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História & PatrimónioSociedade

1931- O último 1º de Maio livre; e “O Milagre de Maio” em 1962

Terra Ruiva
Última Atualização: 2020/Mai/Sex
Terra Ruiva
6 anos atrás
Greve estudantil 1962
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1931 – O último 1º de Maio Livre

Sob o lastro da morte do estudante Branco, no Porto, a 28 de abril

1931 foi o ano de todas as revoltas. Nas ilhas atlânticas, desde dia 4 de Abril que se tinha reimplantado a «República da Madeira». Aqui ao lado, a 15 de abril, os espanhóis tinham implantado a II República.

Em 25 de abril, os estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa entram em greve pelo facto de o governo da Ditadura ter entregue a um militar a Direção do Hospital Escolar da Faculdade.

No Porto realiza-se, a 28 de Abril, uma Assembleia Geral de Alunos de Medicina que foi invadida «com grande aparato bélico, por forças de infantaria, de metralhadoras e da GNR da cidade». O mandato de evacuação pelas forças da ordem provocou a queda de estudantes pelas escadas, para os pisos inferiores, de que resultou a morte do estudante João Martins Branco e ferimentos graves em mais 26 estudantes.
O funeral do estudante Branco, realizado no dia 30 de abril, reuniu milhares de pessoas pelas principais ruas do Porto.

Funeral do estudante João Branco

Em Lisboa, os Relatórios da GNR e das forças de Cavalaria sobre as comemorações do 1º de Maio não deixam dúvidas: atestam os ajuntamentos registados no Rossio, convocados pelos estudantes e pelos meios sindicais, onde o pelotão de Cavalaria foi atacado a tiro e à bomba. A multidão é dispersa pelas ruas 1º de Dezembro, Betesga, Galinheiras e Amparo sob forte repressão policial. O fogo de Metralhadoras Pesadas é usado repetidas vezes no Rossio, Av. da Liberdade e especialmente na Mouraria. Dos tumultos resultam 3 mortos e mais de 20 feridos.( a partir de ANTT, MI, Gabinete do Ministro, maço 454, Cx.7).

No Porto, o 1º de Maio é também comemorado sob as mais severas condições de violência. O relato pessoal do tenente Queiroga Chaves (depois oposicionista a partir da Revolta da Mealhada, 1946), encarregado da repressão é, a este título, bem expressivo da violência empregue contra os manifestantes.
Sob forte repressão policial, o 1º de Maio voltaria a comemorar-se no Rossio de Lisboa em 1962, antes que pudesse vir a ser comemorado de novo, em Liberdade, em 1974.

O «Milagre de Maio»
1º de Maio de 1962 – Rossio – Lisboa

«Era o milagre nesse maio de luta contra o fascismo. Em poucos segundos a Baixa ficara repleta de gente. Pareciam nascidos do chão. Surgiam pessoas de todos os cantos e do interior das lojas. (…) Seis horas da tarde. (…) De repente, a repressão abateu-se com tal violência que desencadeou em nós um só grito.”A-ssa-ssi-nos! A-ssa-ssi-nos!» (Helena Pato, A Noite Mais longa, 3ª edição, 2020, Colibri, p. 50).

De António Dias Lourenço – a partir de uma mesa redonda sobre o 1º de Maio em Portugal, in Avante! 644, 1986:
«Nessa altura era eu o camarada mais responsável que estava cá no País, em liberdade, e participei de forma muito ativa na organização desse 1º de Maio» .
A luta desse período consagrou a vitória das 8 horas de trabalho para cerca de 250 mil assalariados agrícolas do Centro e Sul do país e permitiu articular, de forma frutuosa, a luta dos estudantes, a luta sindical e momentos de mais fácil mobilização como o «31 de janeiro» no Porto e o «8 de março», por todo o país. Não foram vitórias sem luta e sem luta dura, como aconteceu na Herdade da Palma, em Alcácer, lembra Dias Lourenço; mas que, levando de vencida os agrários, tinham potenciado a organização de um 1º de Maio, em Lisboa, com milhares de manifestantes.
Dias Lourenço organizou e acompanhou esse 1º de Maio, a que as forças da ordem responderam com repressão violentíssima, com tiros e pancadaria por toda a Baixa e zona da Graça. O movimento popular não fora, portanto, espontâneo, embora houvesse milhares de pessoas à espera de um aceno: fora fruto da organização dos comunistas e também das Juntas Patrióticas, organizadas na sequência das eleições de Humberto Delgado. As lutas académicas das Universidades de Coimbra e Lisboa potenciaram este 1º de Maio de 1962. Haviam-se iniciado antes, em março, e continuariam pelos meses de abril, maio e junho.

Os jornais do dia deixam antever uma parte dos acontecimentos (sigo aqui o Diário de Lisboa de 2 de maio,uma terça-feira nesse ano de 1962):
Nota oficiosa: «…o chamado partido comunista português» tinha tentado «sublevar as classes trabalhadoras pelo abandono do trabalho e pela realização de manifestações subversivas».
Na Baixa de Lisboa, entre as 18.45h e a 1 da manhã milhares de pessoas afrontaram as forças repressivas, que ripostavam a tiro, com gases lacrimogéneos e canhões de água azul, para marcar os implicados.
Resultaram 34 feridos hospitalizados e 1 morto, no Largo de S. Cristóvão: Estêvão José Dangue Giro, 25 anos, solteiro, servente tipógrafo em Alcochete, de onde era natural».

O 1º de Maio tinha sido antecedido, no dia 28 de abril, em Aljustrel, por uma manifestação popular exigindo a libertação de 15 companheiros mineiros presos na GNR, de que que resultou a morte de António Adângio e Francisco Madeira.
Em 8 e 9 de maio, Lisboa voltaria a ser palco de manifestações estudantis.

Greve estudantil 1962

A Memória desse Maio de 1962 esteve presente no 1º de Maio de 1974, um dos momentos fundadores da Revolução de Abril. Porque nunca os antifascistas deixaram de «invadir o Rossio» para comemorar o 1º de Maio nos anos que se seguiram a 1962, correndo o risco da prisão e da repressão.

Texto de Luís Manuel Farinha

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1 comentário
  • José Domingos diz:
    1 de Maio, 2020 às 12:38

    O PRIMEIRO 1º. DE MAIO

    O primeiro 1º. De Maio vivido em Liberdade foi um natural corolário do dia 25 de Abril de 1974.
    Só que, de um modo mais organizado, e não já de sopetão, como nos apanhou o sagrado dia, que nos restituiu a possibilidade de podermos falar e expender as nossas ideias e os nossos anseios, sem que tivéssemos de recear que, pela calada da noite, algum esbirro do regime nos arrancasse da cama para nos atirar para a prisão da tortura e, quantas vezes, de sequelas para a vida ou, mesmo, da morte.

    Jamais se tornou a ver, em Portugal, tantas pessoas irmanadas na mesma alegria, como naquele Dia do Trabalhador, no Estádio 1º. De Maio, que, até aí, tinha tido a irónica designação de Estádio da FNAT (Federação Nacional para a Alegria no Trabalho).

    A multidão foi calculada em mais de um milhão de pessoas, dentro do Estádio, cuja entrada, na Avenida Rio de Janeiro, foi estreita demais para o ingresso de tanta gente, pelo que demorou um bom tempo, até que ficasse totalmente cheio.

    Na tribuna, além de óbvios representantes dos três ramos das Forças Armadas, a quem devêramos a Liberdade, figuravam dirigentes dos Partidos que mais tinham lutado e sofrido na luta contra a ditadura, designadamente do Partido Comunista Português, assim como do Partido Socialista, além de muitos outros democratas.

    Vários discursos iriam ser ouvidos, porém, a principal expectativa centrava-se nas alocuções de Mário Soares e, especialmente, de Álvaro Cunhal.

    Claro que o dia era, primeiro que tudo, de festa pela libertação e não para cotejar diferentes visões ideológicas, entre os dois partidos, PS e PCP, como, mais tarde – não muito tempo depois –, haveria de ocorrer e de um modo em que as águas foram bem separadas, aquando da definição dos objectivos e tipo de sociedade a perseguir.

    Estávamos perante dois grandes políticos com personalidades muito fortes e definições muito vincadas.

    Mário Soares bebeu um profundo sentimento republicano de seu pai, João Lopes Soares, um grande pedagogo e professor, que foi, igualmente, ministro, na primeira República.
    Na sua condição de advogado, jamais virou a cara a defender, nos tribunais plenários, principalmente, no Tribunal da Boa Hora, junto à Rua Nova do Almada, os réus políticos do regime, designadamente, os lutadores comunistas pela cauda da liberdade.
    Conheceu, também ele, o travo da prisão do regime.
    Não atingia o nível intelectual de Álvaro Cunhal, sendo, contudo, dotado de grande sagacidade.

    Álvaro Cunhal era uma personalidade muito diferente.
    Como lutador por excelência que sempre foi, numa vida totalmente dedicada à causa em que acreditava, como modelo de sociedade, foi muito mais penalizado pela perseguição da polícia política do que Mário Soares, nos imundos cárceres da PIDE.
    Homem de uma inteligência fulgurante, era dotado, igualmente, de uma energia anímica invulgar.
    Àparte a rudeza da vida de confronto que escolheu, existia nele uma notável sensibilidade artística.

    O pico alto da festa do primeiro 1º. de Maio teve, pois, como protagonistas estas duas personagens muito fortes da nossa vida política de então, em cujas entrelinhas de discursos foram, desde logo, óbvias e bem marcadas as diferenças, que haveriam de ser consubstanciadas, pouco tempo depois, nas ruas e nas vidas dos portugueses, pelo período, que ficou conhecido para a história, como o PREC (Período Revolucionário em Curso).

    Atendo-nos somente ao dia que todos lá festejámos, interessa-nos, principalmente, reter e sublinhar esses momentos únicos de alegria e júbilo por sermos livres, que jamais perecerão, enquanto não passarmos para o outro lado do espelho, como sói dizer-se …

    Não poderia deixar de lamentar, ao terminar, a escassez de Homens como conhecemos, no passado próximo e mais ou menos distante, que vão sendo substituidos por sucedâneos, cada vez mais medíocres e / ou oportunistas, como os que vão perpassando, frente aos nossos olhos, nos dias que correm.

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