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PsicologiaVida

O medo

Helena Pinto
Última Atualização: 2020/Nov/Sáb
Helena Pinto
6 anos atrás
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A vida coloca-nos frente a frente com mais um período de incertezas e desafios. Enfrentamos um tempo em que o medo é o pior inimigo. Há dias partilharam comigo um conto bem pertinente para o momento atual, um conto da tradição sufi, que se intitula “Nasrudin e a Peste” e que, no espirito de partilha de contos para refletir, gostaria de vos contar.

“A Peste ia a caminho de Bagdá quando encontrou Nasrudin. Este perguntou-lhe:
– Aonde vais?
A Peste respondeu-lhe:
– A Bagdá, matar dez mil pessoas.
Depois de um tempo, a Peste voltou a encontrar-se com Nasrudin.
Muito zangado, o Mullah disse-lhe:
– Mentiste-me. Disseste que matarias dez mil pessoas e mataste cem mil.
E a Peste respondeu-lhe:
– Eu não menti, matei dez mil. O resto morreu de medo.”

O medo é uma reação involuntária e natural, é, numa perspetiva evolutiva e desenvolvimentista, uma adaptação. Como qualquer adaptação varia, podendo apresentar desajustamentos nos extremos da distribuição, tanto na alta como na baixa ansiedade. O cérebro é ativado involuntariamente quando é exposto a estímulos stressantes, libertando substâncias que contraem os músculos, disparam o batimento cardíaco, tornam a respiração mais ofegante, numa reação de luta ou fuga, pois está associado ao instinto de sobrevivência. Sem sentir medo não conseguiríamos sobreviver. O medo ajuda-nos a proteger e defender face a situações de perigo.

Contudo, quando deixamos que a nossa mente se alimente de conteúdos demasiado alarmantes, não devidamente enquadrados, e sem uma atitude racional e bem fundamentada de análise dos mesmos, colocamo-nos num estado de maior fragilidade e sensibilidade, aumentando a probabilidade de nos deixarmos afetar física e emocionalmente. Neste momento de pandemia global, precisamos ficar bem atentos quanto aos conteúdos com os quais alimentamos a nossa mente. Precisamos ser mais seletivos e reduzir a exposição a conteúdos demasiado negativistas e alarmistas, que não acrescentam valor ao que já se sabe.

Devemos procurar alimentar a mente como alimentamos o corpo, com conteúdos nutritivos que permitam ativar o nosso lado otimista, e acreditar na capacidade individual de superação, solidariedade e fé, mantendo sempre viva a esperança. Manter a rede de amigos e familiares bem presente, mesmo que distante fisicamente. Descobrir novas formas de abraçar e expressar o afeto. Mudar a perspetiva e focar na construção de soluções, alimentando o espírito das vitórias e não das derrotas e usar isso como combustível para as ações em prol do bem-estar individual e coletivo.

O momento pede introspeção, pede solidariedade. E é por isso que o momento nunca foi tão favorável para o crescimento pessoal e comunitário. A capacidade de sobrevivência do ser humano sempre aconteceu a partir da união e da partilha. As lições da história estão aí para quem quer verdadeiramente tornar-se uma melhor pessoa e fazer da sua casa, da sua terra, do seu país, do mundo, um melhor lugar e uma boa herança para as gerações futuras.

“Façamos da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança,
do medo uma escada,
do sonho uma ponte, da procura um encontro!”
Fernando Sabino

 

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Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Formadora da Ordem dos Psicólogos Portugueses (Situação profissional dos Psicólogos; Ética e Deontologia, Intervenção em Situação de Emergência e catástrofe) e Membro do Conselho de Representantes da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Consultora da área da Gestão de Carreira
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