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História & PatrimónioSociedade

À descoberta de um património (quase) escondido em Silves e Alcantarilha

Paula Bravo
Última Atualização: 2018/Out/Qui
Paula Bravo
8 anos atrás
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As ruínas do período islâmico na Biblioteca Municipal, o interior das Casas Grandes, a Quinta de Mata-Mouros, e a Capela das Artes formaram o itinerário que levou visitantes a sítios históricos habitualmente fechados ao público ou com entrada mais reservada.
Foi no dia 30 de setembro, no âmbito das Jornadas Europeias do Património que este ano se celebraram com o lema “ Partilha de Memórias”.

O programa, organizado pelo Sector do Património da Câmara Municipal de Silves, começou pela época mais brilhante da cidade de Silves. Na Biblioteca Municipal, poucos degraus para o interior do edifício conduzem a uma área de escavações realizada durante o período de construção do edifício, em 2001, e que permanece “em bruto” aguardando a necessária musealização.

Aqui, no que seria o “rabal” (arrabaldes) da cidade de Silves durante o período islâmico, foi descoberta uma casa do século X e construções, ligadas ao atividades artesanais que, possivelmente, dadas as suas características (como o mau cheiro no caso de curtição de peles) se desenvolveriam em zonas não habitacionais. Vestígios “bem conservados, melhor do que na parte alta da cidade”, como disse Maria José Gonçalves, técnica da Câmara Municipal. A destacar-se uma zona de muralha, na sua parte mais evidente com mais de dois metros de altura. Faria parte da muralha secundária que protegia as zonas da cidade que se foram expandindo para lá da muralha original, ligada ao castelo. E ainda estruturas de edifícios de outras épocas posteriores, sinais de sistema de captação de água…

São 600m2 de escavações que na altura da construção da biblioteca foram feitas, “foi o que foi possível”, adiantou Maria José Gonçalves e que até agora permanecem como que ocultas do público pois, embora se possam visualizar através de um vidro, não reúnem as condições para serem visitadas, embora haja um projeto para tal a ser desenvolvido.

As Casas Grandes
Do período islâmico (século XVIII a XII) transitou-se para duas datas exatas: 1791 e 1811. Sobre estas não há dúvidas pois estão inscritas na porta de entrada do edifício conhecido em Silves como as “Casas Grandes”, dos maiores de todo o concelho.
Com a entrada principal colocada propositadamente mesmo junto à ponte velha, junto a uma via de comunicação principal e na parte nobre da cidade, o edifício, que ocupa quase metade de um quarteirão, foi construído em parte pela família Mascarenhas Neto, uma das famílias mais importantes da cidade de Silves e a outra parte por um rico proprietário de São Bartolomeu de Messines, o capitão-mor Gregório Machado Guerreiro. Assim, no pórtico encontram-se não só as duas datas referidas, mas também os brasões das duas famílias.
Hoje, pelas escadarias do que foi outrora um edifício imponente, é bem evidente a degradação a que os anos o votaram. Em pequenos grupos, por questões de segurança, foi possível aceder a algumas salas.

Apesar do soalho com buracos, dos restos de mobília apodrecidos, das teias e do ar de abandono, as pinturas nas salas permitem ainda evocar uma época passada, de brilho e fausto, impossível de recuperar “ a não ser que apareça aí um milionário que queira recuperar isto”, como se comentava entre os visitantes…

Quinta de Mata-Mouros
Lugar emblemático da cidade de Silves, ligada a um passado já distante pela lenda que diz que havia um túnel que ligava o castelo a este local e que por ele teriam fugido muitos mouros durante a conquista cristã.
Certo é que o local começou por ser escolhido para a instalação de um convento, o Convento de Nossa Senhora do Paraíso, do qual resta apenas uma capelinha e o campanário. Em ruínas e com o convento abandonado, no século XIX, a propriedade foi adquirida pelo primeiro visconde de Silves, Pereira Caldas e pertence hoje aos seus descendentes, ao conhecido empresário Pereira Coutinho.
Aberta ao público até 1951, encerrou, pelo que é dito, nesta época para evitar o vandalismo e a incúria dos visitantes. De lá para cá, raras vezes abriu as suas portas e à maioria dos silvenses apenas tem sido possível espreitar para lá dos muros nas poucas vezes em que as revistas cor-de-rosa têm oferecido vislumbres de festas caras e exclusivas que ali têm decorrido. Atualmente, é, no entanto, possível visitar a propriedade, através de visitas marcadas.
Na Quinta de Mata-Mouros, nasceu um dos projetos pioneiros no Algarve, de produção de vinho, iniciada em 2000. Hoje, o cultivo de vinha espalha-se por 12 hectares e a quinta comercializa as marcas Euphoria (tinto, rosé, branco), Convento do Paraíso e Imprevisto.
Passear pela quinta (sem acesso aos edifícios de habitação) é uma experiência diferente. Num momento estamos junto ao rio Arade, vendo a cidade na outra margem, sem que nada atrapalhe a nossa visão e no momento seguinte seguimos por veredas, completamente cercados por grandes árvores e vegetação muito verde, que lembram muito a paisagem das caldas de Monchique, tendo aqui e além encontros com canais por onde corre a água e com recantos para descanso ou oração…
É um passeio que apetece prolongar… Nesta visita ao passado, não houve muito tempo para permanecer, talvez de uma próxima… suspiravam os visitantes…

Capela das Artes
A visita continuou em Alcantarilha, na Capela das Artes. Este edifício começou por ser a residência de uma família importante, a Mascarenhas Neto. Desse passado, permanece a Quinta da Cruz, construída entre os séculos XV e XVII, que inclui uma casa antiga colonial (Solar) e a sua capela, edificada no século XV, e ainda um lagar de azeite datado do século XVII.

Classificado como Monumento de Interesse Público pelo seu carácter histórico, arquitetural e cultural, a quinta e as suas dependências acolhem o Hotel Capela das Artes.

(Nota: Não foi possível ao Terra Ruiva efetuar a visita ao Hotel Capela das Artes. Os dados históricos são retirados do site do hotel. A foto é de Luís Medeira, bem como a última foto na Quinta Mata Mouros.)

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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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