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Terra Ruiva > Sociedade > História & Património > O Castelo de Alcantarilha – Imóvel de Interesse Público
História & PatrimónioSociedade

O Castelo de Alcantarilha – Imóvel de Interesse Público

Vera Gonçalves
Última Atualização: 2016/Jan/Seg
Vera Gonçalves
10 anos atrás
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O Castelo de Alcantarilha – Imóvel de Interesse Públicocastelo alcantarilha

Nos Paços do Concelho, em Silves, encontra-se patente, até ao final do mês de janeiro, a Exposição do Arquivo Municipal com o tema “O Castelo de Alcantarilha – Imóvel de Interesse Público “.
A exposição é acompanhada de fotografias e documentos.
Como habitualmente, o Terra Ruiva colabora com esta iniciativa do Arquivo Municipal publicando uma versão reduzida do texto da exposição. 

O Castelo de Alcantarilha

No que respeita à raiz do seu topónimo, o nome Alcantarilha é de origem árabe e deriva da palavra «Al-Qantarâ» que significa «a ponte» que, no seu diminutivo românico, moçárabe, significaria «ponte pequena ou pontezinha».
Localizada estrategicamente na estrada que comunicava entre Faro e Silves, as duas capitais islâmicas do Algarve, Alcantarilha foi um povoado de grande importância estratégica.
Das muralhas ou do chamado Castelo de Alcantarilha ainda resistem alguns vestígios da cerca abaluartada implantada no interior do espaço urbanizado de Alcantarilha, entre a Travessa do Castelo e o Largo General Humberto Delgado e no que respeita à sua data de execução há várias teses.
Alguns autores defendem a ideia de que na época da Reconquista Cristã da Península Ibérica, quando foi tomada aos mouros pelo Mestre da Ordem de Santiago, D. Paio Peres Correia, sob o reinado de D. Afonso III, terá determinado a edificação do Castelo de Alcantarilha, tendo, assim, uma origem islâmico-medieval.
Outros defendem que foi construído ou reparado, entre a segunda metade do século XVI e a primeira metade do século XVIII, essencialmente para proteger a população das investidas da pirataria marítima vinda do Norte de África, uma vez que em 1550 Alcantarilha e os povoados vizinhos sofreram um devastador ataque de piratas mouros que a saquearam. Segundo informação de João Baptista da Silva Lopes, foi depois do ataque, que Alcantarilha começou a ser cercada por uma muralha segura (Reis, 2003).
Outros testemunhos remetem-nos para uma campanha de obras associada ao tempo de D. Sebastião (1568-1578) que em 1571 determinou uma série de melhoramentos a nível da defesa militar do território e a conclusão das muralhas de Alcantarilha.
No ano de 1573, El-Rei D. Sebastião empreendeu uma jornada ao Alentejo e Algarve e depois de pernoitar em Silves, passou por Alcantarilha, para ver a obra feita, como se pode ver através do relato feito por João Cascão, cronista que acompanhou o séquito do monarca. Este descreve que “passou pela Alcantarilha, aldeia de 150 vizinhos, que ora se cerca de muro toda em roda, e com baluartes em lugares convenientes, por ser perto da costa (…) Entrou El-Rei pela principal rua da aldeia que, de uma banda e de outra, estava cheia de gente, e às janelas algumas moças bem parecidas. (…) e andaram na Alcantarilha vendo o novo edifício”.
Quatro anos depois, as obras de construção da muralha ainda perduravam. Frei João de São José, na sua Corografia do Reino do Algarve (1577), descreve a vila com mais de 200 vizinhos, todos lavradores de terras e figueirais, dizendo que nela se construía uma cerca.
Em 1621, Alexandre Massai na Descrição do Reino do Algarve, em relação a Alcantarilha, além de descrever o lugar, aconselha que se acabe as obras, levantando-se de pedra e cal os pedaços dos muros que estão começados e elevando-os à altura do baluarte que está feito e as mais obras se devem fazer de terra e faxina. Todavia é provável que a muralha nunca tenha sido concluída.
No Dia de Todos os Santos de 1755, o Algarve foi sacudido pelo sismo que provocou uma enorme devastação. Em 1758, o Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo, remete a todos os párocos do reino interrogatórios sobre as paróquias e povoações pedindo também relatório dos estragos provocados pelo terramoto. O pároco de Alcantarilha nas Memórias Paroquiais refere apenas pequenos danos na Igreja, não fazendo referencia ao estado em que ficou a muralha.

A muralha

A importância estratégica desta muralha deve-se ao facto de se situar num ponto mais recuado da linha de costa e uma segurança mais interior, que permitia fazer frente aos ataques marítimos e aos eventuais desembarques de tropas inimigas.
As muralhas da cerca abaluartada são compostas por seis baluartes em cada vértice e a porta principal da vila tinha um arco – o Arco da Porta, chamado da Vila, junto do castelo, por onde se entrava para a povoação do lado sueste, que foi demolido no século XVIII para se utilizar a sua pedra na construção da ponte sobre a Ribeira, que substituiu outra mais antiga.
O designado “Castelo de Alcantarilha” chegou até à década de 1940 em relativo estado de conservação. No entanto, a partir de então, e ao longo das últimas décadas, com a evolução da malha urbana uma parte significativa da muralha foi ocultada pelas construções modernas, descaracterizando-se a fisionomia do espaço intramuros de tal forma que atualmente são poucos os elementos que se encontram visíveis.
Entre os quais se destaca um trecho curvo do pano de muralha, com cerca de 12 metros de comprimento por 4,5 metros de altura, constituído à base de alvenaria de pedra calcária argamassada com argila, irregularmente dispostas, ao qual estão adossadas diversas edificações.
Na Travessa do Castelo encontra-se no pano de muralha curva com soco uma porta simples a sudeste da principal de cantaria de verga curva com portão em ferro, e a noroeste uma janela quadrangular de pequenas dimensões, a cerca de 4 metros de altura.
Visível da Rua de Nossa Senhora do Carmo, do lado sudeste, destaca-se um canto de um baluarte, que corresponde a uma das faces de um cunhal em calcário que estreita da base para o topo. Do lado nascente da Rua do Lagar que continua para além das Escadinhas do Lagar continua ainda um longo pano de muralha, mas que não foi integrado no imóvel classificado, e visivelmente a meio do seu percurso o varandim de uma casa particular ocupa o topo de um torreão que ainda exibe uma das suas orelhas.
Em agosto de 1973 a Câmara Municipal de Silves recebe um ofício, da Secretaria de Estado da Instrução e Cultura – Direção Geral dos Assuntos Culturais, do Ministério da Educação Nacional, através do qual tomou conhecimento que “foi determinada a classificação, como imóvel de interesse público, do Castelo de Alcantarilha”.
No entanto, só um ano depois, em 1974, se iniciou o processo de “Constituição da servidão administrativa do Castelo de Alcantarilha” para a sua classificação, tendo sido publicado no “Jornal do Algarve”, o edital relativo à constituição de servidão administrativa. Decorridos os trinta dias foram apresentadas três reclamações, subscritas por José Maria Tavares Alves Martins, António Inácio Vieira e Isabel dos Santos Quintinha, sendo que esta alegava ser proprietária do Castelo.
Contudo, só no ano de 1977 o Castelo de Alcantarilha é classificado como imóvel de interesse público, pelo Decreto n.º129/77 de 29 de setembro de 1977, publicado no Diário da República n.º226, I Série. Enquanto imóvel classificado beneficia automaticamente de uma zona especial de proteção de 50 metros, contados a partir dos seus limites exteriores.
O Castelo de Alcantarilha, do qual resistem pequenos troços de muralhas, representa um imóvel de grande importância para a história de Alcantarilha e símbolo desta vila, que nasceu e se desenvolveu à volta do mesmo, constituindo o núcleo genético do aglomerado urbano. No entanto, os vestígios do castelo aguardam e reclamam a definição de um programa de valorização/restauro e investigação arqueológica que permita conhecer a real importância da localidade, bem como questões relacionadas com a sua construção, seu abandono e outras.

Bibliografia
COSTA, Alexandre, et al., 1755 – Terramoto no Algarve, Centro Ciência Viva do Algarve, Faro, 2005
IANTT (1758) Dicionário Geográfico de Portugal, Freguesia de Alcantarilha [PT/TT/MPRQ/1/81]
LOUREIRO, Francisco Sales – Uma Jornada ao Alentejo e ao Algarve, Livros Horizonte, 1984
MAGALHÃES, Natércia, Algarve – Castelos, Cercas e Fortalezas (As Muralhas como Património Histórico), Letras Várias, 1.ª edição, Faro, 2008
REIS, João Vasco Rodrigues – Alcantarilha – Percursos no Tempo (Monografia), Junta de Freguesia de Alcantarilha, 2003
http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=2824 – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico
http://www.patrimoniocultural.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/74120/ – Património Cultural – Direção-Geral do Património Cultural
https://pt.wikipedia.org/wiki/Castelo_de_Alcantarilha – Wikipédia

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TAGGED:AlcantarilhaCasteloVera Gonçalves
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PorVera Gonçalves
Natural da Sé de Faro, oriunda de S. Brás de Alportel, nascida em 1980. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas variante de Estudos Portugueses e Pós-graduação em Ciências Documentais – Ramo Arquivo pela Universidade do Algarve. Funcionária da Câmara Municipal de Silves, desde 2005, como técnica superior de arquivo.
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1 comentário
  • Isabel diz:
    9 de Fevereiro, 2017 às 22:26

    A HISTÓRIA DE ALCANTARILHA É LINDISSIMA MAS DE QUE SERVE.? HOJE FOI VENDIDA SEM NINGUÉM PREOCUPAR COm ISSO
    AGORA DIZ-SE IMOVEL DE INTERESSE PUBLICO.?.

    Responder

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