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Re/Ver a Arte Cristã em Silves

As figuras religiosas não podem ser destruídas, segundo os preceitos católicos “ou se enterravam ou se guardavam”. Em Silves, a opção para algumas delas foi a de guardar no sótão. Séculos depois, uma imagem da Nossa Senhora do Ò, uma imagem “muito rara” de Deus Pai e um antiquíssimo São Sebastião, entre outras, foram encontradas, acarinhadas e, depois de ações de conservação, devolvidas à sua essência.

“O Restauro das Esculturas da Sé de Silves” foi o tema da palestra que decorreu no dia 21 de outubro, no Salão Paroquial de Silves, com a conservadora/restauradora Ana Mascarenhas que desenvolveu todo o processo.

Ana Lídia Mascarenhas
Ana Lídia Mascarenhas

Esta foi uma iniciativa da Câmara Municipal de Silves e da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, integrada nas comemorações do Dia Nacional dos Bens Culturais da Igreja, uma efeméride que “pela primeira vez “ se assinalou no concelho, como afirmou Jorge Correia, do Sector do Património da autarquia.
A intervenção inicial pertenceu ao padre Carlos Aquino, na qualidade de diretor do Secretariado Diocesano do Património Cultural da Igreja da Diocese do Algarve, e que acompanhou todo o processo relativo a estas esculturas, ainda enquanto responsável pela Paróquia de Silves. O padre Aquino, destacou a importância do trabalho realizado “com grande esforço” por “uma pequenina equipa” para que todo o património fosse restaurado e valorizado, não só como uma expressão de cultura, mas também como “um elemento portador de uma mensagem evangelizadora”.
Luís Santos, representante da Paróquia de Silves, começou por fazer o enquadramento histórico da Sé de Silves, classificada em 1922 como Monumento Nacional, o que não impediu que “em 2007/2008” visse os seus problemas de degradação tão avançados que teve de encerrar todas as naves. Em 2009, a Sé avançou para obras, com fundos conseguidos a grande custo junto de mecenas, com destaque para a Fundação Aga Khan, e é também nessa altura que foi assinado o primeiro protocolo com a Câmara de Silves e os técnicos da autarquia começam a trabalhar no acervo arquivístico. De descoberta em descoberta, chega-se ao “grande acervo de imaginária que estava nos sótãos”.
Depois da surpresa inicial muitos passos foram percorridos até ao momento em que se inicia o trabalho de Ana Lídia Mascarenhas, jovem natural da freguesia de S. Bartolomeu de Messines, estudante do Curso de Conservação e Restauro do Instituto Politécnico de Tomar e a quem coube a tarefa de tratar o grupo de peças mais significativo. Todas as cinco esculturas encontravam-se nas mesmas condições, degradadas pelo tempo. A algumas faltavam mesmo alguns elementos, ou partes, mas as várias camadas de tinta que ao longo dos tempos lhes tinham sido aplicadas eram “o principal problema”. A escultura de São Sebastião, por exemplo, “já tinha sido pintado sete vezes”.
Como explica Ana Mascarenhas, nestas peças não foi feito restauro, porque não existiam documentos que permitissem saber qual o aspeto original das esculturas. A opção foi a de estabilizar e conservar a peça, de forma a que se interrompesse a sua degradação e que a mesma se conserve, daqui para a frente, “da forma como chegou até nós”.
Foram necessários oito meses de trabalho, decorrido no Instituto, em Tomar, para onde foram as peças. Nesse tempo, as esculturas foram sujeitas a injeções e limpezas minuciosas até estarem em condições de serem exibidas de novo.

S. Sebastião ( atrás), S. Vicente, Deus Pai, S. Francisco de Assis, Nossa Srª do Ó
S. Sebastião ( atrás), S. Vicente, Deus Pai, S. Francisco de Assis, Nossa Srª do Ó

A criação de um espaço museológico onde possa ficar patente toda esta riqueza patrimonial é uma das aspirações reveladas pelo padre Carlos Aquino. Um objetivo dificultado pela indefinição do projeto nacional da Rota das Catedrais, que a Sé de Silves integrou em 2010 e que previa a execução de várias obras e de eventos culturais. Nem os eventos nem as obras se concretizaram, e hoje, como diz Luís Santos, a Sé debate-se com vários problemas que vão das redes de água e de eletricidade, ao portal principal, onde uma pedra está a tombar. Um problema grave que a Câmara Municipal tem acompanhado e que se prepara para intervencionar, apesar da responsabilidade da obra pertencer ao Estado.
No final da palestra, houve ainda tempo para que Ana Lídia Mascarenhas deixasse um apelo a todas as entidades que dispõem de património antigo, para que quando optam por mandar restaurar que “ não escolham o mais barato”, mas sim aquele que oferece mais condições para assegurar um trabalho de qualidade, para evitar que peças com valor sejam tratadas por quem pouco ou nada conhece do ofício. Com resultados por vezes catastróficos e irremediáveis.

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