Em julho, cem anos depois de Gertrude Ederle ter sido a primeira mulher a atravessar o Canal da Mancha a nado, quatro mulheres fizeram a travessia em estafeta para a homenagear. Uma delas era de Alcantarilha.
Vi o filme Young Woman and the Sea e fiquei presa a uma frase. Diziam a Gertrude Ederle que ela não conseguiria. Que nenhuma mulher conseguiria. E ela respondeu, mais ou menos: “I’m gonna do it. Watch me.” Aquela frase fez-me pensar em todas as vezes que uma mulher tenta algo fora do comum e o mundo lhe diz, de mil maneiras, que não é para ela. Gertrude ouviu isso há cem anos. Eu, hoje, ainda o reconheço.
Nunca tinha pensado em nadar o Canal da Mancha. Nunca. Só a palavra “Mancha” me dava um arrepio. Não era a distância que me assustava – treino desde pequena. Era o desconhecido: a água escura, as marés, o frio, as alforrecas, tudo o que não se controla e muitas vezes nem se vê. Está só na nossa cabeça.
Foi a nadadora alemã Natalie Pohl quem plantou esta possibilidade em mim. Conhecemo-nos aqui no Algarve, onde ela passa os verões, e fomos nadar juntas. Ela já tinha feito as sete travessias mais difíceis do mundo. Eu organizava a Swim Party, uma prova de águas abertas de dez quilómetros na nossa costa, e convidei-a para nadar e contar as suas histórias. Pouco depois, foi ela que me perguntou: “Queres vir nadar o Canal da Mancha comigo e mais duas miúdas? Vamos assinalar os cem anos da Gertrude numa estafeta.” Disse que sim antes de perceber bem no que me estava a meter. Se ela achava que eu conseguia, quem era eu para duvidar?
Procurar o frio
A partir daí, organizei a vida à volta desse objetivo. Comecei a comer de forma diferente, a dormir melhor, a treinar sem fato no mar para me habituar ao frio. E descobri uma coisa que não esperava: a água fria, que tanto temia, tornou-se o meu maior alívio. Se conseguirmos controlar a respiração nos primeiros dois minutos dentro de água gelada, controlamos o sistema nervoso inteiro. Depois vem uma paz enorme – como várias sessões de terapia num só mergulho. Hoje procuro o frio de propósito.
Fomos quatro: eu, a Natalie Pohl, a Mariam BinLaden e a Jasmine Harrison. Elas já tinham feito coisas imensas – travessias noturnas, voltas ao mundo à vela, a costa inteira de Inglaterra a nado. Eu era a mais velha e, ainda assim, a mais inexperiente. Nunca tinha nadado à noite. O máximo que tinha feito eram 25 quilómetros num rio calmo, o Zezere. Usei a coragem delas emprestada, até a minha crescer o suficiente para ser maior do que o meu medo.
Atirar-me à escuridão
A minha última entrada na água foi às 00h44. Onze horas de barco, com ondas, vento e vontade de vomitar, tinham-me deixado exausta. De pé agarrada às escadas do barco, só de fato de banho, touca e óculos – ali não há fatos que protejam do frio -, senti o medo a tomar conta de mim. As outras gritavam: “Mariana, confiamos em ti.” O observador deu ordem de partida. Fechei os olhos e atirei-me à escuridão. Durante essa hora contei até cem, vezes sem conta, só para manter o corpo sob controlo. Não pensei em desistir. Nunca deixaria as três companheiras à minha espera.
Não sei explicar bem o que aconteceu depois. Só sei que, quando alargamos assim a nossa zona de conforto, nasce dentro de nós uma força que nos faz sentir quase invencíveis. Mudou a forma como me vejo e como vivo.
Doze horas depois de termos partido, foi a Mariam quem tocou na parede de França, a mim faltava-me pouco mais de um quilómetro quando terminou a minha última hora na água. Mas quando ela tocou, foi como se todas tivéssemos tocado. Não houve quatro travessias separadas. Houve uma só, feita por quatro corpos de mulheres que se revezavam.
Se uma consegue, todas podem
Talvez essa tenha sido a maior lição: sozinha, não sei se teria conseguido. Foi o não querer deixar as outras mal que me fez passar por cima do meu próprio medo. E é isto que sinto que mudou nestes cem anos: o medo e os obstáculos não desapareceram, mas há cada vez mais comunidades de mulheres a apoiarem-se, a mostrar umas às outras que, se uma consegue, todas podem.
Ao mesmo tempo, a força contrária – a que nos diz que temos limites, que não somos capazes – nunca desapareceu. Apenas mudou de forma. Foi assim com Gertrude há um século. É assim ainda hoje.

De volta a casa
Por isso, quando penso no que fica desta travessia, penso menos na proeza física e mais no que ela abre. E o que ela abre, para mim, é aqui, em casa.
Na Quinta do Rogel, em Alcantarilha, a terra da minha família, fundei a ANIMAME Algarve, uma associação dedicada à regeneração da terra, das pessoas e da comunidade. E foi daqui, deste chão e deste mar, que parti para o Canal. Agora quero trazer o Canal de volta. Estamos a criar na ANIMAME uma secção de natação em águas abertas, para que mais gente do concelho – e sobretudo mais mulheres e meninas – possa descobrir o mar que temos à porta, com segurança e em comunidade.
A Natalie já faz travessias em troca de donativos para construir escolas onde crianças aprendem a nadar e se evitam afogamentos. Gostava de dar continuidade a esse gesto, à minha maneira: chegar a mulheres e meninas que ainda não acreditam no seu próprio potencial. Não porque a natação seja um fim em si mesma, mas porque ir para o mar, sozinha com a nossa cabeça e os elementos, ensina algo que nenhuma sala de aula ensina: que atravessar o nosso medo é possível, e que isso se leva depois para o resto da vida.
Se um dia tiver de escolher entre formar uma campeã de natação e formar uma mulher que acredita mais em si própria, escolherei sempre a segunda. Gostava que, daqui a dez anos, houvesse mulheres e meninas a viver sem se diminuírem, sem pedirem licença para ocupar o seu espaço.
Antes de me atirar à água naquela noite, alguém me perguntou se tinha medo. Tinha, e ainda tenho, de muitas coisas. Mas aprendi que o medo, na maior parte das vezes, mora só na nossa cabeça. E que a melhor forma de o distinguir de um perigo real é ver outras mulheres irem à frente e mostrarem que é possível. Gertrude Ederle mostrou-o há cem anos. A Natalie mostrou-mo a mim. Espero poder ser eu a mostrá-lo a outras – a começar pelas raparigas e mulheres da minha terra.
Girl, we did it. E agora nada nos pode parar.
Texto de Mariana Moura Santos
Mariana Moura Santos é empreendedora social, Ashoka Fellow, nadadora de águas abertas, fundadora e presidente da ANIMAME Algarve e organizadora da Swim Party 10km. Uma versão deste texto foi publicada no jornal Público a 13 de setembro de 2026.


