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Fósseis com milhões de anos para admirar nas pedras da Escola Secundária de Silves

E de repente o passado muito remoto está ali, à vista de todos. Descoberto, assinalado e oferecendo-se à visita e admiração de qualquer pessoa, nas paredes e no chão da Escola Secundária de Silves.

Um dia, digamos assim, há muitos milhões de anos, animais e plantas viveram num mundo muito diferente daquele que conhecemos. Viveram e morreram e os seus vestígios permaneceram e chegaram até aos nossos dias incrustados nas rochas que foram usadas na construção da Escola Secundária de Silves, nas paredes e no chão.

É preciso procurar estes pequenos fósseis, uns mais evidentes do que outros. Aqui e ali há vestígios de búzios; na antiga entrada encontra-se rochas formadas por fragmentos de recifes de coral; na escadaria de emergência, a ponte da escola, há um dente de peixe carnívoro da classe actinopterygii, um “avô” do grupo das atuais piranhas. Um “avô” com cerca de 400 milhões de anos!

Um dente de peixe carnívoro que surgiu há 400 milhões de anos, embora este dente tenha só 166 milhões de anos

É o professor Francisco Lopes quem conduz a nossa visita. Fazemos o percurso que foi elaborado no âmbito de um projeto escolar desenvolvido com alunos, com o “propósito de valorizar o património geológico e fomentar a literacia e a divulgação científicas”. Desse projeto resultou a exposição “As rochas e fósseis da minha escola”, que foi apresentada à comunidade escolar e população em geral, no final do ano escolar e, mais tarde, numa iniciativa no âmbito do programa Ciência Viva no Verão.

Este projeto teve início há três anos quando foi lançado “o desafio” aos alunos, conta o professor Francisco Lopes. Aí, os mesmos, munidos de uma planta da escola, começaram a fazer um levantamento dos fósseis que encontravam, um trabalho em que se destaca a ação da aluna Amanda Carneiro. No passado ano letivo, com a existência de uma turma de Geologia do 12º ano, a ideia progrediu e resultou na organização da exposição que teve um êxito assinalável que “permitiu aos alunos não só verem o seu trabalho reconhecido, e também pelas pessoas de fora, como eles próprios reconhecerem a utilidade do mesmo”.

Os talos dos crinoides eram utilizados pelos índios americanos para fazer ornamentos

No momento da nossa visita, em período de férias escolares, a exposição já foi levantada, mas o percurso permanece assinalado, por todo o edifício central. Na antiga entrada da escola é onde se encontram mais pontos assinalados. Um dos destaques são partes dos talos de crinoides, os chamados lírios do mar, animais do mesmo grupo das estrelas do mar, mas também é possível observar a formação das rochas, através da análise dos veios da pedra e ficar a reconhecer, por exemplo, uma “rocha stressada”. É conhecer a “história da pedra antes de ser retirada da pedreira”, como diz Francisco Lopes.

Nas escadarias interiores encontramos um esqueleto interno de um organismo que já não existe, o belemnite, que é o elo de ligação com as atuais lulas e que terá sido extinto juntamente com os dinossauros; enquanto na escadaria exterior, entre outros, encontramos vestígios de um grupo de animais que ainda existe, os braquiópodes, um dos animais mais antigos do planeta, uma espécie semelhante aos moluscos bivalves, com um corpo mole e uma carapaça com duas valvas.

No chamado “Cantinho dos Namorados”, o vestígio de um bivalve, evidenciando-se as duas valvas

O professor Francisco Lopes, durante a visitaA variedade de fósseis é grande e, como realça Francisco Lopes, nem todos estão assinalados. Dos vestígios encontrados apenas foram “selecionados os melhores exemplares”. Haverá também um trabalho de investigação a desenvolver, no próximo ano letivo, sendo desejo do professor de continuar “a motivar e envolver novos alunos”, e de “criar condições para a organização de visitas guiadas”.

Este, sublinha o professor Francisco, é um “património desvalorizado pelo desconhecimento de que há dele, mas pode ter um fim educativo, científico e turístico importante”. Por estas razões, um dos seus desejos, seria o de encontrar “um financiamento” que permitisse à Escola apresentar este percurso pela história de uma forma mais permanente e com melhor qualidade, uma vez que agora o material utilizado (papel plastificado) é precário e facilmente se estraga. Por enquanto, o percurso continua visível e junto a cada ponto, mesmo que não se tenha um guia apaixonado e paciente como Francisco Lopes, pode-se obter a informação sobre o que se está a ver, usando uma aplicação criada para o efeito.

No tempo em que tudo e todos têm pressa, vale a pena retirar uns minutos de um dia para olhar para minúsculos vislumbres do tempo em que os dinossauros caminhavam sobre a terra…

Os búzios assinalam o percurso na ESS

 

Nota: Neste projeto, além do professor Francisco Lopes, esteve envolvida também a professora Ana Cláudia Canas. Teve também a participação do professor Hélder Pereira, da Escola Secundária de Loulé, e do paleontólogo Carlos Marques da Silva, da Universidade de Lisboa, que apoiaram o projeto como consultores externos, auxiliando na identificação das rochas e fósseis encontrados na Escola Secundária de Silves.

 

 

 

 

 

Nota: Após a publicação, foi corrigida o nome da aluna citada, que se chama Amanda Carneiro ( e não Amandia, como erradamente escrevemos). Pede Francisco Lopes que se especifique que o dente de peixe citado no artigo, embora pertença a uma classe de peixes surgida há 400 milhões de anos, terá “só” 166 milhões de anos.

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