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Museu da Cortiça de Silves – entre a memória e a resistência

Paula Bravo
Última Atualização: 2026/Jul/Qui
Paula Bravo
5 horas atrás
Interior do Museu da Cortiça - 4 de julho 2026
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A história da cortiça é indissociável da história da cidade de Silves, onde, durante mais de um século, milhares de operários trabalharam em fábricas entre caldeiras, prensas, serras e máquinas de brocar rolhas, ou em casa, nas tarefas menores, atribuídas maioritariamente a mulheres e crianças.

Contents
  • O reconhecimento europeu
  • O encerramento – o património em perigo
  • A luta pela classificação
  • Mais do que um museu
  • Museu da Cortiça abre portas ao público no dia 11 de julho
    • Cronologia essencial

A história da Fábrica do Inglês começa em 1893, quando é constituída a sociedade Avern, Sons & Barris & Gregório Mascarenhas, associando capitais britânicos e portugueses. No ano seguinte é instalada, em Silves, uma unidade industrial destinada à transformação da cortiça, beneficiando de um conjunto de factores favoráveis: a proximidade dos montados de sobro do Sul do país, a navegabilidade do rio Arade e, posteriormente, as ligações ferroviárias.

Foi durante a administração do britânico Victor George Sadler que a fábrica passou a ser conhecida pela designação que ainda hoje permanece: a “Fábrica do Inglês”.

Ao longo das décadas, a Fábrica do Inglês viria a conhecer várias fases de atividade, desde o tempo em que era uma unidade fabril equipada com moderna maquinaria, até ao declínio iniciado a partir da década de 1970, quando a indústria corticeira algarvia começou a perder peso. Em 1995 a fábrica encerra as portas.

 


 

Novo projeto, novo fôlego

 

Após o encerramento, começa a ganhar forma um projeto de recuperação do património, ligado a um projeto de exploração turística. No complexo recuperado, segundo um projeto liderado pelo grupo empresarial Alisuper/Alicoop, surgem estabelecimentos de restauração, jardins, espaços para eventos e abre portas o Museu da Cortiça, em 1999.

A direção do Museu da Cortiça é entregue ao professor e historiador Manuel Castelo Ramos, que organiza o museu tendo como principal preocupação a de preservar a autenticidade do conjunto industrial, fazendo também o inventário, estudo e recuperação do património.

A opção pela preservação “in situ” constituiu uma das maiores singularidades do Museu da Cortiça, permitindo aos visitantes percorrerem os antigos espaços de produção praticamente tal como tinham sido deixados pelos operários, os quais, também contribuíram com materiais e equipamentos que tinham guardados e que entregaram para enriquecer o espólio do museu.

O Museu da Cortiça nos primeiros anos

O reconhecimento europeu

Integrado no Complexo da Fábrica do Inglês, o Museu da Cortiça rapidamente se transformou numa das maiores atrações culturais do Algarve e não demorou a alcançar o reconhecimento internacional. Em 2001, o Museu da Cortiça recebeu o Prémio Luigi Micheletti, uma das mais importantes distinções europeias no domínio da museologia industrial.

Ao mesmo tempo, a Fábrica do Inglês vivia um dos seus períodos mais prósperos. Mais de cem mil visitantes passavam anualmente pelo complexo.

Paralelamente, foi reunido um importante espólio documental, considerado por Manuel Castelo Ramos como um dos mais vastos conjuntos documentais do mundo relacionados com a indústria corticeira.

Mas o período de prosperidade foi curto. Os problemas financeiros do grupo Alicoop/Alisuper que detinha o complexo através da sociedade Fábrica do Inglês – Empreendimentos Turísticos, tornaram-se evidentes.

À medida que a situação empresarial se degradava, aumentava a preocupação de Manuel Castelo Ramos sobre o futuro do Museu e o risco de desmantelamento do conjunto museológico e a preservação do seu espólio.

A sua preocupação era fundada. Em abril de 2010, a Fábrica do Inglês encerrava portas, depois de alguns anos de degradação progressiva.

O diretor do Museu, Manuel Ramos (à direita), na Suécia, onde recebeu o prémio para o Melhor Museu Industrial da Europa

O encerramento – o património em perigo

Com o encerramento, máquinas, ferramentas, mobiliário, documentação, arquivos fotográficos e equipamentos industriais continuaram no Museu da Cortiça.

À medida que o processo de insolvência avançava, aumentavam as preocupações entre historiadores, museólogos e especialistas em arqueologia industrial.

Em 2012, Manuel Castelo Ramos conseguiu que uma parte significativa do arquivo histórico fosse transferida para o Arquivo Distrital de Faro, com a intenção de salvaguardar de documentos de enorme valor para a história da indústria corticeira portuguesa. Mas permanecia a questão essencial: o que iria acontecer ao restante espólio, quando já se registavam furtos e atos de vandalismo no complexo?

Em 2013, perante o avanço do processo de insolvência, a Câmara Municipal de Silves procura encontrar uma solução que impedisse a dispersão das coleções. Em agosto desse ano, aprovou por unanimidade uma proposta destinada a garantir meios financeiros que possibilitassem ao Município adquirir o espólio do Museu.

Contudo, a capacidade financeira da autarquia era limitada e era enorme a complexidade do processo de insolvência. Em 2014, no âmbito da liquidação judicial, os imóveis da antiga Fábrica do Inglês foram adquiridos pela Caixa Geral de Depósitos enquanto o espólio do Museu da Cortiça foi arrematado pelo Grupo Nogueira, que licitou contra a Câmara de Silves. A garantia prestada pelo Grupo Nogueira de reabrir o Museu não foi cumprida. Durante largos anos o Museu permaneceu encerrado, não obstante os protestos e as diligências de vários organismos ligados ao património e museologia.

Um adas várias ações que ao longo dos anos foram feitas em protesto contra o encerramento do Museu

A luta pela classificação

Paralelamente, desenvolvia-se outro processo, visando proteger o que estava ameaçado.

Em fevereiro de 2022 foi divulgado o projeto de decisão para classificar a Fábrica do Inglês como Monumento de Interesse Público. Paralelamente ao processo relativo aos edifícios, a Câmara Municipal de Silves prosseguia os esforços para garantir a proteção das coleções. Em 2023, a autarquia deliberou classificar a coleção do Museu da Cortiça como Conjunto de Bens Móveis de Interesse Municipal.

A decisão, publicada em Diário da República em junho de 2024, abrangia 683 objetos inventariados e 299 lotes documentais depositados no Arquivo Distrital de Faro.

Era o reconhecimento formal do valor excecional de uma coleção considerada uma das mais importantes do país no domínio da arqueologia industrial.

Uma decisão que o obreiro do Museu da Cortiça, Manuel Castelo Ramos, já não conheceu, por ter falecido em junho de 2022. Durante mais de duas décadas, lutou pela preservação de um conjunto patrimonial cuja importância ultrapassava a dimensão local.

O Museu e todo o complexo foram deixados ao abandono

 

 

Uma nova etapa

Durante mais de quinze anos, a antiga Fábrica do Inglês permaneceu encerrada. Apesar das sucessivas iniciativas de defesa do património, os edifícios continuavam sem utilização e a degradação tornava-se cada vez mais evidente. Foi em 2025 que começou a dar passos uma nova oportunidade.

As empresas Antrix e Carvoeiro Branco anunciaram a aquisição do complexo e apresentaram um projeto de recuperação avaliado em cerca de 25 milhões de euros.

Entre os objetivos anunciados figuravam: a recuperação dos edifícios históricos; a reabilitação da antiga Casa de Chá; a instalação de uma unidade hoteleira; a valorização dos jardins; e a reabertura do Museu da Cortiça.

O anúncio foi recebido com expectativa pela população e pelos especialistas em património. Pela primeira vez em muitos anos parecia existir uma solução capaz de devolver vida ao complexo. Na nova fase de recuperação do Museu da Cortiça, a coordenação científica foi confiada ao reputado historiador e especialista em património industrial Jorge Custódio, que, com Manuel Castelo Ramos, esteve envolvido no início do processo de constituição do museu.  A escolha foi um sinal evidente da vontade de respeitar a identidade histórica do conjunto e de continuar o trabalho desenvolvido anteriormente.

No dia 4 de julho realizou-se uma cerimónia de reabertura do Museu, dedicada às entidades oficiais, convidados e comunicação social.  Foi o primeiro passo para a nova vida do Museu.

A presidente da Câmara de Silves, Luísa Conduto, acompanhada pelos vereadores Maxime Sousa Bispo e Tiago Raposo, bem como pelo CEO da Antrix, proprietário da Fábrica do Inglês, Erik De Vlieger, e o diretor do Museu, Jorge Custódio m no dia da reabertura /Foto CMS/

 

 

Mais do que um museu

 

A história do Museu da Cortiça ultrapassa largamente a dimensão de um equipamento cultural. Ela cruza-se com a história da industrialização algarvia, com a memória operária de Silves e com a evolução da própria museologia industrial portuguesa.

Poucos museus nacionais conheceram um percurso tão singular.

Nascido de uma fábrica centenária, distinguido como o melhor museu industrial da Europa, ameaçado pela falência, pela dispersão do espólio e pelo abandono, o Museu da Cortiça tornou-se, ao longo das últimas décadas, um caso de estudo sobre os desafios da preservação do património industrial.

Mais do que um conjunto de objetos antigos, a antiga Fábrica do Inglês representa uma forma de compreender o trabalho, a tecnologia e a vida quotidiana de várias gerações. Para a cidade de Silves e para muitos dos seus habitantes, preservar o Museu da Cortiça é mais do que preservar um conjunto de objetos, trata-se de preservar uma parte essencial da memória da cidade e da história de muitas e muitas gerações de silvenses.

Interior do Museu da Cortiça – 4 de julho 2026

 

Museu da Cortiça abre portas ao público no dia 11 de julho

O Museu da Cortiça abrirá as suas portas à comunidade, no dia 11 de julho de 2026.

A participação no dia aberto requer inscrição prévia online, no site do Museu da Cortiça e está sujeita à disponibilidade de lugares.

A inauguração decorrerá entre as 18h e as 21h e incluirá o espetáculo “Ressonâncias — Concerto para contrabaixo e poesia contemporânea”, com Cristina Calvino e Zé Eduardo. O espetáculo cruza poesia contemporânea portuguesa com composições originais para contrabaixo, a partir de textos de autores como João Luís Barreto Guimarães, Andreia C. Faria, Cláudia R. Sampaio, Nuno Júdice e Herberto Hélder.

Segundo a informação disponibilizada no novo site do Museu (museudacorticasilves.pt), este estará aberto em dias selecionados durante os primeiros meses e a entrada será livre até ao dia 30 de setembro. Recomenda-se aos visitantes que façam reserva online.

Estão disponíveis visitas guiadas mediante reserva prévia, conduzidas por especialistas que contextualizam a história da indústria corticeira no Algarve e o legado patrimonial da Fábrica do Inglês. Para grupos escolares ou profissionais existem programas adaptados.

O Museu está aberto de segunda-feira a sábado das 9h30 às 13h. Recomenda-se também a consulta prévia do calendário, uma vez que o horário pode variar dependendo de obras a decorrer.

 

 

Cronologia essencial

1893 – Fundação da sociedade Avern, Sons & Barris & Gregório Mascarenhas.

1894 – Construção da unidade industrial que ficaria conhecida como Fábrica do Inglês.

1908 – Victor George Sadler assume a direção da empresa.

Décadas de 1920-1950 – Modernização e expansão da atividade corticeira.

1995 – Encerramento da produção industrial.

1998 – Início da musealização coordenada por Manuel Castelo Ramos.

1999 – Inauguração do Museu da Cortiça.

2001 – Atribuição do Prémio Luigi Micheletti para Melhor Museu Industrial da Europa.

2009 – Primeiros alertas sobre a situação financeira e os riscos para o espólio.

2010 – Encerramento da Fábrica do Inglês.

2013 – Denúncias de furtos e tentativa da Câmara Municipal de Silves de adquirir as coleções.

2014 – Venda separada dos edifícios e do espólio.

2016 – Reabertura do processo de classificação patrimonial.

2022 – Projeto de classificação da Fábrica do Inglês como Monumento de Interesse Público e falecimento de Manuel Castelo Ramos.

2023 – Deliberação municipal de classificação do espólio.

2024 – Publicação em Diário da República da classificação do conjunto de bens móveis.

2025 – Aquisição do complexo por novos investidores.

2026 – Início de uma nova fase de recuperação e preparação da reabertura do Museu

 

 

 

 

 

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PorPaula Bravo
Natural de S. Bartolomeu de Messines, nascida em 1963. Licenciada em Comunicação Social. Desde 1986, trabalhou em vários órgãos de comunicação nacionais e regionais. Dirigente associativa. Fundadora e diretora do Terra Ruiva desde abril de 2000.
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