Em comunicado divulgado hoje, dia 12 de maio, a atual equipa técnica responsável pela operação do Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico (CNRLI) em Silves, manifesta “profunda preocupação relativamente à forma e ao calendário previstos “ para a transição anunciada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que pretende assumir a gestão deste centro e, ao que tudo indica, dispensar a atual equipa.
O referido comunicado surge na sequência de uma notícia, ontem (11 de maio), publicada na revista Wilder. Na notícia é explicado que o CNRLI passa a ser coordenado por Alexandra Pereira, antiga diretora do Departamento do Bem- estar dos Animais de Companhia no ICNF.
Citando o ICNF, a revista afirma que este organismo pretende dar um novo rumo à conservação deste felino, internalizando o CNRLI a partir de 1 de junho e dispensando a equipa e seu coordenador que exerce essas funções desde que o centro abriu portas, em 2009.
Perante as intenções do ICNF, a equipa do CNRLI diz reconhecer que “cabe ao Estado português definir o modelo de gestão dos seus programas de conservação da natureza, mas consideram que “uma operação desta complexidade exige uma transição técnica, legal e operacionalmente segura, devidamente articulada com os parceiros ibéricos envolvidos no programa de conservação do lince-ibérico nos últimos 16 anos, com sucesso comprovado. “
Rodrigo Cunha Serra, coordenador do Programa Ibérico de Conservação Ex Situ para o lince-ibérico e responsável técnico pela operação do CNRLI ao longo dos últimos 16 anos considera que: “ O lince-ibérico em Portugal foi recuperado através de décadas de cooperação científica, técnica e institucional entre Portugal e Espanha. Estamos a falar de uma operação altamente especializada, permanente e sensível, que não pode ser substituída de um dia para o outro sem um plano robusto de transição”.
No comunicado, destaca-se ainda que “esta transição afeta diretamente 14 profissionais altamente especializados, alguns com mais de uma década de dedicação contínua ao programa de conservação do lince-ibérico em Portugal. Veterinários, tratadores, técnicos e especialistas que acumularam conhecimento único sobre comportamento, reprodução, maneio e recuperação da espécie e cuja experiência constitui hoje uma componente essencial do sucesso alcançado pelo programa ibérico.”
Para estes técnicos, sublinha “até ao momento, não foi apresentada qualquer solução formal que salvaguarde adequadamente os direitos, estabilidade e continuidade profissional”, sendo que também não é conhecida, “até ao momento, uma equipa técnica completa com formação específica para assegurar a operação integral do centro a partir de 1 de junho, dentro de menos de três semanas.”
No comunicado explica-se que o Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico, embora operacionalizado, desde 2009, pela empresa RCS – Serviços de Veterinária e Conservação de Espécies Lda. “sempre funcionou sob tutela, orientação estratégica e supervisão institucional do ICNF, no âmbito dos compromissos assumidos por Portugal no programa ibérico de conservação da espécie. O modelo operacional adotado ao longo dos últimos 16 anos foi feito à semelhança do que acontece noutros centros de reprodução do programa ibérico. A operação de um centro de reprodução desta natureza implica um funcionamento permanente, 24 horas por dia, 365 dias por ano, exigindo equipas altamente especializadas e modelos de trabalho adaptados à imprevisibilidade e exigência operacionais associadas ao maneio de uma espécie criticamente sensível.”
“O sucesso do programa de conservação do lince-ibérico sempre resultou de uma articulação entre instituições públicas, equipas técnicas especializadas e cooperação ibérica. A nossa prioridade absoluta continua a ser garantir a continuidade desse trabalho, proteger o bem-estar dos animais e salvaguardar o conhecimento acumulado por profissionais que dedicaram muitos anos das suas vidas a esta espécie.», acrescenta o comunicado.
Recorda-se ainda que “ o CNRLI integra o Programa Ibérico de Conservação Ex Situ do Lince-Ibérico, desenvolvido entre Portugal e Espanha, e representa uma das mais relevantes histórias de sucesso da conservação da natureza na Europa”. E que “quando o único centro em Portugal foi inaugurado, restavam menos de 150 linces-ibéricos em todo o mundo. Até hoje, nasceram mais de 180 linces-ibéricos só no centro de Silves e mais de uma centena de animais foram preparados para reintrodução na natureza”.
O centro tornou-se uma estrutura central do programa ibérico de reprodução e recuperação da espécie. Portugal passou de um cenário de extinção funcional do lince-ibérico para a existência de uma população reprodutora em meio natural.
“A operação do centro envolve atualmente: uma equipa técnica especializada de 14 profissionais; funcionamento permanente, 24 horas por dia, 365 dias por ano; animais em processos reprodutivos sensíveis; crias em acompanhamento permanente; animais clinicamente vulneráveis e em recuperação; articulação diária com estruturas e parceiros do programa ibérico.”
A equipa técnica mantém “total disponibilidade para colaborar numa solução legal, responsável e tecnicamente segura, que assegure a continuidade e estabilidade de um dos mais importantes programas de conservação da fauna europeia. “
LPN e WWF manifestam preocupação
Entretanto, a Liga para a Proteção da Natureza (LPN) e a WWF- Portugal, associações que integram a Comissão Executiva do Plano de Ação para a Conservação do Lince-Ibérico em Portugal (PACLIP) pediram esclarecimentos ao ICNF sobre as alterações previstas e manifestaram a sua preocupação quanto à substituição da equipa.
“Porque, do ponto de vista técnico, a reprodução em cativeiro de uma espécie e a sua ligação a um programa de reintrodução da vida selvagem não é algo banal. Mesmo para médicos veterinários não é um trabalho banal e, não menorizando, mas não é o mesmo que tratar cães e gatos. E isso preocupa-nos porque somos um país pequeno, não há propriamente muita gente especializada nesta matéria. Mas estaremos atentos a ver o que é que acontece.” disse à Wilder, Rita Martins, representante da LPN na Comissão Executiva do PACLIP.
Na opinião desta responsável, “embora isto seja do ponto de vista do ICNF uma questão de gestão interna, o CNRLI não deixa de ser uma peça fundamental do Plano de Ação para a Conservação do Lince ibérico em Portugal, uma peça fundamental também do trabalho que é feito a nível ibérico com Espanha na conservação desta espécie. Portanto estas alterações devem, na mesma, ser alvo de escrutínio público, não só pela comissão executiva, que não é pública.”










