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Incêndio de Silves, depois de arderem 10 mil hectares, na serra faz-se as contas à vida…

O pó é dourado e tem cheiro. É muito e cerca-nos, enquanto subimos ao Zebro de Cima, no coração da serra, na freguesia de Silves. Fora dos caminhos de terra, as cores são diferentes. Negro, muito negro. Aqui e além umas manchas de verde, socalcos que o fogo poupou ao acaso, árvores salvas pelo capricho do vento. Ainda mais raras, umas manchas brancas, as casas quase lambidas pelo fogo mas salvas pelas diretrizes de concentrar os esforços nas vidas humanas e habitações…

Vindo da freguesia de Silves até ao Zebro de Cima, ou da vizinha freguesia de São Bartolomeu de Messines, o cenário é o mesmo nas duas direções, quilómetros e quilómetros de área ardida, foram 11 mil hectares, dizem as fontes oficiais.
Na serra parece que anda no ar o cheiro a queimado. Cheiramos, e não sabemos se são os nossos sentidos que nos enganam, se o choque da visão da serra ardida.
Chamaram-lhe sempre “incêndio de Monchique” e ainda agora, semanas passadas da ocorrência, é como se nada se tivesse passado em Silves. Não se perderam vidas humanas, não ardeu nenhuma casa e é como se a vida pudesse prosseguir na sua normalidade.
Mas não. Por isso nos encontramos em pleno agosto, no cimo da serra, no Zebro de Cima, um pouco acima do Falacho de Cima e da Quinta Pedagógica de Silves, zonas onde se viveram alguns dos momentos mais angustiantes no decorrer do combate ao fogo.

Hélia Coelho no Zebro de Cima

No Zebro de Cima moram quatro pessoas, todas elas familiares de Hélia Coelho. A Hélia escreveu aquele que foi sem dúvida o texto mais emotivo sobre a serra de Silves, ainda o fogo andava à solta pelos montes. Divulgado nas redes sociais, o “desabafo”, como a própria o define, chegou a muitos milhares de pessoas, teve milhares de partilhas.
“Porque muita gente sentiu o mesmo que eu. Quando falamos de vida, só pensamos nas pessoas, mas há muita vida na serra para além das pessoas e essa perdeu-se toda”.
Nesta tarde, cara a cara com a destruição, é mais fácil ver do que fala a Hélia. Nem um pássaro, nem um som no restolho, nada. Um símbolo no caminho, uma cabeça de veado carbonizada, de onde ressaltam as hastes que permitem identificar aqueles restos.

No dia 7 de agosto, também os moradores daquele lugar correram um sério perigo de vida. Assim que ouviram falar do incêndio em Monchique, começaram logo a tomar precauções, com a experiência adquirida com outros fogos. Reforçaram a limpeza dos terrenos que já tinha sido feita anteriormente, prepararam as mangueiras, verificaram as condições da pequena barragem que têm. Ficaram de prevenção. Os próprios e os familiares e amigos mais próximos. Além das vidas humanas, havia que cuidar dos rebanhos e das colmeias que possuem.
Na segunda-feira, foram avisados que “vem aí uma grande frente de fogo, com uma grande força”. E aconselhados a sair de casa, o que não aconteceu, porque o fogo “ainda andava longe”. “Na terça-feira, dia 7 de agosto, não havia bombeiro nenhum” e foi então que o fogo apareceu.

Luís Brígida e Lurdes Nunes

Entre as muitas mensagens que recebi nesses dias, informando sobre o fogo ou perguntando sobre o mesmo, chegou-me uma logo pela manhã “Situação crítica em Zebro de Cima.” E a seguir “Nem um bombeiro…” Duas horas depois “já anda um helicóptero… de resto rezem por nós…”

O relato dos acontecimentos é feito por Lurdes Nunes e Luís Brígida. Há duas palavras que se destacam: “susto” e “aflição”. A casa onde residem, num vale, com os montes ao redor a arder. Sem ajudas. No monte mais acima, Celísia e Joaquim, familiares, com a mesma luta.
Salvou-os a limpeza que tinham feito nos terrenos, os trabalhos de prevenção e o conhecimento adquirido noutros incêndios. E é esse conhecimento que lhes permite fazer comparações, por exemplo, entre este incêndio e o de 2003, também de grandes proporções. E consideram que “o de 2003 foi pior, pois não havia zonas não ardidas aqui à volta e agora ainda há”, mas, por outro lado, este fogo chegou mais longe do que qualquer outro e não houve outro “que tivesse durado tanto tempo”.
“Agora, deixaram arder” – dizem Lurdes e Luís, repetindo assim o comentário mais ouvido no decorrer e após este incêndio. Contam casos, aqui e ali, e todos concordamos porque todos ouvimos relatos, de diferentes pessoas e locais que confirmam essa realidade.
“Como é que se justifica que estas populações, do Zebro, do Enxerim, do Falacho, da Pedreira estivessem estado em perigo em dois dias seguidos, como em Monchique?”, questiona Hélia Coelho.
Entre nós, falamos do “grande negócio do fogo”. Muitos ganham milhares e “quem paga são os pequenos”. Assuntos de que todo o país fala, mas que são muito difíceis de provar…
Comentamos também as ordens dadas à GNR para obrigar as pessoas a abandonar as suas casas e a impotência sentida por quem que se sentia em condições de lutar para salvar os seus bens… sendo que muitas, ao voltar, só encontraram restos carbonizados nas suas terras. “Obrigam a sair mas não se responsabilizam pelo prejuízo”, como diz Luís Brígida.

E a outra vida?

A serra de Silves

Salvaram-se as pessoas, salvaram-se as casas. Não obstante todas as objeções, todas as imperfeições e falhas no sistema, o principal conseguimos salvar, pelo menos aqui no nosso concelho.
É verdade. E há muito por agradecer, a muitas pessoas que se esforçaram verdadeiramente por combater o fogo, ajudar as populações, fazer o seu melhor.
Mas agora, no rescaldo do fogo além daquela sensação de que ainda há muito por corrigir no que concerne à estratégia e comando do combate ao fogo, está por resolver o quotidiano dos que vivem na e da serra.
Ao Zebro de Cima já chegou uma ajuda: palha e ração para os rebanhos que ficaram sem pastagens, entregues pela Direção Regional de Agricultura e pela Câmara Municipal de Silves.
De resto, os moradores não sabem de mais nada. Ninguém os procurou, à exceção do presidente da Junta de Silves, Tito Coelho, que por lá passou, perguntando se precisavam de alguma coisa.
Mas ninguém os pode ajudar com aquilo que perderam. Nos tempos mais próximos, Celísia e Joaquim, que não encontramos em casa, terão de procurar novos pastos para os rebanhos. O que não será tarefa fácil. Também se perderam os pinheiros e medronheiros de Lurdes, bem como algumas colmeias do filho. Portanto, nos anos mais próximos não se produzirá aqui medronho. E as colmeias que foram salvas terão de ficar instaladas noutros locais até à regeneração da serra. Atividades que ficam prejudicadas, atividades que talvez se percam. Não por aqui, com estes quatro resistentes do Zebro de Cima. A sua vontade é de continuar neste canto da serra.

 

E continuarão. Talvez à noite se juntem em volta da televisão e oiçam nas notícias que existem muitos milhões para recuperação da serra, do turismo de Monchique, das atividades económicas. Talvez sintam que tudo isso pouco lhes diz respeito, comungando um sentimento que se tem visto por todo o país, quando o fogo destrói o sistema de vida de pessoas simples que vivem arredadas de termos como “candidaturas”, “comprovativos”, “execução”, “subsídios”.

Talvez. Penso nestas coisas, ainda com o negro da serra a causar-me mais revolta do que horror. É ainda agosto, quente. Não se escutam animais, não se ouve barulho das árvores. Negro, castanho, cinzento.
E pessoas de sorriso franco que acolhem esta visita que lhes apareceu inesperadamente no monte. Apetece dizer mais qualquer coisa, além das previsíveis nestas ocasiões.

Mas vou buscar uma conclusão às palavras de Hélia Coelho. “Agora toda a gente se vai reerguer com o seu trabalho e o seu esforço como sempre foi”.

 

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