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De “feira” a “mostra” a laranja é rainha em Silves – Parte I

Exposição «De “feira” a “mostra”, a laranja é rainha em Silves – Parte I»

 

Em Silves, no edifício da Câmara, encontra-se patente, até ao final do mês de fevereiro a Exposição do Arquivo Municipal com o tema «De “feira” a “mostra”, a laranja é rainha em Silves – Parte I»
O Terra Ruiva colabora com esta iniciativa do Arquivo Municipal publicando uma versão resumida do texto da exposição. A versão integral, com o texto e as imagens, está disponível aqui:De feira a mostra -1ª parte

 

De “feira” a “mostra”, a laranja é rainha em Silves – Parte I

 

Desde há alguns anos que Silves, no mês de fevereiro, dá destaque à laranja reconhecendo a vocação do concelho para a citricultura.

O Algarve é a região rainha da produção da laranja em Portugal. Silves, com uma área estimada de 5500 a 6000 hectares de citrinos, ou seja 40% da área de produção regional e cerca de 2200 agricultores, é a sua capital.

A laranja é um fruto originário da Ásia. Os romanos foram, provavelmente, os primeiros europeus a contactar com este fruto, durante século I, através das trocas comerciais efetuadas com mercadores persas e o reino Aksum (atual Etiópia). Considerada como um produto de luxo, tornou-se popular entre a classe nobre e militares, sendo inicialmente amargas e cultivadas para fins medicinais.

Os primeiros pomares surgem a partir do séc. I localizados no Norte de África, da Líbia a Marrocos, propriedade de cidadãos romanos. Com a queda do Império Romano e surgimento do Califado Islâmico, abandonam-se as rotas comerciais antes usadas e numerosos pomares do Império, localizados no continente europeu, acabam por cair no abandono. Os anos dourados do Califado Islâmico do Norte de África e Sul Peninsular, por volta do séc. XI, viram o regresso da laranja à Europa, já que sementes trazidas da Pérsia permitiram a formação de pomares na Península Ibérica. A laranja denominada “sevilha” foi uma nova variedade introduzida na região, muito utilizada na produção de licores, compotas e perfumes.

A laranja doce, ao contrário da amarga, foi introduzida no Ocidente, no séc. XVI, por mercadores portugueses, no tempo das descobertas marítimas, que a trouxeram da Índia. A sua cultura espalhou-se rapidamente, introduzindo-se em pomares por toda a Europa do Sul. A nossa influência foi de tal forma importante que em alguns países, especialmente nos Balcãs, a laranja continua a ser denominada pelo nome de “Portugal”.

A citricultura desenvolveu-se no concelho de Silves devido às aptidões do solo, mas foi a construção da barragem do Arade, inaugurada a 28 de maio de 1956, juntamente com o perímetro de rega de Silves, Lagoa e Portimão e a abertura de furos artesanais, que permitiram o cultivo em áreas até então exclusivamente de sequeiro em regadio, beneficiando os pomares de citrinos de um grande impulso.

No concelho, as favoráveis condições climáticas para a sua cultura, refletidas na qualidade da fruta e na produtividade dos pomares, têm sido decisivos para a evolução verificada, de tal modo que as laranjas crescem em vastos pomares, onde o sol, o solo e o clima as transformam num produto único e com qualidades difíceis de igualar, associadas à doçura, quantidade de sumo e delicadeza de aromas excecionais, atestando Silves como a “Capital da Laranja”.

Nesta sequência, entre os dias de 6 a 10 de fevereiro de 1985 realizou-se a I Feira Nacional de Citricultura, também denominada por “Festa da Laranja”. Uma organização da Câmara Municipal de Silves que contou com o patrocínio da Região de Turismo do Algarve e colaboração da Direção Regional do Algarve.

A primeira edição, com o presidente José Viseu

Segundo o presidente da autarquia, José Viseu, o certame tinha em vista uma ação de sensibilização pedagógica junto dos citricultores, não se restringindo apenas a uma mostra de produtos e equipamentos, mas facilitava a promoção, junto do grande público consumidor, dos produtos citrícolas da região, mostrando a alta qualidade dos mesmos e promovendo uma animação cultural e turística.

A feira realizou-se numa área coberta e uma outra descoberta, tendo sido colocado um grande pavilhão de lona, tenda alugada ao Circo Cardinali, para servir de auditório. A área coberta realizou-se no pavilhão gimnodesportivo do Silves Futebol Clube. A atual zona ribeirinha, abrigou o equipamento e os produtos que podiam ser expostos ao tempo.

Durante os cinco dias dedicados ao agricultor, à água, à juventude, à produção e à Europa, os citricultores puderam contactar com mercados desconhecidos e aprenderam novas técnicas de produção e tratamento do fruto, como na industrialização do produto e sua comercialização. A Escola Hoteleira do Algarve fez uma campanha de promoção, demonstrando como a laranja podia ser utilizada. Além dos colóquios, houve animação a cargo de atuação de bandas musicais, de ranchos folclóricos, artistas de variedades, peças de teatro e dança.

Quanto a transações, e segundo o jornal Barlavento, mais não se vendeu porque não havia, tendo sido efetuados contactos internacionais e o resultado final foi um êxito, estando a Câmara de Silves de parabéns .

Na II Feira Nacional de Citricultura, que decorreu de 19 a 23 de fevereiro de 1986, estiveram presentes mais de meia centena de expositores, havendo a particularidade de, ao contrário do ano passado, terem sido vendidas laranjas durante o certame.

A Feira, que decorreu nos mesmos moldes e espaços utilizados em 1985, contou com a presença de mais de 40 mil pessoas.

A III Feira Nacional de Citricultura – Festa da Laranja aconteceu entre 26 de fevereiro e 1 de março de 1987, passando para as instalações da “Alicoop”, onde hoje se encontra a Biblioteca Municipal de Silves, sendo o primeiro andar utilizado para parte de espetáculos e colóquios. O amplo terreno fronteiro foi aproveitado para exposição de maquinaria e esteve presente um mini zoo, onde podiam ser vistos animais da nossa fauna, como o javali, o veado, a águia, a perdiz e a lebre.

Para além da animação habitual, no último dia houve uma demonstração pelo Centro Hípico de Silves, a que se seguiu uma gincana com tratores agrícolas, prova inédita no Algarve. Mais de duas toneladas de laranjas algarvias foram vendidas ao público durante os quatro dias do certame, visitado por cerca de 20 mil pessoas e que contou com a presença de setenta expositores.

Na reunião camarária de 26 de janeiro de 1988 o presidente da edilidade silvense, agora José António Correia Viola, propôs “que este ano não se faça [a feira] pois é preferível essa situação do que fazê-la sem condições” , devido à ausência de espaço apropriado para a sua realização. Encetando diligências nesse sentido.

De 2 a 5 de março de 1989 teve lugar no novo Pavilhão Internacional de Feiras e Congressos, conhecido como FISSUL, a IV Feira Nacional de Citricultura – Festa da Laranja, que até então ocorria em instalações provisórias. Dois fatores conferiram um alto interesse nesta iniciativa: a entrada em funcionamento, da 1ª fase, daquele complexo erigido pelo município silvense e a importância dos citrinos na economia do Algarve, considerando as suas qualidades e as insuficiências, nomeadamente no que dizia respeito à normalização e ao acondicionamento, que eram colocados em prática nos outros países da comunidade europeia.

A V Feira Nacional de Citricultura decorreu entre 8 e 11 de março de 1990 e embora os citrinos neste ano tenham sido poucos o certame seguiu os parâmetros dos anos anteriores. A novidade foi a participação da Associação dos Artesãos do Algarve.

De 27 de fevereiro a 3 de março de 1991 decorreu a VI Feira Nacional de CitriculturaFesta da Laranja que contou com a presença de 70 pavilhões de exposição, representando oitos setores agrícolas: mecanização, frutos e comercialização, hortifruticultura, plantas, rega, agroquímicas e sementes, vinhos e florestas. O principal objetivo da organização consistiu na transformação da Feira numa iniciativa mais ampla, tornando este certame numa Feira Agrícola do Algarve.

Em 1993 realizou-se, em simultâneo, a VII Feira Nacional de Citricultura, de 20 a 24 de janeiro, e o I Congresso de Citricultura, de 20 a 22 de janeiro.

O Ministro da Agricultura inaugurou a VII Feira Nacional de Citricultura, com o presidente da Câmara de Silves, Francisco Matos, in jornal “Postal do Algarve”, de 27 de janeiro de 1993

Para o Diretor da VII Feira, o vereador João José Ferreira, este acontecimento teve como objetivos estabelecer um debate nacional sobre a problemática quanto ao futuro da citricultura, congregando todo o conhecimento disponível por forma a melhor informar e elucidar os produtores. Para o Presidente da Câmara Municipal, Francisco Matos, a realização do I Congresso de Citricultura representou o culminar de toda uma situação resultante das seis feiras, surgindo como grande plataforma de debate das questões e problemas ligados a esta questão. O Congresso contou com a participação de cerca de quinhentos produtores que defenderam o imediato lançamento de um Programa Nacional de Produção Integrada que assegurasse a viabilização da cultura de citrinos e a melhoria dos circuitos de comercialização, que se encontra em desvantagem face à concorrência estrangeira, sobretudo espanhola.

Durante os dias da feira a Câmara Municipal realizou um concurso para eleição da “Rainha da Laranja”, que passou a promover, com a sua imagem e presença, os citrinos da Região algarvia.

O Ministro da Agricultura inaugurou a VII Feira Nacional de Citricultura e afirmou no I Congresso que “apesar do sector estar a viver uma situação difícil existem razões para acreditar em melhores dias”, in jornal “Postal do Algarve”, de 27 de janeiro de 1993.

De 22 a 26 de fevereiro de 1995 decorreu a VIII Feira Nacional de Citricultura. O certame contou com diversas ações pedagógicas, colóquios e seminário, bem como animação e recreação,  gincana de tratores, provas de BTT, raid hípico, prova de para o perdigueiro português, demonstração de caçar com falcão, concurso da melhor laranja.

Contrariamente a certames anteriores cuja data reportava a fevereiro, a IX Feira Nacional de Citricultura decorreu entre os dias 28 de novembro e 1 de dezembro de 1996, coincidindo com o início da Campanha da Laranja, facto que, segundo a edilidade silvense “produzirá só por si um impacte positivo na sua vitalidade e qualidade, na medida em que as variedades de citrinos são naturalmente maiores”.

José Viola presidente da Câmara de Silves, Cardoso Leal, Secretário de Estado da Produção Agro-Alimentar, in “Revista Portugal Agrícola”, novembro /dezembro 1996

Com 75 expositores o programa apresentou um variado leque de iniciativas aos milhares de visitantes que afluíram a Silves. Deu-se destaque a Exposição de Citrinos – Concurso da Melhor Laranja. Teve como novidade a presença de dois hotéis que prepararam sumos e cocktails à base da laranja e a existência permanente de três postos de venda de laranjas.

Ao longo destes anos é de realçar a colaboração ativa e indispensável prestada por vários organismos e entidades, como a Direção Regional de Agricultura do Algarve, Universidade do Algarve, Região de Turismo do Algarve, Instituto de Emprego e Formação Profissional, Associação de Barmen de Portugal, CEAL, NERA, CACIAL, entre outras, que permitiram o êxito verificado na promoção e defesa da imagem e potencialidades dos citrinos algarvios.

Como forma de agradecimento e reconhecimento aos apoios recebidos de entidades e personalidades a Câmara Municipal de Silves cunhou medalhas de prata e bronze alusivas às feiras que foram atribuídas a título gratuito ou então vendidas a particulares enquanto lembrança.

(continua)

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