Não sei se gostamos deles. Tudo fazemos para os receber. Bem. À sua maneira. Ou à nossa que é a deles. Pelo menos em Albufeira, Quarteira, Praia da Rocha. Aí estão. Britishsplendour.
Primeiro o planeamento urbanístico. Desde os anos 60. Não foi como Raul Proença viu Olhão, no seu Guia de Portugal, em 1927: “A higiene e a engenharia nunca ali foram ouvidas, nem achadas”. A engenharia e a arquitectura foram. Os projectos assinados. Aprovados pelas câmaras e governos. Tudo a eito. Prédios aos milhares. Alguns sem licença de construção. Proveitosos andares recuados. Se se construiu onde não se podia, ainda bem. Esperteza urbana.
Depois, houve que matar a sede e a fome. Os bares despontaram. Algarvios retintos ou rebrancos, indígenas e conversos, afixaram a tabuleta: English pub. Aprenderam a língua de Shakespeare com sotaque. São entendidos. Até pelos portugueses, of course, olhados de soslaio. Restaurantes típicos surgiram: Tony’s steakhouse. English menus de cozinha tradicional algarvia: hamburgers & chips, fish& chips. Comidinha gourmet.
Por fim, os ‘souvenirs’. Germinaram lojas de genuíno artesanato algarvio, prenhes de bóias e colchões de plástico insuflável, made in China – a nossa mais pujante região industrial. Como suspiros de airbag, as bóias empurram os transeuntes para a estrada. Os passeios ficam para bancadas de tatuagens à la minuta, camisolas dos Andes, tranças do Brasil, chinelos de Taiwan.
Pelo crepúsculo, descem dos tê zeros empilhados. Rosadinhos, a pele a deitar fogo. Saquinhos de plástico na mão. Vão molhar a aridez das goelas. Rapaziada civilizada, verdadeiros gentlemen, arrotam borbulhas de guinesses, bolçam super boques cozidas. Desinfestam, de mijo ácido, oportunos candeeiros. Autênticos infantes das sagres descobrem que a cadeira é um projéctil voador de quatro patas. No fundo da noite, são amansados. Uns meigos da GNR e PSP, de cassetete na mão, fazem desabrochar beijinhos de boas vindas.
Os atletas de peito descaído, este ano, dão mais trabalho à autoridade. Vieram em treinos para o Euro. Girafas de cerveja no bojo e garrafas para grandes penalties. Em Albufeira, um bombeiro dava a táctica. Na Rocha, um desportista também com vocação para soldado da paz, viu uma ambulância de chaves na ignição e resolveu fazer o chamado tour grosso. Estatelou-se.
Os governantes que promovem a excelência deste turismo deviam ofertar manuais de civilidade, como os do século XIX. Mandar ensinar, na noite algarvia, todo o atleta a aperfeiçoar a pose à mesa e na rua. A saber usar garfo e, sobretudo, faca. A afinar a pontaria nos urinóis. A galgar passeios com um carro movido a álcool. A atirar piropos poéticos em voz (fuck) off.
Há menos turistas. Mas são bons. Ao murro e à cadeirada. Quem diz que o Algarve não tem animação?
(Publicado pela primeira vez no Domingo Magazine, Correio da Manhã, 27 de Junho de 2004 e ainda tão atual, em Agosto de 2026).


