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Relato da cidade sitiada – Silves 1189 (II Parte)

Relato da cidade sitiada – Páginas que relatam o cerco à cidade, até à sua queda, a 3 de setembro de 1189.

Reconstituição hipotética de Silves após a conquista cristã, tal como ela foi descrita pelo cruzado que participou na sua conquista, em 1189

 

II PARTE

 

Quase setembro– O medo apossou-se da cidade. Teimam ainda os nossos, tentando adiar o inevitável. Ouvi relatos. De soldados que chegam a beber o sangue de animais. As nossas hortas secaram e há agora escassez de alimentos. No mercado uma tâmara custa uma fortuna. Por toda a parte há velhos sem turbante, cabeça rapada em sinal de luto. O que será de nós? As lágrimas são agora a nossa arma, mas o nosso coração ainda ateia o fogo da guerra.

III

3 de setembro de 1189– Que sejam breves os meus dias nesta terra para que possa esquecer para sempre o que vi neste dia de horror e de desgraça para o povo de Alá.

4 de setembro– Estou agora escondido num buraco, fora das muralhas da cidade. Não sei como aqui cheguei, alguém me terá trazido? Já não existe a orgulhosa Xelb, nem sei dos meus quantos terão sobrevivido. Ontem – dia maldito que a história não repita jamais, os cruzados conseguiram finalmente vencer-nos. Oh, não fora a sede que nos secava as entranhas, o cansaço que nos minava a alma… Mas já nada podíamos fazer, cercados há seis semanas e três dias, dias de moléstias, fomes e sedes… Malditos! Malditos! Malditos para todo o sempre! Filhos da mentira e do ódio, discípulos da traição. Só o ódio que sinto me anima a escrever ainda estas linhas. Para que se saiba que a traição mora na boca destes homens, que o seu coração só abriga a escuridão. Jamais esquecerei a imagem daqueles guerreiros louros, cobertos de armaduras, estrangeiros esquecidos da honra, de sabres em riste, degolando. Esquecidos da lealdade que deviam ao rei português, a quem prometeram ajudar e obedecer. Oh, não prometera o rei todo o despojo da cidade a esses guerreiros, dizendo que as vidas deviam ser poupadas? Mas há poucas horas que os gritos das mulheres e das crianças foram fraquejando… e só se ouvem as vozes desafinadas de grupos de pilhagem já embriagados. Aqui escondido como um animal, despojado de tudo o que fui e de tudo o que já não serei, interrogo-me quantos terão sobrevivido, das mais de 15 mil pessoas que aqui viviam? Quem terão poupado esses homens que temiam os nossos guerreiros e desprezam a nossa cultura?

Setembro– Não sei o dia. Nem se é de dia. Encontrei companheiros de infortúnio, procurámos outro refúgio, esperamos a hora propícia para tentar partir. Escrevo as minhas últimas palavras neste mundo que acabou. Sei agora que os cruzados, esses guerreiros que lutam pela fé, partiram logo depois da conquista da cidade, deixando o rei português, a quem chamam Sancho I, furioso com as atitudes que tomaram, bem pouco dignas da religião que professam. Destruíram tudo o que puderam, mataram todos os que encontraram, carregaram consigo nos navios tudo o que lhes foi possível. Para o rei, que pretendia apenas conquistar a cidade e não destrui-la, terá sido de mais. Acordáramos na rendição, que iríamos de vida salva e que prometíamos deixar a cidade intacta e todos os nossos bens… Mas nada respeitaram. E agora nem nada nem ninguém poderá levantar a amargura que nos cobre, a vergonha que sobre nós se abateu.
Choremos! Saiba eu aceitar a vontade de Deus que determina a consumação das coisas.

“Se visses os teus cavaleiros por terra sob as patas dos cavalos, os teus palácios submetidos à pilhagem, as tuas damas vendidas, nos bairros da cidade, e compradas apenas por um dinar, tirando, ainda por cima, do teu próprio dinheiro!”

 

 

Texto: Paula Bravo

Nota: Os acontecimentos relatados neste diário são baseados nas obras: “A cidade de Silves num itinerário naval do século XII por um cruzado anónimo”: Fac-simile da edição de João Baptista de Silva Lopes, com um estudo de Manuel Cadafaz de Matos, editada em parceria pelo CEHLE e Câmara Municipal de Silves; na “História de Portugal”, direção de José Mattoso, editada pelo Círculo de Leitores; e “As cruzadas vistas pelos árabes”, de Amin Maalouf, edição da Difel.

Nota 2– Conquista definitiva
A tomada de Silves a 3 de setembro de 1189 não representou a conquista definitiva da cidade. Dois anos depois, em 1191, os mouros conseguem recuperar a cidade. Mas da esplendorosa Silves pouco restava. A destruição causada pelos cruzados deixara profundas marcas na cidade e na população.
Depois da morte de D. Sancho II, sobe ao trono o seu irmão Afonso III. O novo monarca preocupa-se em empreender uma campanha contra os muçulmanos que afaste definitivamente este perigo. Em 1249 inicia a sua campanha. O Algarve é definitivamente conquistado.

Nota 3– Estes textos foram publicados pela primeira vez no Terra Ruiva na edição nº 3, nº 4 e nº 5, de julho, agosto e setembro de 2000, respetivamente.

Imagens: Do livro “A históriade Sives em BD”, de José Garcês, editado pela Câmara Municipal de Silves em dezembro de 2016.

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