Home / Sociedade / Ambiente & Ciência / Quem nos protege lá da serra

Quem nos protege lá da serra

Em 2003, o fogo avançou descontrolado sobre Silves, rondando as muralhas do Castelo e assustando a cidade que encontrava totalmente desprotegida. Este foi o último grande incêndio junto à cidade, mas em anos recentes as freguesias de Silves, São Bartolomeu de Messines e São Marcos da Serra têm ardido constantemente. No verão passado, o Algarve “não ardeu”, pelo que este ano os concelhos algarvios com grandes áreas serranas surgem referenciados como estando em “risco máximo de incêndio”.

Contra esta espécie de fatalidade que todos os anos atinge o país, a autarquia de Silves, em conjunto com outras entidades, tem estado a desenvolver um amplo trabalho de prevenção, por toda a serra.
O Terra Ruiva apanhou boleia na viatura do Serviço Municipal de Proteção Civil e, com Nelson Correia e Alexandre Cruz, percorreu a serra, para ver o que tem sido feito para que o fogo não chegue à nossa porta.

 

Ao volante segue Nelson Correia, comandante operacional do Serviço Municipal de Proteção Civil, no banco de trás o técnico florestal Alexandre Cruz que gentilmente, a bem da saúde da coluna vertebral da jornalista, cedeu o lugar da frente.
Seguimos em direção a São Marcos da Serra, na manhã que já antecipa o calor e o pó. De monte em monte, por estradas, estradinhas, montes e escarpas iremos percorrer uma distância considerável até ao limite do concelho, já na fronteira com Ourique.
O objetivo principal é o de verificarmos o trabalho que está a ser desenvolvido para proteger do fogo, as pessoas e as propriedades.
Não é um trabalho que tenha começado agora, explica Nelson Correia. Há três anos que a Câmara de Silves tem vindo a intervir fortemente nas freguesias consideradas prioritárias, nomeadamente Silves, São Marcos da Serra e São Bartolomeu de Messines, devido à sua vasta mancha florestal, de serra e mato. Com áreas tão extensas e de difícil acesso, só uma ação prolongada e contínua pode vir a dar resultados efetivos e é por isso que os trabalhos de prevenção são feitos durante todo o ano, pelas duas equipas de sapadores florestais da Câmara e por muitos particulares a quem são dados serviços, como os de limpeza das vias e de execução das chamadas “faixas de gestão de combustíveis”.
Estas faixas, de 26 metros, são feitas junto às habitações, redes viária, ferroviária e elétrica e outros equipamentos, através da limpeza da vegetação e das árvores, de forma a criar espaços de proteção que ao mesmo tempo impedem ou dificultam a propagação do fogo. É um trabalho que é feito em grande parte pela autarquia em articulação com proprietários de habitações e de terrenos, e com as entidades com presença no território como a REN, Águas do Algarve, EDP, Infraestruturas de Portugal, Associação Viver Serra, ICNF e ainda os municípios vizinhos.
A autarquia tem investido especialmente na execução de “faixas de gestão de combustíveis” na freguesia de Silves, criando um semi-anel contínuo em redor da cidade, que passa pelo Enxerim, Monte Branco, Caniné e Caixa d ‘Água. A estes, soma-se a intervenção, realizada já este ano, em Odelouca, Vale de Lama e Falacho, constituindo mais de 110 hectares de gestão de combustíveis.
Desde 2014, conta-se também com a ajuda do Exército Português, o que já permitiu a criação de uma “área estratégica de oportunidade de combate a fogos florestais” que se estende da Barragem do Arade a Odelouca, e a abertura de um grande número de caminhos, entre outros trabalhos.
Também este ano, em virtude da autarquia ter apresentado candidaturas que foram aprovadas pelo Fundo Florestal Permanente, foram executadas e estão em fase de implementação cinco importantes faixas de interrupção de combustível (FIC), que se estendem por cerca de 65 km, (150 hectares), fazendo a ligação com os municípios de Ourique, Odemira, Almodôvar e Monchique e a inter-ligação entre as freguesias. Destacam-se os troços Fitos/Vale Touriz/Benafátima, Azilheira/Santa Maria/ IC1 e ainda Monte e Azilheira/Perna Seca/IC1.

Na serra, junto a Ourique

E é no cimo da serra, junto à fronteira com Ourique, que é possível ver, até onde a vista alcança, estas faixas que se destacam pela cor castanha, por entre o verde do mato e das estevas.
Destacam-se as FIC que nalguns locais têm mais de 100 metros de largura, mas também são visíveis as linhas, que são as vias abertas e limpas de arvoredo e de vegetação que o Município quer garantir que se mantém seguras e transitáveis.

As FIC visíveis na serra

Neste momento, o Município de Silves “é o único no Algarve” a fazer este trabalho, em virtude das candidaturas que apresentou e nalguns locais, por questões de segurança, tem estendido os seus trabalhos a zonas da responsabilidade de outros municípios… conta Nelson Correia.
Nestes caminhos, vamos encontrando equipas de trabalho, ou homens isolados, trabalhando com maquinaria diversa. Muitos são contratados pela Câmara de Silves, alguns por outras entidades, todas estas pressionadas pela urgência do trabalho. Já estamos no período crítico dos incêndios, embora o tempo mais fresco até agora tenha sido um aliado. Mas só temporariamente. Toda a vegetação abundante e verde que a chuva deste ano trouxe aos montes, será dentro em breve uma das grandes aliadas do fogo, quando se transformar em pasto seco.

A limpeza das vias para as manter seguras e transitáveis é uma prioridade

Nos terrenos, encontramos outras zonas desbastadas de árvores e de vegetação, são os chamados mosaicos, áreas que poderão servir também para posicionar os meios de combate ao fogo, além da prevenção.
Neste trabalho de criação de faixas e de mosaicos, torna-se importante não só a colaboração com as outras entidades que se encontram no terreno e com os proprietários, mas também o “bom senso”, sublinha Nelson Correia, que lembra como tantas pessoas ficaram assustadas com a informação mal transmitida de que teriam de cortar tudo num perímetro de 50 metros ao redor das habitações. Assim, os técnicos da autarquia trabalham também junto das populações, informando e aconselhando. É necessário ver caso a caso. Num local será preciso cortar árvores, num outro apenas desbastar para que não fiquem próximas. No meio de uma faixa, salienta-se a presença de um medronheiro que não foi cortado. “Está ali isolado, não tem perigo nenhum, não íamos cortar uma fonte de rendimento do proprietário”, exemplifica Nelson Correia.
A preocupação com a população e com a sua participação neste processo é feita também a outro nível, o da sua integração económica, como explica Alexandre Cruz. A maioria dos trabalhadores que encontramos na limpeza das vias são pessoas residentes no concelho e em particular nas freguesias onde decorrem os trabalhos. É a eles que a autarquia e os bombeiros recorrem quando precisam de ajuda, principalmente aos proprietários das máquinas de arrasto, que muitas vezes são decisivas nas operações de extinção dos incêndios. “Podemos sempre contar com eles”, diz Nelson Correia, “por isso é a eles que chamamos para estes trabalhos de prevenção”.
Paulo Sequeira é um desses homens, que encontramos a trabalhar à beira da estrada e com quem trocamos breves palavras. Já trabalhou na construção civil mas a maior parte da sua vida foi passada neste tipo de trabalho florestal. Um trabalho “duro”, e que às vezes também requer alguns truques… É o comandante municipal que chama a atenção para as variadas máquinas que vamos encontrando no caminho: máquinas utilizadas na construção civil que os proprietários foram adaptando, conforme o trabalho e o lugar, dando largas à imaginação e respondendo às necessidades…

Paulo Sequeira, Nelson Correia e Alexandre Cruz (da esquerda para a direita)

De Ourique a Silves

A segunda parte da nossa reportagem centra-se nas traseiras da cidade de Silves, a norte da cidade. Já deixamos para trás uma grande parte da serra do concelho, passamos pela aldeia de São Marcos da Serra onde são visíveis os resultados do trabalho nas encostas e junto à Ribeira de Odelouca, e percorremos muitos quilómetros pela Estrada Municipal 502, num percurso adequado a amantes de todo-o-terreno.
Com Silves à vista é então que se recorda o grande incêndio de 2003. Um incêndio que ameaçou a cidade porque não enfrentou medidas preventivas de defesa. Agora, é visível o trabalho que tem sido feito, no já referido cordão de defesa. Junto às habitações nota-se também o esforço de limpeza e a existência de “uma faixa de proteção à cidade, toda limpa, pode onde os carros possam circular”.
É por aqui que surgiu a maioria dos focos de incêndio no ano passado, quase todos eles com origem suspeita, pelo que se tornam prioritárias as ações de vigília e de patrulhamento. Esse trabalho é feito por diversas entidades. Por esta serra passam as patrulhas da GNR a cavalo, os militares que se encontram sedeados na Quinta Pedagógica, em Silves, e os sapadores da Câmara Municipal de Silves. A autarquia dispõe de duas equipas de sapadores florestais, compostas por 12 homens e 3 viaturas que, além das patrulhas, asseguram também a vigilância nas torres de vigia. Em caso de incêndio, compete-lhes não só dar o alerta mas também deslocarem-se ao local para o combate inicial ao fogo.
É de realçar ainda a presença de uma equipa especializada no combate ao fogo florestal, sedeada no antigo quartel em São Marcos da Serra.

A torre de vigia de São Bom Homem, em Silves, vendo de Armação de Pêra a São Marcos da Serra

Todo este dispositivo é suportado financeiramente pela Câmara Municipal de Silves que tem aqui um encargo significativo. Ainda assim, o que todos desejam é que todos estes homens “não tenham nada para fazer estes meses”… é o que comentámos, ao vento, no cimo do serro onde se encontra o posto de vigia em Silves, no São Bom Homem.
Aqui, absorvendo a tranquilidade do local e olhando para o mar azul de Armação de Pêra, a contrastar com os quilómetros de verde e castanho que se estendem pelo outro lado, é difícil pensar em fogo e perigo. E destruição. Mas não muito longe, ainda há árvores queimadas, a lembrar o maior incêndio do ano passado, junto a Odelouca… Uma das 55 ocorrências registadas nesse período…

Base alternativa da Proteção Civil

Mas se lá em cima as árvores queimadas serviam de aviso, em contrapartida, a posterior passagem pelo local da antiga lixeira, demonstra que é possível inverter as situações. Aqui, neste local improvável, são milhares as pequenas árvores que lutam para se impor. Uma colaboração que teve como principais parceiros a Câmara de Silves e o Zoomarine e que, com a ajuda de trabalho de voluntários, está a permitir a reflorestação da Herdade de São Bom Homem.

No trabalho de reflorestação da Herdade de São Bom Homem, já são visíveis as pequenas árvores

De regresso à cidade, faz-se um desvio para a outra margem do Arade, para conhecer a Base Alternativa da Proteção Civil. O nome pode ainda ser temporário, mas o objetivo da sua instalação é claro: no caso de uma catástrofe, como um sismo, que afete o edifício da Câmara Municipal, será aqui que se concentrarão os meios da proteção civil.

A nova base do Serviço Municipal de Proteção Civil

 

Localizada nos terrenos conhecidos como “os Armazéns Mourinho”, perto de Silves, é constituída por dois pavilhões pré-fabricados, que oferecem agora as condições de trabalho que os sapadores não tinham, como um local para tomar banho e trocar de roupa quando chegam da serra. É também aqui que se guarda uma grande parte do material e vestuário especializado que a Proteção Civil Municipal dispõe. Como a farda que Nelson Correia veste e que “não arde” quando atingida pelo fogo, o que constituiu uma proteção adicional para os técnicos da autarquia que em caso de incêndio vão também para o terreno.
“Compete-nos a nós dar todo o apoio, a orientação logística, o apoio com a cartografia, e com as equipas de sapadores que fazem o reconhecimento do terreno, apoio mecânico e ao combate ao fogo com as máquinas de arrasto, é também a Câmara que paga o combustível, a alimentação, tudo o que é necessário”, explica Nelson Correia.
De uma forma sucinta, a Proteção Civil Municipal trabalha em três tempos distintos: na prevenção, que é durante todo o ano; nas ocorrências, dando apoio às operações, às entidades que estão no terreno e à população, protegendo e auxiliando os eventuais desalojados, com apoio psicológico e social. Compete-lhe agir a seguir, no chamado tempo de recuperação.
Neste trabalho complexo, de grande responsabilidade, há alguns pormenores que fazem toda a diferença É o caso da Câmara providenciar “meias e cuecas novas” às equipas de bombeiros que estão no terreno. Pode parecer pouco importante mas não para quem está no terreno, no calor, por vezes vários dias seguidos.
Para todo este trabalho, a autarquia conta com as duas já referidas equipas de sapadores florestais e com quatro técnicos. A formação de mais uma equipa de sapadores, que se possa fixar na freguesia de S. Bartolomeu de Messines, é um dos objetivos a concretizar.

O Serviço Municipal de Proteção Civil, técnicos e sapadores e a presidente da Câmara

Tudo pode correr mal

No dia da reportagem está calma a serra. Quase não se vê ninguém, apesar de existirem muitas casas ocupadas, como o serviço de Proteção Civil confirmou no levantamento que fez este ano. Uma a uma, com a colaboração de elementos da SEPNA, deslocou-se a todas as casas que encontrou na serra e agora existe um mapa que assinala não só onde se encontram as habitações mas também quais se encontram ocupadas, permanentemente ou só por alguns períodos, e ainda o número de residentes. Em caso de perigo, este mapa irá facilitar imenso o trabalho dos bombeiros e das forças de socorro. “Mas ainda há casos em que pode acontecer alguma coisa, pois encontramos estrangeiros a viver em tendas ou em roulottes que muitas vezes estão escondidos, não se sabe que lá estão”, afirma Nelson Correia.
Mas, a acontecer, não será por falta de cuidado e de empenho do Serviço Municipal de Proteção Civil e dos responsáveis da Câmara de Silves. Em dezembro do ano passado foi aprovado o novo Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios e “a presidente tem dado resposta a todas as necessidades que temos apresentado”, diz Nelson Correia.
Dirigir o serviço de proteção civil num concelho como Silves não é uma tarefa das mais fáceis. Silves, lembra este responsável, “sofre” de todos os riscos: de incêndio, devido à grande mancha de serra; tem um elevado risco sísmico, testemunhado pela história passada; tem elevado risco de cheias e inundações, com três grandes barragens no seu território; e tem ainda os riscos associados à faixa de costa.
Não falta nada, neste concelho da serra ao mar, podíamos dizer…. Mas, de momento, a grande preocupação da Proteção Civil volta-se para o risco imediato, dos fogos. Não há férias neste período, os técnicos, os sapadores e todos os que colaboram nesta luta estão contactáveis todo o tempo.
Principalmente desde o ano passado, em que o país viu que as tragédias podem ocorrer em poucos minutos, todos sabem como é o fogo e como pode mudar num instante, à mercê do vento e das condições atmosféricas. “Fazemos tudo o que podemos, mas correr mal, pode sempre correr mal”, reconhece Nelson Correia.

No ano passado, ao terminar o verão, Silves respirou de alívio. Este ano, confirma-se no terreno que houve um grande trabalho na prevenção e minimização de riscos. Por todo o país, incluindo no Algarve, foram reforçados os meios de combate ao fogo. O que é possível controlar parece estar controlado. Só no final da “época crítica dos incêndios” se saberá como correu.

Veja Também

Aberto concurso para Área de Autocaravanas em São Marcos da Serra

São Marcos da Serra irá dispor de uma Área de Autocaravanas, com 22 lugares. Além …

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *