A Foz da Ribeira de Alcantarilha, junto à Praia dos Pescadores, em Armação de Pêra, foi ontem, dia 23 de julho, aberta ao mar, por decisão da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), entidade responsável por este curso de água.
A abertura foi realizada por funcionários e maquinaria da Câmara Municipal de Silves, por pedido da APA, que não dispõe destes recursos.
A situação de grande seca que se verifica nesta Ribeira e em particular na zona referida, tem sido objeto de grande “burburinho”, principalmente nas redes sociais. A seca que se verifica causa não só um grande sentimento de desolação, constatado por todos os que ali se deslocam ou que atravessam o novo passadiço, recentemente inaugurado pela Câmara Municipal de Silves. Preocupante tem sido também assistir à enorme mortandade dos peixes que aí se encontravam, tendo a Câmara Municipal sido forçada a deslocar “todos os dias, dois funcionários para retirar os peixes mortos”, como afirmou ao Terra Ruiva, a vice-presidente da Câmara de Silves, Luísa Conduto Luís, a responsável pelo sector de Ambiente.
A vice-presidente, nas declarações ao nosso jornal, sublinhou que a autarquia de Silves não tem autoridade nem competência para intervir ou tomar decisões quanto à abertura ou não da Ribeira, o que é da competência da Agência Portuguesa do Ambiente, organismo com o qual a Câmara esteve em contacto permanente, no sentido de analisar qual a melhor medida a tomar.

Nas várias reações a esta situação, destaca-se o comunicado divulgado ontem pela associação Almargem, escassas horas antes da abertura da Ribeira, que falava da “situação dramática que regista desde há várias semanas na Foz da Ribeira de Alcantarilha, em virtude da carência hídrica extrema em que se encontra o troço final daquela ribeira”.
Em consequência da referida situação, “tem-se verificado uma enorme mortandade de animais, em particular de peixes, face a falta de água e a baixa concentração de oxigénio”, acrescentava a Almargem, dando conta dos contactos efetuados junto da Câmara Municipal de Silves a da Agência Portuguesa de Ambiente “ a fim de averiguar se as mesmas eram conhecedoras da dita situação , e nesse caso, que medidas tomaram e/ou que medidas tomariam com URGÊNCIA (a jusante ou a montante) de forma a evitar ou minorar esta preocupante situação”.
A Almargem recorda que “em anos anteriores, a lagoa tem mantido os caudais ecológicos, mesmo com bastante eutrofização, dado a ligação permanecer cortada, sobretudo em períodos na época estival” pelo que “não se compreende a situação atual e a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) entidade responsável, ter deixado atingir este ponto de rutura e morte sem agir”.
Sobre as causas desta seca, a vice-presidente da Câmara Municipal de Silves, explicou que a Ribeira de Alcantarilha não tem nascentes próprias, sendo alimentada por outros caudais, que este ano se encontram secos ou praticamente secos, pelo que se criou uma situação muito delicada, que não se limita à Ribeira de Alcantarilha. A abertura da foz da ribeira ao mar poderá minorar a situação, mas não se sabe até que ponto, nestes dias de seca extrema e de altíssimas temperaturas, e é certo que não resolverá o problema definitivamente.
Esta abertura ao mar poderá também agravar uma outra situação sobre a qual o Terra Ruiva já falou na sua edição do mês de julho, que é o facto de se terem já encontrado exemplares de caranguejo azul, no interior da Ribeira de Alcantarilha. Esta espécie invasora, que se encontra já amplamente espalhada por toda a costa algarvia, é conhecida pelas suas capacidades predadoras e a sua reprodução e existência no interior da Ribeira poderá vir a desequilibrar totalmente o habitat das espécies que aí habitam.
O Terra Ruiva pediu alguns esclarecimentos à APA, mas uma semana depois ainda não obteve qualquer resposta.

Há 3 anos à espera da Reserva Natural
No seu comunicado, a Almargem recorda “ainda a este propósito que a Foz Ribeira de Alcantarilha se encontra incluída na área proposta para integrar a futura Reserva Natural – cuja criação continua pendente por razões desconhecidas, volvidos mais 3 anos após a Consulta Pública da mesma.”
De igual forma, a Almargem “exorta as entidades com competência sobre esta área, a promoverem a urgente valorização (que não passe apenas por intervenções pontuais de cosmética), bem como classificação desta importante zona húmida, por forma a que recupere o seu enorme potencial numa área tão icónica que reúne valores naturais de relevância especial e que se prepara para receber nas proximidades uma “Área Marinha Protegida” (AMPIC da Pedra do Valado)”.






