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História & PatrimónioSociedade

A Escola Industrial e Comercial de Silves – Mudança para a Rua João de Deus

Terra Ruiva
Última Atualização: 2017/Fev/Qui
Terra Ruiva
9 anos atrás
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Em Silves, no edifício da Câmara, encontra-se patente, até ao final do mês de fevereiro, a Exposição do Arquivo Municipal com o tema “A Escola Industrial e Comercial – Mudança de Instalações para a Rua João de Deus” .
A exposição é acompanhada de imagens e documentos.
O Terra Ruiva colabora com esta iniciativa do Arquivo Municipal publicando uma versão resumida do texto da exposição. A versão integral está disponível aqui: Exposição DM_fevereiro

A Escola Industrial e Comercial
Mudança de instalações para a Rua João de Deus

Filha dos ideais da 1ª República, a Escola Industrial e Comercial João de Deus foi criada a 23 de setembro de 1919, e inaugurada a 5 de outubro de 1920. Reconhecida como um importantíssimo melhoramento para a cidade, tem possibilitado o aperfeiçoamento moral e intelectual de diferentes gerações.
Inicialmente instalada no edifício do gaveto da Rua Cândido dos Reis e Rua Latino Coelho, com a designação de Escola Elementar de Comércio e Indústria “João de Deus”, ministrava um Curso Comercial e três Cursos Industriais de carpintaria e marcenaria, de serralharia e de lavores.
Como o edifício não tinha espaço suficiente para as oficinas as aulas decorriam num armazém na Rua Latino Coelho e Rua Cruz de Portugal. Mais tarde, a Câmara Municipal arrendou um armazém na Rua Francisco Gomes Pablos para a instalação da oficina de serralharia.
No final do segundo ano lectivo, de 1921/1922, a Escola apresentou bons aproveitamentos e contabilizou uma grande frequência. Durante o mês de julho, foi feita uma exposição dos trabalhos escolares dos alunos em desenho, lavores e carpintaria. “Sam os primeiros frutos que aparecem desta bela arvore plantada nesta região”, segundo artigo publicado no jornal «Voz do Sul», de 24 de julho de 1922.

A realização de exposições passou a ser uma realidade, sendo exibido todos os anos os trabalhos feitos pelos alunos. Abertas ao público eram muito visitadas, não só pelos alunos e seus familiares, como pela população em geral.
O jornal da cidade «Voz do Sul» dava grande destaque a estas exposições, por exemplo, os trabalhos de bilros das alunas Clotilde Infante, Alzira Semião Arcanjo e Natália Cabrita e para os trabalhos a matiz de algodão perle das alunas Noémia Marques, Maria Aliete Silva Martins, Isabel Marreiros Ponte, Emília Lança, Dilara Bernardo e Alda Pimenta. A secção de carpintaria expôs 69 trabalhos, destacando-se o trabalho do aluno José dos Santos Mourinho, enquanto a secção de serralharia apresentou 37 trabalhos.

Ao final de sete anos, o edifício da Escola começou a apresentar deficiências, carecia de obras de melhoramento, e tornara-se exíguo devido ao aumento de alunos, bem como às novas necessidades pedagógicas.
Na reunião da Comissão Administrativa da Câmara de Silves, em março de 1927, sob a presidência de Aníbal Sant’Ana, foi apresentado um ofício do Diretor da Escola, Dr. José Emílio Mendonça Vila Lobos, a solicitar a cedência de novas instalações “expondo as condições de insuficiencia que oferece o atual edificio”.
Em março de 1928, a Comissão Administrativa da Câmara resolveu instalar a Escola no edifício legado por Francisco Gomes Pablos, sito na Rua João de Deus, e “encarregar os vereadores senhores Domingos Setubal e Adelino Oliveira Martins, para, com o senhor Presidente e Administrador do Concelho, tratarem junto do usufrutuário daquele predio senhor João José Gomes Pablos, da cedencia do referido prédio”.
Nos anos seguintes foram desencadeadas diversas diligências com o senhor João José Gomes Pablos e seu filho Artur Gomes Pablos, que detinha o usufruto vitalício dos bens do seu tio Francisco Gomes Pablos.
No entanto, só com a morte do usufrutuário, em janeiro de 1930, todos os bens relativos à herança passaram para a posse da Câmara e da Misericórdia. Na reunião da Comissão Administrativa, do dia 3 de fevereiro de 1930, o presidente Aníbal Sant’Ana informa que foram “liquidados e divididos os bens da referida herança, ficando tambem assente que dessa partilha, fôsse adjudicado a esta Camara o predio urbano, situado na rua João de Deus, onde faleceu o autor da herança, afim de no mesmo se instalar a Escola Industrial e Comercial “João de Deus””.

No ano letivo de 1930/31 a Escola transferiu-se para as novas instalações, no edifício onde hoje se encontra a Junta de Freguesia e demais dependências, funcionando aí até ao ano letivo de 1958/59.
Do edifício fazia parte um grande quintal que era utilizado para o recreio dos alunos.
As oficinas de Serralharia e de Eletricidade foram instaladas em amplos armazéns situados junto à Rua Francisco Gomes Pablos, tal como o ginásio. No lado oposto situava-se a oficina de carpintaria.
A nível da distribuição dos alunos, apesar de algumas turmas serem mistas, na hora do recreio havia a separação por zonas de acordo com o sexo, ou seja, enquanto os rapazes se deslocavam para o quintal as raparigas dirigiam-se para as varandas do primeiro andar.
Quatro anos depois da instalação da Escola no novo edifício, José Emílio Mendonça Vila Lobos deixa a direção da escola, assumindo o cargo, em 1934, o escultor João José Gomes, até 1947.

João José Gomes

João José Gomes, natural de Lisboa, distinguiu-se enquanto diretor criando cursos virados para o ensino noturno, facto de grande impacto no meio operário e no dos comerciantes da cidade, que deste modo puderam matricular-se na Escola, e estabeleceu a inovadora prática de contactar com os encarregados de educação sempre que se justificasse.
Enquanto professor caracterizou-se pelo modo democrático das suas aulas e pelos métodos inovadores. Passou a ser frequente, na primavera, encontrar João José Gomes e o pintor Samora Barros com os seus alunos nas margens do rio Arade, no Castelo ou pelos campos a esboçar desenhos ou a recolher material para as suas aulas.
A cidade vivia intensamente em redor da Escola, o que começava logo cedo com a chegada dos alunos, quer daqueles que se deslocavam a pé ou de bicicleta, quer daqueles que vindos das freguesias distantes ou dos concelhos limítrofes, se faziam transportar de comboio ou de camioneta. Mas, assim que o contínuo da Escola tocava a sineta todos os alunos se dirigiam para as respetivas salas de aulas e à entrada do professor todos se levantavam das suas carteiras, sentando-se depois da autorização.

 

O comércio nas redondezas também ganhava nova vida, enchendo-se com os alunos que faziam as suas compras na papelaria do Sr. Serrano, nas mercearias do Sr. Baião ou do Edmundo Pargana onde adquiriam guloseimas e bugigangas. Para as aulas de lavores e bordados podiam encontrar os produtos necessários nas várias retrosarias da cidade do Sr. Encarnação, do Sr. Sequeirinha, do Sr. Trindade e na Casa Verde do Sr. Girão.
Na loja do senhor Sequeirinha havia um espaço reservado para guardar as bicicletas daqueles que se deslocavam por esse meio, acabando muitos dos pais por delegar nele a função de encarregado de educação dos filhos.
Pelas ruas e à porta da escola ainda se podia encontrar o Sr. Chico, vendedor ambulante, que no inverno vendia as castanhas e no verão os sorvetes.
Contudo, a figura mais emblemática e popular entre os estudantes era o Zé Chana que os ia buscar à estação do caminho-de-ferro, recebendo-os sempre com grande alegria e os trazia até à cidade.

Doze anos depois da Escola estar instalada no edifício legado à Câmara por Francisco Gomes Pablos, este começou a necessitar de obras de reparação e ampliação.
Na reunião de Câmara, realizada em fevereiro de 1942, sob a presidência do Dr. Afonso Lourenço Dias da Silva, dado que a Câmara dispunha de parcos recursos que não permitiam a realização de obras foi deliberado “a transferencia para o Estado do dominio e posse do edifício” com a condição do Estado continuar a manter nele o funcionamento da Escola.
Em 1947, foi nomeado o terceiro Diretor da Escola, o Dr. Leonel Melo Furtado que exerceu o cargo somente um ano, sendo indigitado em 1949, para Diretor, o Dr. Luís Gordinho Moreira, cargo que exerceu durante cinco anos.

Luís Gordinho Moreira

Luís Gordinho Moreira nasceu em Silves em 1920 e licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Além de diretor da Escola também foi Presidente da Câmara de Silves, entre 1951 e 1955, tendo desempenhado um papel fundamental no processo que levou à criação do Curso Geral do Comércio, junto do Ministro da Educação Nacional, e à construção do novo edifício para a Escola.
Na reunião da Câmara Municipal realizada a 14 de abril de 1947, sob a presidência de Salvador Gomes Vilarinho, a autarquia “deliberou solicitar oportunamente a construção em Silves de um novo edificio para a “Escola Industrial e Comercial João de Deus”, comprometendo-se a oferecer o terreno necessário à implantação do edificio”.

O processo demorou mais de dez anos, tendo as instalações da nova Escola sido inauguradas a 19 de julho de 1959, em terreno cedido pela Câmara Municipal de Silves, no Largo da República, em frente ao Jardim Municipal.

( continua)

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