A imprensa nacional, como os diários «O Século» e o «Diário de Notícias» (DN), foi parca em notícias sobre o impacte da revolução do 25 de Abril de 1974 em Silves, ao contrário do que aconteceu com outros concelhos do Algarve, como Faro, Lagos, Tavira ou Vila Real de Santo António.

Na edição de 26 de abril do DN uma notícia oriunda de Faro, datada da véspera, dá-nos nota de um dia normal, em toda a região. Segundo a mesma, os algarvios tomaram conhecimento do movimento que eclodira na madrugada, na capital, através do Rádio Clube Português, «registando-se absoluta calma entre a população». As aulas decorreram «quase plenamente», os estabelecimentos comerciais estiveram abertos, tal como as repartições públicas, apenas algumas instituições bancárias encerraram, a meio da manhã, as suas portas. Quanto a transportes, ferroviários e rodoviários, circularam normalmente. Dissonante terá sido «a corrida aos telefones para saber notícias de pessoas radicadas em Lisboa», ou a transmissão pelo Emissor Regional Sul, nos seus noticiários das 12:00 e das 19:30, de apenas conteúdos regionais, ocupando a restante emissão somente com música portuguesa.
Nesta sequência, o dia 25 de abril de 1974 terá sido, em Silves, igual a tantos outros dias normais e cinzentos do Estado Novo, que agora ruía em Lisboa. Nos jornais que consultámos, só a 3 de maio encontrámos referências ao concelho, todas relacionadas com as comemorações do 1º de maio. Refira-se que a 27 de abril foi decretado o 1 de maio como feriado nacional e, em resultado naquele dia os portugueses saíram massivamente para a rua, numa explosão de alegria, para celebrar livremente a data. O diário «O Século» inseriu na sua edição do dia 3, sob o título «o 1º de Maio comemorado em todo o país», duas pequenas notícias provenientes das freguesias de São Bartolomeu de Messines e de Armação de Pêra.
Sobre S. B. de Messines escreveu: «Com o maior civismo, um cortejo percorreu as ruas desta vila, exaltando o Movimento das Forças Armadas e apoiando os objectivos da Junta de Salvação Nacional. Em frente do Cine-Teatro João de Deus, diversos oradores usaram da palavra, sendo vibrantemente aplaudidos pelo povo».
Relativamente a Armação de Pêra publicou: “O povo aglomerou-se, no Largo da Fortaleza, numa grande manifestação de regozijo pela brilhante vitória das Forças Armadas e em comemoração do Dia do Trabalho. Falaram manifestando o júbilo de todos e prestando homenagem ao general António de Spínola e à Junta Militar, Luís Patrício dos Santos Ricardo e António Joaquim Penisga da Silva. O povo gritou o «slogan» já célebre: «O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO»”.
O «Diário de Notícias», na edição de dia 4, detalhou para Armação, que Luís Ricardo havia louvado a acção das Forças Armadas e da Junta de Salvação Nacional, enquanto António Silva, apontara as deficiências ao governo do passado e as esperanças que tinha no futuro. Mais informou, que: «o cortejo entusiástico dos manifestantes percorreu, em ordem, as ruas da povoação dando vivas a Portugal, ao novo Governo e ao chefe da Junta de Salvação, General António de Spínola».
Cinco dias depois, o mesmo jornal noticiou a primeira correspondência oriunda da sede de concelho, concretamente da autarquia. Assim, reproduziu na íntegra o telegrama enviado pelas autoridades municipais ao presidente da Junta de Salvação Nacional, desde logo felicitando-o «unanimemente» pela «histórica pacífica instauração Portugal regime liberdade e respeito». Referindo ainda que: «dada a circunstância desta Câmara haver sido nomeada e eleita vigência regime deposto», deliberara colocar o «mandato disposição Junta de Salvação Nacional mantendo todavia actividade seus membros manutenção vida administrativa concelho até constituição nova câmara».
Recorde-se que presidia aos destinos do concelho Carlos da Conceição Pinto, sendo vice-presidente José Duarte dos Santos Ortigão e vereadores Luís José Guerreiro Matoso, Manuel Martins Correia, João Salema Brígida e António Cabrita das Neves, que se mantiveram em funções até 18 de junho.
Na mesma edição do DN, surgem ainda duas notícias relativas a terras silvenses. A primeira intitulada “«Largo 1º de Maio, em Silves»”, descreve uma manifestação na cidade: «em jornada de grande emoção patriótica, o povo do concelho de Silves, reuniu-se em frente dos Paços do Concelho, vitoriando as nossas Forças Armadas, a Junta de Salvação Nacional, o general António de Spínola e o Movimento Democrático Português». Durante a sessão: «diversos oradores se dirigiram à multidão, que dentro da maior ordem e civismo, manifestou exuberantemente a sua alegria, gritando também contra a guerra colonial e contra a PIDE-DGS». Antes da mesma terminar, foi «decidido efectuar-se um cortejo que se dirigiu para um largo da cidade, o qual passou a denominar-se “Largo 1º de Maio”». Sendo a placa toponímica aposta naquele momento e logo descerrada, «tendo de seguida a multidão dado largas à sua satisfação dentro da maior ordem». Embora publicada no dia 9, esta manifestação ocorreu no dia 1 de maio.
A outra notícia prende-se com a freguesia de São Marcos da Serra: «presidida pelo dr. António Bernardino Ramos, realizou-se na sala da Sociedade Recreio e Instrução de S. Marcos da Serra, uma reunião de esclarecimento da comissão democrática local». Com a participação de vários oradores, coube ao Dr. José Dias dos Santos esclarecer «as bases fundamentais da democratização». Na sessão «foram enaltecidos os valores pela acção da Junta de Salvação Nacional, sendo, depois, entoado, por todos, o hino nacional, com vivas à democracia e à nação livre».
Foram estes os ecos do concelho de Silves difundidos nos jornais «O Século» e «Diário de Notícias» há 50 anos. A população do concelho, que sempre manifestara grande oposição «à situação» comemorava e regozijava-se com os novos tempos, livres da censura e da opressão do regime deposto.
Ps. Parabéns ao «Terra Ruiva» que nesta edição entra no 25º ano de publicação. Reconhecidamente agradecemos a todos os leitores que nos têm acompanhado, ao longo destes 24 anos.






