Uma visita aos trabalhos de reabilitação que decorrem na Ponte Velha de Silves e uma palestra sobre a história deste monumento marcaram as comemorações das Jornadas Europeias do Património em Silves que decorreram de 25 a 27 de setembro, por iniciativa do Município de Silves,
A visita, realizada no final da palestra, foi conduzida pelo engenheiro José Paulo Costa, responsável pela empresa STAP que assumiu a obra de reabilitação da ponte, em agosto de 2025, após o abandono da obra pela empresa que estava a realizar esses trabalhos.
A anteceder a vista ao local, José Paulo Costa fez, na Biblioteca Municipal de Silves, uma abordagem aos trabalhos realizados pela sua empresa, demonstrando que “a obra está praticamente concluída”, faltando concluir a colocação do pavimento e a instalação elétrica, incluindo a iluminação cénica.
Segundo José Paulo Costa, a “ponte tinha muitas fragilidades” e “colapsos locais”, e “teria caído” na altura das intempéries do inicio deste ano, não tivessem sido já realizados alguns trabalhos, nomeadamente a consolidação dos arcos por injeção e o reforço dos tirantes, sendo também colocadas pedras que estavam em falta e substituídas outras, depois de serem sujeitas a técnicas de restauração. De acordo com este técnico, a “ponte tinha muitas infiltrações” provocadas em grande parte pelas condutas de água que por ali passavam, até às obras feitas recentemente pela Câmara Municipal que as transferiram para a outra ponte.
Além destes trabalhos, a STAP ficou responsável pelo restauro da cantaria e a renovação integral do tabuleiro, pintura e desmontagem e acessos. Trabalhos que na totalidade se encontram orçamentados em mais de 700 mil euros.
O tabuleiro, além de ter um pavimento novo, todo em pedra, foi revestido com tela, para evitar infiltrações.
O engenheiro José Paulo destacou ainda a colocação de iluminação em toda a ponte e nos acessos, tendo essa iluminação uma conceção cénica de forma a “vestir e adornar toda a ponte”.
Ponte Romana ou Ponte Medieval
O contexto para a visita aos trabalhos na ponte foi dado na Biblioteca Municipal de Silves, com a arqueóloga e historiadora da Câmara de Silves, Maria José Gonçalves, que apresentou uma palestra com o título “Ponte Velha: atravessar o tempo. História, memória e conservação de uma obra de todos os tempos”, dedicada à história da emblemática ponte e aos trabalhos de conservação e restauro que estão a ser realizados.
Um dos pontos abordados teve a ver com uma discussão antiga sobre a origem desta ponte, anteriormente conhecida como “ponte romana”. Segundo Maria José Gonçalves, não há dúvidas que se trata de uma ponte da época medieval, pelas suas características arquitetónicas com um tabuleiro em cavalete, mais alto nas pontas e a sua construção com blocos de arenito de pequena dimensão, muitos deles “assinados” com as marcas de canteiro.
Maria José Gonçalves acrescentou que na época romana “não havia cidade” pelo que não faria sentido construir uma ponte e que “na época islâmica não há referências à ponte”.
A referência histórica mais antiga, relativa a esta ponte, encontra-se no testamento de Geraldo Pais, de 1318. A partir deste data, vão surgindo referências pontuais.
A obra de construção da ponte teria tido início nos finais do reinado de D. Dinis, ou no início do reinado de D. Afonso IV (1325-1357), o qual disponibiliza 10 libras para construir a ponte.
Em 1349, na famosa maldição do Bispo, este predizia o insucesso da cidade e das obras em curso, a Sé e a Ponte, o que indica que as obras estavam a decorrer.
Em 1439, há uma nova referência documentada, quando “os homens bons de Silves” se apresentam nas Cortes de Lisboa, queixando-se que a ponte caiu, em consequência das cheias. Já nas Cortes de Évora, em 1473, há notícia de que a ponte está concluída…
Ao longo dos séculos vão sendo encontradas algumas referências à ponte e aos sucessivos estragos e até colapsos que vai sofrendo, em virtude de cheias no Rio Arade.
Em 1963 começam as obras na Avenida Marginal e as obras de construção da Ponte Nova, que veio a ser inaugurada em 1966, criando uma via alternativa à velha ponte.
Em 2001, a Câmara Municipal de Silves atenta na necessidade de intervenção na Ponte Velha, mas nada avança. Em 2008, o LNEC diagnosticou “anomalias graves” na ponte que colocariam em causa a sua segurança.
Mas só em 2015 é executado o projeto de conservação e restauro da ponte que é apresentado à aprovação das “10 entidades” que teriam de dar o seu parecer.
Entre os anos de “de 2016 a 2020 estivemos à espera de todos os pareceres”, remata Maria José Gonçalves, sublinhando a dificuldade destes processos em que várias entidades são chamadas a pronunciar-se. Finalmente, em 2020, é lançado o concurso para a empreitada e a ponte velha é classificada como imóvel de interesse público.
A empreitada é entregue à empresa Cacao que inicia os trabalhos em setembro de 2020 mas rescinde em julho de 2021, o que obriga a Câmara a fazer um novo concurso. A empresa Geolatitude reinicia os trabalhos em maio de 2024 mas abandona a obra em julho de 2025. Dois meses depois, entra a empresa STAP que se encontra a concluir a obra.





