Creio que, nestas crónicas mensais, nunca vos falei de uma ida à Festa do Avante. Este evento completou, neste ano de 2026, cinquenta edições. Não tenho a mania das comemorações em números redondos – entenda-se múltiplos de cinco, de dez, de vinte e cinco, de cinquenta, de cem, etc. –, mas, casualmente, retornei à Festa do Avante neste ano do seu quinquagésimo aniversário.
Em dois dias de temperaturas tórridas, após uma viagem organizada de autocarro entre o Algarve, –no meu caso particular, a partir de Silves– e a Quinta da Atalaia, no Seixal, naturalmente com ida e volta, deambulei pela Festa do Avante da manhã até à noite. Os passageiros do autocarro, habituais nestas andanças, ansiavam por chegar, mas tardaram a regressar, prolongando a beleza do fim de semana.
Nas manhãs relativamente calmas, apesar do calor imenso desde a madrugada, percorria as diversas ruelas, largas e estreitas, que serpentavam pelo terreno em torno das barracas identitárias das diferentes regiões e ilhas de Portugal, das representações internacionais e dos espaços políticos, artísticos e culturais.
O debate político, com uma estrutura quase académica, acontece em diversos espaços e momentos do certame. Se, por um lado, se traduz na possibilidade de conhecer melhor um tema, por outro resulta, dada a intensidade do clima, numa vertigem propícia à surdez e à divagação do olhar pelos espaços coloridos, em tons de vermelho, do evento.
As sombras são o retorno à terra e à singularidade de estar na festa pela festa sem importar mais o programa, os músicos, os artistas, os debates, os livros, os discos e toda uma parafernália de artefactos mais ou menos regionais ou icónicos de uma ideologia — menos presente, mas mais necessária.
Depois, durante a tarde e pela noite dentro, surge a imensidade de gente, com uma extraordinária variabilidade de rostos e de vestuários – desde as t-shirts com ícones dos anos setenta até vestes alternativas, desafiando as mentalidades e assumindo o rasgo urbano de uma metrópole –, convivendo na certeza da segurança e da igualdade de estar, de ser, sem motivos para desconfianças ou medos, sem necessidade de ocultação ou de disfarce.
Ao longo dos dias ficou também a emoção mesclada de desânimo pela tímida sobrevivência de ícones do mundo socialista, pela natureza dos resultados políticos das esquerdas comunistas na Europa (uma esperança, uma celebração em Berlim), mas também pela convicção dos partidos comunistas e operários, alguns de língua portuguesa, que lutam pela igualdade entre os povos em diversas partes do planeta.
Uma imagem que recordo, nesta singularidade de contrastes, foi a de um jovem a vibrar – de forma profundamente interiorizada e exteriorizada – com as músicas de José Mário Branco na voz de JP Simões.
De resto, a festa, o comício, e as filas quase imensas para a comida e as bebidas, sempre com rostos amigos e sorrisos afáveis de camaradas.
A Festa do Avante são as pessoas, as partilhas de memórias e de desassossegos; são os regressos na certeza de um breve futuro, no ano seguinte, na cidade comunista.


