No dia 3 de maio, pelas 14h30,ocorreu numa área natural em Alcoutim, no Algarve, a reinserção de dois linces-ibéricos. O Centro de Críadel Lince-Ibérico de Zarza de Granadilla, em Cáceres, espaço no qual estes espécimes foram criados, encarrega-se da salvaguarda sanitária dos animais e da sua monitorização através de coleiras, cujo objetivo é o acompanhamento do seu percurso no local.
Sidra (jovem fêmea, filha de Narina e Paíño) e Salao (jovem macho, filho de Omeya e Norteño) têm 13 meses de idade e foram preparados para caçar, de forma a facilitar a sua inserção no habitat natural.

Neste mesmo dia, pelas 17h00, foi apresentado publicamente, pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, o Complexo de Treino e Recuperação do Lince-Ibérico, localizado no Centro Nacional de Reprodução de Lince Ibérico, em Silves (CNRLI).
A construção deste complexo, completa em 2019, significa um investimento de mais de 598 mil euros. Com dois cercados de treino, este espaço permite uma melhor compreensão das condições físicas e comportamentos dos linces-ibéricos e da sua capacidade de adaptação ao seu ambiente natural. A libertação dos animais acontece quando completam 11 a 12 meses de idade.
João Alves, coordenador do projeto de recuperação em Portugal, um dos compromissos do ICNF, explicou que o novo complexo tem duas funções principais: acolher animais feridos ou doentes, que foram capturados da natureza e não podem estar perto dos outros; treinar as crias de lince, para que estas não associem o ser humano a alimento, proporcionando-lhes a capacidade de encontrar o seu próprio alimento na natureza. Explicou ainda que é necessário perceber o perfil genético do lince para que as misturas genéticas, uma das finalidades do CNRLI e do ICNF, ocorra.
Este responsável pelos projetos de recuperação do lince-ibérico destacou ainda que a cria pode ser rejeitada pela mãe, sendo necessário criá-la artificialmente. Contudo, é possível, mais tarde, tentar reenquadrá-la numa outra ninhada. Por outro lado, a taxa de reprodução do lince apresenta uma quebra significativa caso as fêmeas não tenham alimento suficiente.

Rodrigo Serra, coordenador do CNRLI, esclareceu que os funcionários do centro não podem interferir nas lutas entre as crias, é a mãe que resolve as disputas entre os seus linces. Todas as crias de lince-ibérico lutam, em média, entre o dia 30 e o dia 70. Menciona também que desde a fundação do CNRLI em 2009, até à data presente perderam apenas dois linces-ibéricos, num total de 153 crias de lince.
O responsável pela coordenação do Centro Nacional de Reprodução de Lince Ibérico afirmou que a taxa de mortalidade do lince é baixa, explicando que num total de 635 animais nascidos até ao ano passado, apenas 10 morreram. Refere que o CNRLI trabalha com uma equipa de dois etólogos, especializados em comportamento animal. Um destes profissionais está a estudar a personalidade dos linces-ibéricos para ajudar a compreender que tipos de personalidade são compatíveis de se juntar em determinada situação e no centro são utilizadas 132 câmaras para acompanhar as ações dos linces. Estão também presentes um veterinário e um tratador, para intervir em qualquer situação.
Questionado sobre a alimentação dos linces-ibéricos, Rodrigo Serra explica que esta varia, conforme se esteja a falar de reprodutores ou de animais treinados para reintrodução. Estes últimos recebem unicamente a presa viva, que usualmente é coelho porque um dos objetivos do CNRLI é habituar os linces a alimentar-se de aves. Recebem uma média de 5 coelhos por semana, que varia consoante o dia, para treinar as crias com competências sociais para se defenderem e saberem atacar.
A visita ao Centro Nacional do Lince-Ibérico e as declarações transmitidas pelos principais responsáveis do mesmo tornam possível afirmar que as grandes metas do CNRLI são: preservar as espécies e criar novas biogenéticas, ao juntar os casais de lince pretendidos. Assim, corrigir a variabilidade genética da espécie, que é pequena, sobretudo em populações isoladas, vai deixá-las menos suscetíveis a diversas patologias, particularmente a leucemia felina, a toxoplasmose e a tuberculose bovina.
Esta inauguração, que sucedeu à reintrodução na natureza de dois linces-ibéricos em Alcoutim, contou com a presença da presidente da Câmara de Silves, Rosa Palma e do ministro do Ambiente e da Ação Climática, Duarte Cordeiro.

Exposição “No Caminho do Lince Ibérico”
Pensando em quem deseja conhecer melhor estes animais e o CNRLI, a cidade de Silves dinamiza, no seu Castelo, um espaço com a exposição “No Caminho do Lince-Ibérico”. Neste local é possível perceber a evolução histórica deste espécime, o seu perigo de extinçãoe o trabalho desenvolvido para permitir a sua inserção na natureza. As características em termos morfológicos deste animal são igualmente exploradas, bem como as ameaças que enfrentam, os seus habitats mais comuns e a sua importância para a estabilidade do ecossistema.
Com uma gestação de aproximadamente dois meses, o lince-ibérico é um animal que vive, em média, até aos 16 anos. No geral, as ninhadas têm duas a três crias e só a partir dos 7 meses é que começam a ser independentes. Apontado como o felino mais ameaçado em termos mundiais, é o único animal classificado como criticamente em perigo pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Atualmente existem 1100 linces-ibéricos na Península Ibérica, dos quais mais de 200 têm permanecido em Portugal, indicativo do progresso que a preservação da espécie tem vindo a ter.
Texto: Inês Jóia
Fotos: Laura Gomes







