Numa altura em que estão a decorrer, finalmente, obras de conservação e restauro da secular ermida de Nossa Senhora do Pilar, pareceu-nos oportuno apresentar uma síntese do conhecimento actual sobre a sua história e o seu património artístico.
O culto de Nossa Senhora do Pilar desenvolveu-se em Portugal no século XVII, por influência do crescimento da devoção no santuário mariano desse título, em Saragoça, e do incentivo ao culto pelo Papa Alexandre VII. Em 1644, foi fundada no Mosteiro de S. Vicente de Fora uma irmandade de N. S. Pilar e construída uma capela, em 1672. De S. Vicente de Fora o culto irradiou para outros pontos do país, sobretudo a Norte, casos do Mosteiro do Pilar, em Gaia, desde 1676, e Póvoa de Lanhoso, em 1680, para só referir os mais destacados lugares de culto. Ao Algarve, terá chegado em finais do século XVII, sendo edificadas ermidas em Loulé e Algoz.
Até à data, não se encontraram documentos da fundação dessas ermidas, supondo que terão existido licenças da Câmara Eclesiástica de Faro. Assim, tem sido atribuída uma data aproximada para a fundação, entre finais do século XVII e inícios do século XVIII.

A primeira descrição conhecida da ermida data de 1747 e consta do “Dicionário Geográfico”, do Pe. Luís Cardoso (tomo I, p.289):
“Há na freguesia três ermidas, uma dentro do lugar, dedicada a S. José, e duas fora dele, a saber: S. Sebastião e Nossa Senhora do Pilar. A esta acodem alguns romeiros a buscar patrocínio e favor da Senhora nas suas necessidades. Está situada em um alto com vista larga e alegre, donde se avistam onze freguesias”
Em 1758, nas Memórias Paroquiais do Algoz (T.T., Dicionário Geográfico, vol. 2, fls. 507-512), vamos encontrar uma descrição, com informações mais detalhadas:
“Está situada em uma planície descoberta para a parte do Nascente e Norte, e pela parte do mar lhe fica diante um monte que lhe encobre a vista do mar, e pelo Poente algum pouco levantado não se descobre freguesia alguma, mas tem um monte donde está plantada a Senhora do Pilar, aonde se descobrem sítios de catorze freguesias, a saber: pelo Nascente, Albufeira e Paderne, e dista meia légua, pelo Norte, Alte e São Bartolomeu de Messines, e dista meia légua; vê-se também a freguesia do Alferce, a Picota e a Fóia de Monchique e Marmelete; pela parte do Poente confina com Alcantarilha e Pêra, e dista um quarto de légua; descobre-se também parte da freguesia de Porches, Alcantarilha, Pêra, Lagoa, Silves, e pela parte do mar confina com lugar de Pêra e com Alfontes da Guia, e terá de distância, pouco mais de meio quarto de légua. Vêem-se estas freguesias e parte da freguesia de Porches, descobre-se o mar; terá em circuito toda a freguesia pouco mais de duas léguas. (…)
[A ermida] de Nossa Senhora do Pilar, fora do lugar, perto em um monte, algum tanto levantado donde se vê a parte das freguesias já referidas, muito composta, tem mais na mesma igreja outra imagem da mesma Senhora, linda, que serve para as procissões, tem mais duas imagens lindas, uma de São Joaquim, outra de Santa Luzia, todas de muita devoção deste povo, esta não pertence a ninguém, é da jurisdição dos provedores, com suas rendas é que se orna. (…)
[Todas as três ermidas] são visitadas muitas vezes deste povo em dias mais festivos e santos, e muito mais a Senhora do Pilar, aonde em todos os sábados da Quaresma vai o pároco a cantar o terço e ladainha da mesma Senhora com assistência do povo e muita parte da freguesia e em alguns dias do ano acodem suas romagens, não com muita frequência, especialmente por Natal, Páscoa, e no Verão. (…)
[A freguesia do Algôs] não tem feira, somente tem uma vigília que se faz em Agosto, no primeiro Domingo em que se faz a festa de Nossa Senhora do Pilar, a qual é depois do dia de Nossa Senhora em quinze do mesmo mês, em que acodem seus tendeiros e coisas de comer, frutas, etc.”
Em 1769, temos uma nova informação, citada por Ataíde Oliveira, “Monografia do Algôs” 1905, p. 131) que menciona a ermida no sítio da Amoreira, num prazo constituído ao alferes José Vieira, sendo senhorio directo o Cabido da Sé de Faro que recebia o foro de 66 alqueires de trigo.
Em meados do século XIX, há notícias de uma Mordomia de Nossa Senhora do Pilar (T.T. Livro 1868 de Desamortização e Foros, p.59)
No início do século XX, quando Ataíde e Oliveira, natural do Algoz, escreveu a bem informada monografia da sua terra, a ermida tinha a abóbada arruinada e iria ser “reparada em breve”. O conhecido jornalista e investigador referia também que a ermida era muito visitada e, ao tempo, propriedade da família Marreiros Neto. E dava conta da tradição relativa ao milagre da cura de uma enferma de doença nos olhos com a água de um poço (?) junto à parede poente do anexo. Assinale-se que, em 1758, já era referida a devoção à imagem de Santa Luzia, advogada dos doentes dos olhos.
Não dispomos de qualquer informação relevante para a primeira metade do século XX, e será em 1976, na obra “Tesouros Artísticos de Portugal”, p. 75-76, que vamos encontrar o reconhecimento do valor patrimonial da ermida e do seu recheio artístico, ainda em razoável estado de conservação, como se verifica pela fotografia então publicada, com o altar paramentado, a denotar continuidade do culto.
O mesmo interesse artístico, em particular das pinturas sobre tábua no arco triunfal, foi salientado pelo Mestre Lagoa Henriques, no programa “Portugal, Passado Presente” (RTP, 27 de Maio de 1985): A surpresa das tábuas que revestem o arco triunfal. Dir-se-ia uma pintura de El Greco. Alarmante o estado de conservação deste conjunto pictórico que representa cenas da Paixão de Cristo.

Em 1988, o historiador de Arte, Francisco Lameira, publica uma foto a cores do retábulo (Itinerário do Barroco no Algarve, p. 26) e, em 1989, na sua dissertação de mestrado (A Escultura Barroca Algarvia II, p. 17), descreve o retábulo, de autor anónimo, atribuindo-lhe a datação de 1726: De planta recta e estrutura tripartida, consta de banco, corpo e ático. No banco há quatro pedestais e no meio um ressalto com a forma de sacrário. As colunas sào pseudo-salomónicas e ladeiam na parte central um nicho com a imagem da padroeira. Nos inter-colúneos, sobre as peanhas posteriores, estão as imagens de S. Joaquim e Santa Luzia. Nas ilhargas há painéis de talha que se adaptam à forma arredondada da ousia. O ático tem dois arcos salomónicos de meio ponto e no centro uma carteia sobreposta por uma coroa.
Estas chamadas de atenção para a riqueza artística da ermida, levaram a que viesse a ser classificada, em 1993, como Imóvel de Interesse Público, Decreto 45/93 de 30 de Novembro.
A classificação não teve como efeito um maior cuidado com o estado de conservação da ermida e, em 2000, o mesmo historiador, no “Inventário Artístico do Algarve, vol. XV – Concelho de Silves”, p. 114-121, refere sinais de degradação do retábulo e que o templo estava encerrado e ameaçava alguma ruína. Em 2002, o mensário regional Terra Ruiva alertava para o estado de degradação e abandono da ermida. Em 2005, a Comissão de Bens Culturais da Conferência Episcopal Portuguesa inventariou os bens artísticos existentes. Pouco tempo depois, em 9 de Março de 2006 (cf. Correio da Manhã, 10 de Março), foram furtadas as colunas torsas do retábulo e duas pinturas sobre tela, representando Santa Luzia e Santa Bárbara, existentes no intradorso do arco do cruzeiro.
Em 2009, fez-se uma avaliação técnica do estado de conservação e segurança da ermida. E o tempo foi passando, até que em 2013, no “Plano Regional de Intervenção Prioritária no Algarve”, surge a previsão de uma intervenção a curto e médio prazo, com orçamento de 292 mil euros, mas que não foi executada. Em 2014 (6 de Outubro) é apresentada à Assembleia Municipal uma exposição sobre a degradação e, em 2015, feita nova avaliação das patologias.
No início de Fevereiro de 2016 (Jornal Barlavento, 13 Fev.), a porta foi arrombada e a ermida vandalizada com roubo de peças de talha dourada do retábulo. Foi colocada uma porta metálica e constituiu-se a associação cívica “Amigos da Ermida” que promoveu várias iniciativas para a angariação de fundos. Em 2017, foi aprovada a candidatura a fundos comunitários da recuperação do antigo e muito degradado templo.
As obras de recuperação em curso (telhado, paredes, lanternim, anexo) a cargo de uma prestigiada empresa de conservação e restauro irão devolver a dignidade merecida ao singular monumento no plano arquitectónico, embora a recuperação do património retabular e pictórico se afigure problemática, se não impossível, dada a delapidação verificada nos assaltos de 2006 e 2016.









