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História & PatrimónioSociedade

Pelos menires do vale, um passeio pelo passado na freguesia de Messines

Terra Ruiva
Última Atualização: 2022/Out/Sex
Terra Ruiva
4 anos atrás
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O programa de atividades das Jornadas Europeias do Património levou, este ano, um grupo de caminhantes a um passeio noturno pelos menires de Vale Fuzeiros- Vilarinha na freguesia de São Bartolomeu de Messines.

Num ambiente “quase celestial”, foram revelados os quatro menires, talhados no grés vermelho da região, que há milhares de anos escrutinam a serra algarvia.

A freguesia de São Bartolomeu de Messines tem uma vasta riqueza arqueológica e os menires de Vale Fuzeiros são um exemplo poderoso.

Menir em Vale Fuzeiros

Os quatro menires foram edificados pelas primeiras comunidades que habitaram a zona, há cerca de 6000 a 4500 anos A.C. Os solos férteis destes vales, com abundância de cursos de água, caça e de madeira, favoreceram o estabelecimento de povoados desde a Pré-História.

Encontram-se alinhados, em colinas próximas, o que não é muito comum no território português, mas este, o chamado “Alinhamento da Vilarinha”, é ainda mais raro por ser feito no sentido nordeste-sudeste, uma ocorrência única no contexto megalítico do Barlavento. São estruturas de cerca (ou mais) de dois metros de altura, de pedra vermelha, que se destacariam no alto dos montes castanhos. Mas a sua descoberta não é muito recente, talvez porque se encontravam derrubados e muito provavelmente deslocados do local original.

O arqueólogo Mário Varela Gomes, no 5º Encontro de Arqueologia do Algarve, que decorreu em Silves, em 2007, na sua comunicação, relatou a forma como estes menires foram descobertos. Segundo este arqueólogo, foi alertado, em 1979, para a existência de um menir, tendo-se dirigido ao local e confirmado a sua existência. O alerta foi dado pelo silvense José Luís Cabrita, pessoa que desenvolveu várias ações em defesa do património arqueológico do concelho. Deslocações posteriores de Mário Varela Gomes levaram à descoberta dos restantes menires.

Em 1988, aquando da prospeção realizada no âmbito do salvamento documental do património arqueológico e etnográfico da área a ser submersa pela barragem do Funcho foi encontrado o segundo menir da Vilarinha. Tinha sido removido por uma escavadora, possivelmente por alguém que procurava algum tesouro escondido. Por falta de condições de segurança no local, foi transportado para o Museu Municipal de Arqueologia de Silves, onde se encontra desde dezembro de 1994.

Durante esse trabalho foi identificado mais um menir, na mesma zona, por Luís Miguel Cabrita, técnico superior da Câmara Municipal de Silves.

Em abril de 2004, com a autorização do Instituto Português de Arqueologia, sob a orientação de Mário Varela Gomes, foram realizados trabalhos de campo junto aos menires da Vilarinha, totalmente financiados pela Câmara Municipal de Silves.

 

No entanto, estes trabalhos nada revelaram de novo, em termos de descoberta de artefactos, o que reforça a hipótese dos menires terem sido deslocados do local original, ou terem tido usos diferentes, ao longo dos milénios. Isto é também revelado pelas figuras inscritas nos menires que, segundo Varela Gomes, foram feitas em diferentes períodos, também durante o Calcolítico (III milénio AC) e em plena Idade do Bronze (II milénio AC).

Nestes, surgem os principais motivos iconográficos dos menires algarvios, associados às formas fálicas dos suportes, aludindo à criação e regeneração da vida, o grande paradigma das sociedades produtoras de alimentos.

O menir 3 apresenta a decoração mais complexa que se conhece no Algarve (Desenho de Mário Varela Gomes)

Num dos menires, o número 2, identificado em 1988, encontra-se uma decoração complexa, a mais complexa até agora descoberta no Algarve. Além das figuras serpentiformes, mais comuns, encontra-se no Alinhamento da Vilarinha, a rara representação de um machado e armas de arremesso, além de covinhas e linhas.

A sua inegável importância levou a que estes menires fossem classificados como Monumento de Interesse Municipal, pela Câmara Municipal de Silves, a 4 de julho de 2016.

E o que nos dizem estes testemunhos do passado?

Há menires em quase todo o mundo, erguidos por diferentes culturas. Pensa-se que eram usados em cerimónias religiosas, fúnebres e até para demarcação de território.

Mas, seja como for, a sua presença mostra-nos a existência de outros seres humanos que há milénios viveram nas nossas terras. Um legado que tem de ser divulgado e salvaguardado.

O percurso inclui a passagem por sepulturas escavadas na rocha

 

 

Como chegar

– Chegando à freguesia de São Bartolomeu de Messines, pela EN 124, procurar a aldeia da Amorosa. Circular no Caminho Municipal 1079 Pedreiras, até ao cruzamento que nos leva ao lugar de Vale Fuzeiros. Ao chegar à antiga escola primária de Vale Fuzeiros, inicia-se o Percurso Pedestre da Rota do Circuito Arqueológico da Vilarinha- Vale Fuzeiros. O mesmo tem uma extensão de 7,5 km e encontra-se demarcado, sendo atualmente um dos percursos arqueológicos que integram o Geoparque Algarvensis.

 

Este percurso, além dos menires, integra ainda a Necrópole da Pedreirinha, a Necrópole da Carrasqueira, a Necrópole da Fonseca, sepulturas escavadas na rocha vermelha, de diferentes épocas.

Início do percurso: 37º 15′ 07.26” N 8º 20′ 52.17” W

 

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