por Marcelo, e que vinha devidamente mandatado para o efeito.

Às 18h:40, no Rádio Clube Português é lido o 12º comunicado do M.F.A.. Pelas 18h:50, sai do quartel a “Chaimite” Bula transportando no seu interior o Presidente do Conselho deposto, e os três ministros que o tinham acompanhado. Destino: Regimento de Engenharia Nº1, Pontinha  –  Centro de operações do Movimento.

Em reportagem de rua, o R.C.P. vai relatando o que se está a passar; e, mal informa que Marcelo Caetano acaba de sair, logo alguém, na cabine de som, põe no ar um poema de António Aleixo, desta vez cantado por Adriano Correia de Oliveira – uma balada em quatro “décimas”, subordinadas a mote:

 

MOTE

Já lá vai preso o ladrão

que em toda a parte apar’cia;

contam-se mais de um milhão

de roubos que ele fazia.

GLOSAS

I

Meus senhores vão ouvir

a história do quadrilheiro

Manuel Domingos Louzeiro

que foi a pena cumprir,

enquanto alguém de Salir,

num primor de descrição,

lhe chama até «Lampeão»;1

mas, salirenses honrados,

podeis dormir descansados,

já lá vai preso o ladrão.

II

Pelas coisas que o povo diz,

o tal Domingos tem sido

para uns, terrível bandido,

para outros, grande infeliz.

Mas eu, sem querer ser juiz,

vi que ele se despedia

da mulher com quem vivia

numa amizade sincera

e não vi nele a tal fera

que em toda a parte apar’cia.

III

Desse rei dos criminosos,

direi, aos que o conheceram:

poucos crimes apareceram

e poucos são os queixosos;

apenas alguns medrosos

terrível fama lhe dão;

para a justiça só são

os seus crimes dois ou três,

mas coisa que ele não fez

contam-se mais de um milhão.

IV

Por alguns sítios passava,

onde há só gente honradinha

que roubava à vontadinha

e que ninguém acusava;

tudo Domingos pegava,

e ele às vezes nem sabia

que à sua sombra vivia

gente que passa por justa,

fazendo crimes à custa

dos roubos que ele fazia.

Hoje até podemos achar que, naquele momento, tais versos não vinham muito a propósito. Mas compreende-se a intenção do radialista que os pôs no ar (tendo em conta a voz que os cantava) e que terá sido a de associar o autor do poema à fase culminante daquele dia.Aqui chegados, deixo ao leitor benévolo a liberdade de decidir se António Aleixo pode ou não ser considerado, senão um homem, pelo menos um poeta do 25 de Abril.

 

———————-

  1. Não se trata duma lanterna nocturna, mas sim do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, abatido a tiro pela tropa brasileira, em Julho de 1938, e cuja morte foi noticiada pelos jornais portugueses

 

 

Texto de Ezequiel Ferreira

Sobre o autor: Nasceu em Pêra, em 1937, Colaborador em vários jornais algarvios, como “O Algarve”, o “Jornal do Algarve”, a “Avezinha”.

Tem dedicado grande parte do seu tempo de ócio ao estudo e divulgação do poeta António Aleixo, e publicou, em 1978, o volume “Inéditos”, produto desta dedicação.

Atualmente aposentado, da carreira de funcionário público e de professor do ensino particular noturno.

 

 

 

Veja Também

Assinado acordo para a construção de telescópio made in Portugal – o PoET

O acordo para instalar o telescópio solar PoET no Observatório do Paranal foi assinado pelo …

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *