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Opinião

Animação Turística

José Alberto Quaresma
Última Atualização: 2026/Out/Seg
José Alberto Quaresma
2 horas atrás
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Não sei se gostamos deles. Tudo fazemos para os receber. Bem. À sua maneira. Ou à nossa que é a deles. Pelo menos em Albufeira, Quarteira, Praia da Rocha. Aí estão. Britishsplendour.

Primeiro o planeamento urbanístico. Desde os anos 60. Não foi como Raul Proença viu Olhão, no seu Guia de Portugal, em 1927: “A higiene e a engenharia nunca ali foram ouvidas, nem achadas”. A engenharia e a arquitectura foram. Os projectos assinados. Aprovados pelas câmaras e governos. Tudo a eito. Prédios aos milhares. Alguns sem licença de construção. Proveitosos andares recuados. Se se construiu onde não se podia, ainda bem. Esperteza urbana.

Depois, houve que matar a sede e a fome. Os bares despontaram. Algarvios retintos ou rebrancos, indígenas e conversos, afixaram a tabuleta: English pub. Aprenderam a língua de Shakespeare com sotaque. São entendidos. Até pelos portugueses, of course, olhados de soslaio. Restaurantes típicos surgiram: Tony’s steakhouse. English menus de cozinha tradicional algarvia: hamburgers & chips, fish& chips. Comidinha gourmet.

Por fim, os ‘souvenirs’. Germinaram lojas de genuíno artesanato algarvio, prenhes de bóias e colchões de plástico insuflável, made in China – a nossa mais pujante região industrial. Como suspiros de airbag, as bóias empurram os transeuntes para a estrada. Os passeios ficam para bancadas de tatuagens à la minuta, camisolas dos Andes, tranças do Brasil, chinelos de Taiwan.

Pelo crepúsculo, descem dos tê zeros empilhados. Rosadinhos, a pele a deitar fogo. Saquinhos de plástico na mão. Vão molhar a aridez das goelas. Rapaziada civilizada, verdadeiros gentlemen, arrotam borbulhas de guinesses, bolçam super boques cozidas. Desinfestam, de mijo ácido, oportunos candeeiros. Autênticos infantes das sagres descobrem que a cadeira é um projéctil voador de quatro patas. No fundo da noite, são amansados. Uns meigos da GNR e PSP, de cassetete na mão, fazem desabrochar beijinhos de boas vindas.

Os atletas de peito descaído, este ano, dão mais trabalho à autoridade. Vieram em treinos para o Euro. Girafas de cerveja no bojo e garrafas para grandes penalties. Em Albufeira, um bombeiro dava a táctica. Na Rocha, um desportista também com vocação para soldado da paz, viu uma ambulância de chaves na ignição e resolveu fazer o chamado tour grosso. Estatelou-se.

Os governantes que promovem a excelência deste turismo deviam ofertar manuais de civilidade, como os do século XIX. Mandar ensinar, na noite algarvia, todo o atleta a aperfeiçoar a pose à mesa e na rua. A saber usar garfo e, sobretudo, faca. A afinar a pontaria nos urinóis. A galgar passeios com um carro movido a álcool. A atirar piropos poéticos em voz (fuck) off.

Há menos turistas. Mas são bons. Ao murro e à cadeirada. Quem diz que o Algarve não tem animação?

 

(Publicado pela primeira vez no Domingo Magazine, Correio da Manhã, 27 de Junho de 2004 e ainda tão atual,  em Agosto de 2026).

 

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TAGGED:animação turísticaJosé Alberto Quaresma
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PorJosé Alberto Quaresma
José Alberto (de Oliveira) Quaresma nasceu em Portimão. Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Prosseguiu estudos em História Moderna e Contemporânea, na Universidade de Paris- Sorbonne (Paris IV), com Pierre Chaunu e André Corvisier e em História das Mentalidades Religiosas, no Collège de France, com Jean Delumeau. Foi docente do ensino secundário e formador de professores. Publicou artigos em revistas científicas e apresentou em vários fóruns comunicações sobre História, História das Mentalidades, Sociedade e Sistema Educativo. Tem, como colunista, colaboração dispersa por vários periódicos, nomeadamente, O Independente, Público, Expresso, Correio da Manhã, Domingo Magazine. Obteve o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989), pelo livro A Pose Extática, (Afrontamento). Publicou Ecolalia, poesia (Vega) e, na mesma editora, Direito ao Erro – A Batalha da Educação em Portugal. Foi autor de «Falta de Castigo – O Blogue da Educação e da Falta Dela», no semanário Expresso, entre 2008 e 2014. Coordenou as Comemorações do 122º Aniversário do Nascimento de Manuel Teixeira Gomes (1982-1983). Foi comissário para as Comemorações Nacionais dos 150 Anos de Manuel Teixeira Gomes (2010). É autor de Manuel Teixeira Gomes – Biografia (Imprensa Nacional – Casa da Moeda / Museu da Presidência da República
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