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História & PatrimónioSociedade

Entre Fábricas e Cegonhas

Paula Bravo
Última Atualização: 2015/Nov/Ter
Paula Bravo
11 anos atrás
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passeio-1

O sol já aquecia as costas e fazia brilhar o Arade, quando se fez a primeira paragem. Frente ao edifício de cor vermelha de grés, que a maioria das pessoas identificará como o antigo quartel dos bombeiros de Silves, o professor Manuel Ramos apontava para aquela que um dia foi a maior fábrica de cortiça de Silves, uma das maiores do país, na qual chegaram a trabalhar 500 operários. A fábrica Salvador Gomes Vilarinho que se estendia, por um lado, até ao campo de futebol, pelo outro, pelo espaço do mercado municipal, vinha encostar ao cais, no rio aonde aportavam as barcas que literalmente levavam a cortiça de Silves para todo o mundo.

A fábrica de Silves encerrou em 1911, mudou-se o fabrico para a Cova da Piedade, os edifícios foram ocupados por outras pequenas fábricas, também elas extintas, restam as paredes orgulhosamente em pé.

Na manhã do dia 26 de setembro de 2015, a memória da cidade corticeira é revisitada, por iniciativa do Sector de Património da Câmara Municipal de Silves que organizou o passeio “ Passeando entre fábricas e cegonhas”, conduzido por Manuel Ramos, ex-diretor do Museu da Cortiça, grande estudioso e divulgador desta temática.

É Manuel Ramos que transporta as duas dezenas de participantes para a cidade de Silves nos finais do século XIX, quando era o maior centro de transformação corticeira em Portugal, e onde trabalhavam cerca de 40% dos operários de todo o país.

Duas grandes fábricas nacionais estavam sedeadas na cidade, a Salvador Gomes Vilarinho, e a Avern, Sons & Barris e Gregório Mascarenhas ( mais conhecida por Fábrica do Inglês). À sua volta, inúmeras unidades fabris surgiam, algumas de média dimensão, mas a maioria de carácter familiar, instaladas em quintais. Ainda hoje, diz Manuel Ramos, se encontram os vestígios dessas fabriquetas, conhecidas como “fabricos”. “ Praticamente todas as casas que têm um portão, é porque tiveram lá dentro um fabrico”.

Em redor destas grandes e pequenas fábricas, estabeleceu-se em Silves uma outra indústria, a de metalomecânica, sendo a primeira oficina a de Andrés LLuis Bós.

Como alguém disse rindo, durante o passeio, a Andrés Lluis Bós, era “os chineses” do seu tempo. A grande mais valia desta oficina era a sua capacidade de “copiar máquinas” que já existiam para a indústria corticeira e replicá-las, a preços mais baratos. A outras, fazia-lhes alterações baseadas na vasta experiência dos operários corticeiros de Silves, e com essa capacidade ganhou renome nacional e internacional, exportando para vários países.

O desenvolvimento das indústrias corticeira e metalomecânica deu à cidade um dinamismo difícil de imaginar enquanto o passeio decorre quase só junto a ruínas. O professor Manuel Ramos vai apontando as casas operárias da rua D. Paio Peres Correia e rua Nova da Boavista, e mais à frente o edifício da Câmara Municipal, cujo patrono foi Gregório Mascarenhas, empresário da cortiça, que viria também a ser presidente da Câmara. E também se assinalam as “habitações burguesas”, construídas com o dinheiro que circulava então na cidade. Como o palacete que se verá mais tarde, a “casa Caldas”, dos Condes de Silves, onde o rei D. Carlos jantou e dormiu, contando a voz popular que terá rasgado a rica colcha que a dona da residência lhe colocara na cama, por ter dormido com as botas calçadas.

Na Fábrica Rosendo, na rua do Castelo, apesar do seu estado periclitante, ainda há algumas máquinas para ver, vestígios de um passado que emociona o antigo corticeiro Diamantino Neto que acompanha a visita e que vai contando alguns momentos do dia a dia dos operários. Como se sentavam, como eram as tarefas distribuídas, entre os homens e as mulheres, que trabalhavam em casa mas que em determinada altura também entraram nas fábricas, com que máquinas trabalhavam e para que serviam. E de como, em tempos não tão recuados, se reconhecia se um homem era ou não operário corticeiro: “bastava olhar para a mão dele e ver se lhe faltava algum dedo”.

À volta das fábricas, e da sua enorme massa operária, surgiram também as ideias revolucionárias dos anarquistas, dos comunistas e dos sindicatos que Salazar e o regime fascista iriam perseguir, prender, matar e encerrar.

Junto ao edifício que em tempos foi a sede do sindicato dos corticeiros, na última paragem deste passeio, salta à vista que nada no edifício lembra esse tempo, as lutas que por ali se travaram na conquista de uma vida melhor para os operários mas também para toda a cidade.

Era nas associações corticeiras que o lema “Pão, Luz e Liberdade” ganhava sentido. Além de tratarem das questões laborais, estas associações abriam escolas, bibliotecas, teatros, de uma importância extrema para os operários e suas famílias.

Após a 2ª Guerra Mundial, a decadência desta indústria acentua-se, agravada com a migração de empresas e operários para a margem Sul do Tejo. Hoje, é preciso sair da cidade para encontrar a última empresa em laboração, a Corticeira Amorim.

E no meio disto tudo, onde entram as cegonhas, perguntará o leitor mais atento, a lembrar o título do passeio e deste texto. As cegonhas fomos vê-las a meio do percurso, na rua Gago Coutinho, às caldeiras que rompem os telhados da antiga fábrica que aí existia. Habitualmente as cegonhas fazem os ninhos nas chaminés das caldeiras. No local existem cerca de 20 ninhos.

No dia da visita, nem uma se encontrava nos ninhos. Desilusão geral a percorrer o pequeno grupo de nacionais e estrangeiros, sempre acompanhados pelo técnico da CMS, Jorge Correia, tradutor infatigável… Depois, uma só cegonha fez uma aparição, riscando o céu azul.

E acabou aqui o passeio? O passeio terminou percorrendo o Mercado Municipal, aproveitando o fresquinho do seu interior e dando oportunidade de ver a interessante exposição fotográfica que lá se encontra.

Mas o texto, esse não termina sem um lamento, o de Manuel Ramos, que enquanto vereador da Câmara fez uma proposta para que fosse dado a uma rua da cidade, o nome de “Rua dos Corticeiros”, o que não foi atendido pelo executivo de então. E o maior desgosto de todos: que este passeio não passasse pelo Museu da Cortiça, motivo maior de orgulho dos silvenses, lamentavelmente na situação por todos conhecida, à mercê da degradação e de motivos pouco claros. E encerrado.

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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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