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Algarve

Empresa de biotecnologia procura no mar algarvio a solução para a dor crónica

Terra Ruiva
Última Atualização: 2021/Jun/Qua
Terra Ruiva
5 anos atrás
Foto:
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Esponjas do mar, anémonas, alforrecas e algas. É entre invertebrados e plantas marinhas que um grupo de cientistas tenta há mais de uma década descobrir, a partir de Sagres, novos caminhos para acabar com a dor crónica e outras doenças.

Contents
  • O fim da dor crónica pode vir do mar
  • Apoios comunitários ajudam a crescer e expandir
  • “A pandemia quase nos matou”

Com três patentes já registadas, a sea4us, uma empresa de biotecnologia especializada na pesquisa de produtos farmacêuticos, sonha fazer história a partir do Porto da Baleeira.

O azul carregado e frio, matizado por pequenos socalcos de espuma, estende-se pelo horizonte. Na ponta de Sagres, a silhueta de um homem de olhos fixos no mar parece indiferente à tareia que apanha do vento. Não tem certeza sobre o que possa haver para lá do que os olhos descobrem, mas não tem dúvida de que essa incógnita chama por ele e pelo resto da equipa. É a História a baralhar e a dar de novo.

Se não foi da Baleeira que partiram as caravelas quinhentistas, é de lá que parte agora a pequena embarcação da sea4us. Pedro Lima, o homem que há anos está de olho naquelas águas, faz a viagem acompanhado de mergulhadores-cientistas, como ele. A pouca distância da costa, irão parar para fazer o que já fizeram centenas, senão milhares de vezes. Sentados na borda do barco, com o equipamento colocado, deixam-se cair de costas, almofadados pela água. À medida que descem, procuram a entrada de uma das muitas cavernas do complexo de grutas marinhas da Atalaia. É nas zonas sombra, sítios menos dominados pelas algas, que outros organismos podem reinar. À medida que a luz das lanternas se espalha pelas reentrâncias da rocha submersa, uma imensidão de pontos coloridos revela-se. Os cientistas procuram invertebrados. Esponjas do mar, sobretudo, mas também anémonas. Estes organismos, apuraram ao longo de milhões de anos, mecanismos de sobrevivência e defesa. No seu interior são produzidas toxinas com potencial de matar, mas também de curar. Estudos sobre as espécies predominantes na Costa Vicentina permitiram aos investigadores perceber que literalmente nadavam num ecossistema de grande interesse para a área da medicina.

Foto: sea4us

O fim da dor crónica pode vir do mar

A decisão desse grupo de jovens, maioritariamente da área das neurociências, foi tomada em 2013. Abriram, em Vila do Bispo, a sede da empresa. Propuseram-se descobrir nas toxinas de invertebrados que proliferam naquelas águas, componentes que permitam o desenvolvimento de analgésicos que não provoquem dependência. Em poucos anos, a sea4us construiu uma biblioteca com centenas de substâncias e compostos para estudar “extratos e coisas mais puras onde encontrámos bioatividade. O potencial está lá”, explica Pedro Lima, o CEO da empresa que, em 2017, se focou na identificação de duas moléculas que poderão ser a chave para acabar com a dor crónica. “Na maior parte dos casos, essa dor é tratada com opióides. As moléculas que identificámos numa esponja do mar e numa bactéria alojada noutra esponja, não prevêem os efeitos secundários dos tratamentos convencionais”, acrescenta. “Estudamos a fundo os padrões neurofisiológicos da dor crónica e, como tal, sabemos como uma droga os deveria corrigir e essa correção só a encontrámos no mar”.

A robustez das pesquisas permitiu submeter, em 2019, as patentes de três descobertas relativas a uma das moléculas e do seu mecanismo de ação. “Temos outros produtos desenvolvidos, ligados a patologias como a dor induzida pela quimioterapia, relevante para o cancro da mama, por exemplo. O agente usado no tratamento é um salva vidas, mas a maioria das pessoas fica com uma dor permanente. Encontrámos algo que poderá ser a solução para esse problema.”

Parte destes avanços acontecem em laboratórios da Faculdade de Medicina, em Lisboa, onde a sea4us desenvolve algumas das pesquisas. No entanto, tudo começa no pequeno espaço no Porto da Baleeira, em Sagres. “É lá que fazemos a identificação das espécies que trazemos do mar e que congelamos as amostras“. A ampliação desse espaço é essencial: “a nossa obsessão é termos ali um centro de investigação onde possamos fazer quase tudo. Se calhar o nosso papel é termos, outra vez, em Sagres, uma lança”.

Apesar de, tal como em qualquer negócio, também aqui o fator segredo ser determinante, a filosofia da empresa passa pela partilha do conhecimento como estratégia. Por isso, acolhem pontualmente investigadores de várias universidades, em especial da Universidade do Algarve. “Temos todo o interesse em colaborar porque do conhecimento partilhado vem a inovação”, explica.

Se os analgésicos para a dor crónica são o centro da pesquisa da sea4us, a empresa avança, no entanto, noutras frentes. “Através da pesquisa em microalgas, procuramos respostas para infeções resistentes – infeções bacteriológicas e fúngicas, que criam resistência aos antibióticos. Entre o trabalho que temos desenvolvido há também passos que poderão ter muita relevância na resposta a doenças como as artrites e autoimunes”, acrescenta Pedro Lima.

Apoios comunitários ajudam a crescer e expandir

Com menos de uma década de atividade, a sea4us tem sabido navegar entre os mecanismos de apoio comunitários. Se para trás foram vários os projetos apoiados, no âmbito do CRESC Algarve há mais quatro iniciativas financiadas em quase 325 mil euros. “Em relação aos projetos que tivemos aprovados passam por identificar oportunidades de venda das patentes a farmacêuticas e iniciar o processo de internacionalização”, esclarece Susana Antunes.

A diretora de marketing e comercial da sea4us acrescenta que “há outro projeto para o desenvolvimento de um biocida com origem em algas; a expansão da capacidade de infraestruturas e logística no polo de Sagres e a contratação de um recurso humano altamente qualificado para o aumento da inovação“. Neste caso, um dos objetivos é escalar a descoberta de compostos terapêuticos para patologias“.

“A pandemia quase nos matou”

Com o laboratório encerrado durante um ano, devido à pandemia, houve obras e investigações paradas. Como se não bastasse, as negociações com investidores europeus, praticamente concluídas no final de 2019, acabaram por desandar devido aos efeitos do Covid-19. “A pandemia quase nos matou”, confessa Pedro Lima. Mas´, se a pandemia atrasou muitos dos projetos, não afastou a empresa da rota. Quando olha para o futuro a dez anos, o CEO da sea4us não hesita em afirmar o que gostaria de poder dizer então: “termos participado na fonte da cura de uma doença e podermos ter como declaração no nosso portfólio que a natureza primordial veio das águas de Sagres”.

 

Fonte: CCDR Algarve

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