Mariana Cabrita, de 37 anos, professora de Educação Física, treinadora de natação e atleta de triatlo, é não só a primeira presidente da Junta de Freguesia de Tunes após a sua desanexação da União de Freguesias de Algoz e Tunes, como também a primeira mulher a ocupar este cargo.
Natural de São Bartolomeu de Messines, bisneta de um ilustre messinense, o Dr. Francisco Neto Cabrita, vive desde a infância em Tunes e é a esta terra que a viu crescer que dedica toda a sua energia. Por acreditar que todos têm o dever cívico de contribuir para a comunidade aceitou o desafio de presidir à Junta de Freguesia de Tunes, acompanhada por “uma equipa de excelência” e por um elevado espírito de resiliência.
A Mariana Cabrita é, desde outubro do ano passado, a presidente da Junta de Freguesia de Tunes, independente eleita pela CDU, na lista “Unidos por Tunes”. Para quem não a conhece, quem é a Mariana?
Em primeiro lugar, sou a mãe do Tiago. Antes de sermos políticos temos a nossa vida pessoal, e o que me define não é ser presidente, nem ser professora, isso são cargos que vamos ocupando. O que me define, enquanto pessoa, é ser mãe do Tiago, ser algarvia, conhecer os nossos frutos secos, os figos, as alfarrobas, a essência das minhas origens, isso é o principal. Parte da minha família está diretamente ligada ao Algarve, nasci em São Bartolomeu de Messines, é a minha naturalidade, com muito orgulho, mudamos para Tunes quando eu tinha nove anos, e desde então vivo aqui. Os meus avós paternos eram de São Bartolomeu de Messines, os meus avós maternos de Tunes.
Gosto de ler, gosto de praticar desporto, ir ao teatro, conviver com os amigos, são estes os meus passatempos.
É o seu primeiro mandato enquanto presidente da Junta de Tunes, e com um pormenor interessante, é também a primeira mulher a ocupar este cargo, o que é relevante, mas o seu percurso político já começou há algum tempo.
Sim, fui presidente da Assembleia de Freguesia no primeiro mandato da União de Freguesias de Algoz e Tunes (2013-2017) o que me deu alguma experiência. Cumpri três anos desse mandato, mas acabei por renunciar, porque as minhas convicções e ideais políticos não estavam em convergência com o Executivo da altura.
Era eleita pelo PSD.
Sim.
Passados estes anos, o que a levou a candidatar-se na “Unidos por Tunes”, lista que concorreu pela CDU?
Noutras eleições já tinha recebido convites para regressar à política, mas quando temos uma experiência negativa é difícil voltar. Mas também achei que não me devia incompatibilizar com a política, porque, ao fim e ao cabo, a sociedade é dirigida pelo sistema político. Depois a CDU fez-me um convite e fiquei a ponderar.
A minha decisão foi tomada no dia em que entrei no jardim de infância, na sala do meu filho, e vi que estava a chover lá dentro.
Telefonei e disse que aceitava candidatar-me, com algumas condições, a mais importante era poder escolher a minha equipa, porque eu tinha de saber quem seria o meu braço direito e o meu braço esquerdo. Às vezes, as equipas feitas revelam problemas ao longo dos mandatos, e nós termos confiança nas pessoas que nos acompanham é extremamente importante. Assistimos a renúncias durante os mandatos, e a instabilidade, quando as listas são impostas e não são feitas pela pessoa que vai candidatar-se. Claro que as pessoas tiveram que se enquadrar dentro do perfil que a CDU estabelece, mas dentro disso tive autonomia e foi isso que me fez aceitar o convite. Neste momento posso dizer que a situação do jardim de infância está resolvida, portanto fico muito feliz.
Então vê a política como uma forma de intervir e uma possibilidade de melhorar o quotidiano.
Sim, porque eu moro aqui na aldeia, a minha família vive aqui e é aqui que o meu filho está a crescer. Quero, naturalmente, uma freguesia melhor para todos, com mais qualidade de vida e melhores condições para quem aqui vive.
A lista dos Unidos por Tunes, não vou dizer que causou sensação, mas próximo disso, porque é composta por muitos independentes e no jantar de apresentação teve a presença e apoio dos antigos presidentes da Junta de Tunes, do PSD. Criou a impressão de ser um movimento muito abrangente, estará relacionada com as divergências que houve em Tunes em relação à União de Freguesias?
Houve várias divergências e esse jantar dos Unidos por Tunes revelou precisamente essa situação. Naquele momento ninguém estava a pensar nos partidos políticos, as pessoas despiram as camisolas dos partidos, tiraram as bandeiras, e pensaram nas pessoas que se estavam a candidatar. Isso é perder as amarras e pensar num bem maior. Eu estive na lista, e continuo, como independente, e aceitei o convite da CDU também porque acredito nas pessoas do Executivo da Câmara Municipal de Silves, a minha confiança é em relação a elas. Também foram estas pessoas que contribuíram para a desagregação das freguesias, porque se não fosse a CDU o processo não tinha ocorrido e não tinha vingado. E isso para mim é muito importante.
Lembro-me da sessão que houve aqui nesta sala da Junta, com muitas pessoas a pedirem à Assembleia de Freguesia da União de Freguesias de Algoz e Tunes que aprovasse a desagregação das freguesias e o PSD e o Executivo da União a recusar. E só se conseguiu porque finalmente o presidente da Assembleia de Freguesia, do PSD, acabou por votar contra o seu partido. Foi um momento até um bocado dramático, com o sentimento que havia na sala.
Não tive oportunidade de estar presente, mas toda a gente diz que foi reveladora do descontentamento que existia.
Para Tunes, a união das freguesias nunca foi vantajosa.
A união de freguesias faz com que se perca identidade e a nossa cultura. Aquilo que define o Algoz, não é o que define Tunes. E é preciso termos um presidente muito isento para conseguir ter um equilíbrio entre as duas freguesias, isso é dificílimo, e se olharmos para trás vemos que Tunes ficou esquecido, o sentimento que a população tinha era de abandono. Chegamos à situação caricata em que o funcionário da Junta de Tunes tinha que ir ao Algoz levar atestados de residência e documentação para o presidente assinar. Porque o presidente não se deslocava a Tunes. E isso para mim é muito grave, as pessoas não têm que estar à espera desses documentos. Quando eu estou na Junta, os documentos são assinados e as pessoas levam na hora, e se isso não for possível é de um dia para o outro.
Tunes tem uma grande história de luta pela constituição da freguesia, é a freguesia mais jovem do concelho, e teve de lutar depois para a desanexação do Algoz. E chegando hoje a este ponto, quais são os maiores desafios que a Junta tem?
Uma situação é facto da população, por vezes, não distinguir quais são as competências da junta de freguesia, as competências da câmara municipal e quais são as competências das entidades que são os pilares da nossa sociedade. A Junta de Freguesia não se pode substituir à GNR, ao Centro de Saúde, a Junta de Freguesia é um veículo para entrar em contacto com a Câmara Municipal e articular serviços mas também não nos podemos substituir aos serviços camarários. Esta falta de conhecimento, acaba por sobrecarregar os serviços com situações que não são da nossa competência e faz com que outras, que são, possam ficar para trás, porque estamos ocupados.
As pessoas, qualquer problema que exista, recorrem logo à Junta ou à Câmara, quer para pedir ajuda, quer para as responsabilizar pelos problemas. O Poder Local é visto como aquele que tudo pode e tem obrigação de resolver tudo.
Exatamente, é a Junta e a Câmara. Mas as competências estão bem definidas, todas as juntas do concelho fizeram a assinatura do contrato interadministrativo que delega as competências nas juntas de freguesia. A Junta de Freguesia de Tunes tem a responsabilidade da limpeza urbana, da gestão do cemitério e dos serviços administrativos.
Tudo o que seja em grande escala, os arranjos dos arruamentos, o saneamento, os serviços de água, os jardins, todos esses serviços são de responsabilidade camarária. Mas também faz parte do nosso trabalho esclarecer. A Junta de Freguesia tem que ter um papel de proximidade com a população, também temos de esclarecer e educar, para que as pessoas saibam a quem têm que se dirigir para resolver determinados problemas.
E qual o maior problema que enfrentam?
O lixo. O lixo é uma problemática muito complicada, não só para a freguesia de Tunes, mas para todo o concelho. Nós vivemos numa sociedade cada vez mais consumista, somos bombardeados todos os dias pelo marketing publicitário para consumir isto, consumir aquilo, o problema dos resíduos e monos é cada vez maior. Isso nota-se muito na recolha ao domicílio, as pessoas mudam de colchão, mudam de cama, mudam de eletrodomésticos, a duração dos móveis e dos equipamentos não é a mesma, estamos sempre a entrar na espiral do lixo. Tudo contribui para a produção de lixo.
Depois temos as situações em que as pessoas põem uma caixa de cartão fora do papelão e não têm consciência que alguém vai ter de a recolher, alguém vai ter de a desfazer para a por lá dentro. E é uma pessoa que é paga por todos nós, com recursos financeiros de todos nós, que vai ter de desfazer a caixa e colocá-la no sítio certo. Isso está errado. Colocar o lixo no depósito correto é responsabilidade de cada um, e esta falta de civismo faz com que o funcionário da Junta tenha de andar com frequência a corrigir estas situações. Em vez de estar a fazer outros trabalhos necessários à freguesia, como as manutenções, cortes de arvoredo, a manutenção das estradas, a reposição do alcatrão, o funcionário é desviado para fazer este trabalho. E enquanto as pessoas não tiverem consciência do que estão a fazer, é muito difícil a Junta de Freguesia contrariar esta tendência e todos somos afetados.
Temos um funcionário que faz recolhas ao domicílio, mas nas segundas feiras o trabalho dele é andar à volta dos Molock para recolher o lixo que é depositado na rua, porque as pessoas fazem as limpezas ao fim de semana. E temos uma situação complicada com descargas de resíduos de obras, são feitas em zonas específicas de pouca visibilidade, estes contentores são escolhidos a dedo. Isto cria muitos problemas, porque não temos capacidade para fazer essa recolha, não temos um camião com pinça, para, por exemplo, recolher um saco de entulho. Nem temos mão de obra suficiente para fazer este tipo de recolha, e resolver o problema. Aqui, em Tunes, já conseguimos melhorar bastante a situação do lixo. No outro dia desloquei-me à Câmara Municipal e fizemos a relocalização de alguns contentores. Eu também não posso estar à espera que a Câmara me venha resolver os problemas, tenho que informar sobre os problemas que temos, porque eles também não vão adivinhar, tem que haver uma relação de trabalho de equipa para que as coisas funcionem e eu desloco-me à Câmara as vezes que forem necessárias para resolver os problemas da minha freguesia. Até porque se eu não me manifesto, vão considerar que está tudo bem.
Quais são os meios financeiros e humanos da Junta de Tunes?
O nosso orçamento é perto de 250 mil euros (249.884,46€). Nos recursos humanos temos dois funcionários administrativos e cinco funcionários operacionais. Tivemos recentemente uma alteração no nosso quadro de pessoal, que era bastante necessária porque estávamos com um quadro de operacionais muito reduzido para a freguesia que temos.
Porque as pessoas pensam em Tunes, mas esquecem-se da periferia, Tunes não é só o centro, temos muitas zonas à volta que também precisam de assistência.
E o quadro de pessoal é reduzido para essas necessidades. Por exemplo, temos duas pessoas que fazem as limpezas da rua, quando uma vai de férias a outra fica sobrecarregada, temos uma outra que anda com a carrinha, faz as recolhas ao domicílio, quando está de férias tenho de tirar um dos outros elementos de outro local, para o substituir. Gerir os recursos humanos é como um jogo de xadrez, é andar a tirar de um lado para o outro, sem perder a direção.
E também temos uma questão operacional que muitas vezes não é avaliada, porque a linha do comboio acaba por fazer uma divisão na freguesia e causar problemas na distribuição dos recursos. Por exemplo, eu tenho um glutão na parte de cima de Tunes mas não tenho na parte de baixo, e não consigo fazer o transporte do glutão de um lado para o outro porque temos a linha do comboio e as passagens que temos são as duas aéreas, a nível operacional isso levanta questões. E temos um armazém que fica entre as linhas de comboio. Este armazém é um dos nossos problemas, não é suficiente para os materiais que temos, precisamos muito da sua substituição.
E precisamos urgentemente de fazer uma intervenção no cemitério, porque o cemitério foi uma das coisas que ficou esquecida, e neste momento temos várias rachas por cima das catacumbas. Preocupa-me bastante a aproximação do inverno e que a chuva possa provocar danos. O cemitério é um local muito delicado, muito sensível e precisamos de intervir urgentemente. Esta é uma das coisas que me escandaliza, como é que foi possível deixar chegar a este ponto, em que, durante anos, o cemitério só recebeu remendos.
Só desejo que o próximo presidente da Junta não receba uma herança como aquela que eu recebi, porque o que eu não quero para mim, não quero para os outros.
E acredito que a forma como irei deixar o cemitério e a Junta será muito diferente, que tudo estará em condições para receber os próximos eleitos para que não tenham que enfrentar as mesmas problemáticas que eu recebi. Este é um dos princípios da minha filosofia de vida, é fazer o melhor possível.
A nível de veículos, quando houve a divisão de recursos da União das Freguesias, ficamos com uma carrinha que já era pertencente à junta de Tunes, essa carrinha era irrecuperável, tivemos que a abater. Temos uma carrinha que foi oferecida pela Câmara Municipal, que está na recolha do lixo doméstico, se avariar teremos problemas em cumprir esse serviço, porque não é na outra que temos, de caixa fechada, que também se encontra em mau estado, que consigo fazer essa recolha. A Câmara Municipal já disse que irá distribuir viaturas pelas freguesias, consoante as necessidades de cada uma, e isso irá ajudar bastante. É muito bom que a Câmara tenha tido essa sensibilidade e vá ajudar as juntas, porque os veículos são bastante importantes.
Quais os principais objetivos que tem para este mandato, iniciado há quase um ano. E os sonhos, quem sabe?
Eu não posso querer que Tunes tenha um aeroporto, os nossos objetivos têm de ser atingíveis, num mandato de quatro anos, que é o tempo para o qual fomos eleitos e daí para a frente não posso fazer futurologia, Mas o maior é conseguir que a Junta de Freguesia de Tunes fique com os meios que deve ter, com recursos humanos, recursos financeiros e recursos materiais para que quem venha de futuro consiga ter capacidade para gerir a Junta de forma equilibrada e que não encontre as problemáticas que encontramos quando aqui chegamos.
Um dos problemas que temos em Tunes, é não termos uma sala polivalente.
temos um polidesportivo que é ótimo que tenha aparecido, até porque temos dois clubes de atletismo que o utilizam bastante, é bastante importante a estrutura que ali foi criada, mas não temos nenhuma sala polivalente que possa receber atividades. Recebemos aqui na sala da Junta de Freguesia, tudo o que é possível. Iniciamos o programa Tunes Ativo que tínhamos no nosso programa eleitoral e está a ser concretizado. Uma parte está a ser desenvolvido na rua, que é a parte das caminhadas, mas as aulas de Pilates têm que ser dadas na sala da Junta, o que nem sempre é fácil, implica alguma articulação com outras atividades, às vezes não pode haver aula nesse dia porque há assembleia de freguesia. A sala da Junta não é o espaço mais indicado para muitas atividades que aqui se fazem, mas consideramos que é melhor fazer alguma coisa do que não fazer nada. Mas seria muito importante termos uma sala polivalente, multiusos, para desporto, para um espetáculo.
Tunes é uma freguesia que pode atrair novos habitantes?
Tunes tem uma particularidade, divide o Barlavento do Sotavento, estamos mesmo no centro. Temos a A22 a dois minutos, temos a estação dos comboios que é uma grande mais-valia, Tunes tem uma excelente localização. Agora se vamos falar de outros requisitos, temos que ver que estamos numa aldeia que dista 25 quilómetros da sede do concelho. Tudo vai depender daquilo que as pessoas procuram e dos serviços que pretendem ter à volta. Temos de ter consciência do que temos à nossa volta e da distância a que estamos da sede do concelho, são 25 quilómetros para lá, mais 25 para cá, são 50 quilómetros, temos que ser realistas. Se procuramos umas piscinas municipais, temos em Silves a 25 quilómetros, ou em Albufeira a 12 quilómetros…Esta distância tem significado, e uma parte dos alunos de Tunes vai para escola em Albufeira…
A nível económico, a zona industrial de Tunes cresceu, não é como a do Algoz, mas estamos a falar de vários armazéns com atividades e isso é importante. A nível habitacional existe construção neste momento, é visível, mas o problema da habitação é geral, ficávamos aqui a falar dele toda a manhã.
Uma das coisas que me preocupa na freguesia é que vejo a população de Tunes muito envelhecida
vendo a situação que acompanhei, do meu avô, preocupa-me não haver uma resposta social que consiga dar resposta à terceira idade. Isso para mim é uma preocupação muito grande, embora eu seja jovem, mas não o vou ser sempre, todos os dias estamos a envelhecer, e não nos podemos esquecer do que será o nosso futuro, se tudo correr bem. E olho à minha volta e vejo muitas pessoas nesse percurso, muitas não têm família, ou as famílias não têm capacidade para dar resposta. Esta é uma problemática a nível nacional e o Estado desresponsabiliza-se desta situação, que é um problema de todos, porque as famílias não têm capacidade de pagar 2000 euros para um lar, para dar um envelhecimento digno ao seu familiar. Esta é a realidade. E há muitas pessoas que trabalharam toda a vida e que descontaram e que vivem agora situações muito complicadas. Aqui em Tunes já houve, em tempos, uma movimentação da população para que fosse criado um centro de dia e eu acredito, tenho esperança e pretendo trabalhar nesse sentido. Sei que é muito difícil, mas não podemos deixar de acreditar, é muito importante encontrar soluções. O facto de haver um centro de dia não será uma resposta total, mas ajudará e bastante e nós temos que fazer alguma coisa porque a nossa população precisa de ajuda e isso preocupa-me. Muito.
Quando chegar ao final do mandato, o que gostava de ouvir dizer sobre a sua atuação?
Acho que há um grande problema na política, há quem pense que isto é um emprego, e não é. Eu sei perfeitamente qual é a minha profissão e eu estou a exercê-la, e estou a meio tempo na Junta de Freguesia. E quem exerce este tipo de cargos deve entender que é um cargo temporário, não pode pensar nisto como a sua profissão e passar a depender da Junta de Freguesia para pagar as suas contas.
Quando as pessoas começam a depender financeiramente dos cargos políticos e a pensar que o cargo é um emprego não é um bom sinal.
Essas pessoas ficam comprometidas, porque pensam que têm de fazer isto e aquilo, mesmo que não seja o mais correto, porque têm de pensar em como vão angariar votos para serem de novo eleitas. Eu não penso assim. O meu mandato é para quatro anos e eu tenho de estar aqui isenta, tenho de agir em consciência, descomprometida, não posso estar a agir na base do medo de como é que as pessoas vão votar daqui a quatro anos. Não posso trabalhar assim e tanto que é assim que eu vou para a escola todos os dias e venho para a Junta todos os dias.
É difícil ser presidente a meio tempo.
Sim, é duro. Mas a pessoa não se pode esquecer que tudo tem um princípio, um meio e um fim. Eu tenho a minha profissão e este cargo é um dever cívico que assumi com responsabilidade e consciência e a pensar em todas as pessoas que depositaram a sua confiança em mim, isso é que é o principal. Não dependo da Junta de Freguesia para sobreviver.
E isso dá liberdade.
Sim. E acho que os eleitos deviam pensar todos assim, embora seja difícil, a minha postura não é para todos,
Mas gerir uma Junta de Freguesia é difícil, a Junta é aquela entidade a que toda a gente recorre e é difícil, as reclamações, os pedidos… de certeza que cada vez que a Mariana sai à rua encontra uma pessoa que lhe fala de algum assunto.
Eu acredito que a organização é fundamental. Os funcionários da Junta quando chegam, às 7h da manhã, não ficam parados à espera que eu venha dar indicações. Às seis da manhã, eu envio as ordens de serviço aos funcionários, quando eles chegam sabem o que há para fazer. Quem não planeia, planeia falhar, sempre ouvi dizer isto. A Junta de Freguesia tem de funcionar como um relógio e é possível exercer a meio tempo, desde que as pessoas sejam organizadas e saibam qual o rumo que o barco tem de tomar. E eu tenho também uma equipa de excelência, desde os funcionários, às pessoas que me acompanham.
Eu tenho uma equipa de excelência, nem todos podem dizer isto, e tenho todo o gosto em que o escreva na entrevista.
Portanto, o que deseja no final do mandato é cumprir os objetivos definidos?
Eu consulto com frequência o programa eleitoral da nossa lista, aquilo com que me comprometi e espero chegar ao final do mandato e ver, ponto por ponto, o que foi cumprido. E caso aconteça não ter sido cumprido, justificar à população porque é que isso aconteceu. Porque foi nesses compromissos que as pessoas votaram. Foi na pessoa também e por acreditarem nas suas capacidades, mas também no programa eleitoral e isso para mim é importante.
E acredito que podemos conseguir os nossos objetivos, com organização e resiliência.
No trabalho da Junta é importante estarmos sempre um passo à frente. No ano passado, tivemos de criar tudo de novo, organizamos o mercado de Natal num mês e meio, mas agora já estou a pensar na assembleia de freguesia do mês de dezembro, já estamos a preparar os pedidos para o mercadinho de Natal, já estou a pensar na comemoração do Dia da Criança. Há muitas coisas em que andamos a correr atrás do prejuízo, agora estou a pensar no telhado que tenho que por no cemitério, por cima das catacumbas, antes que comece a chover, porque também temos que antecipar as situações. É importante estarmos um passo à frente.
Eu faço triatlo, corro, ando de bicicleta, é uma forma de desligar do dia a dia, e desligo mas não desligo, porque é nessas alturas que tenho muitas ideias, o desporto é um factor que me equilibra.
Nunca houve nenhuma prova desportiva na minha vida em que eu tivesse desistido.
É evidente que temos que compreender os sinais do nosso corpo e não comprometer a nossa saúde por causa da nossa burrice mental, mas eu nunca desisti, porque existe resiliência, existe capacidade. Todas as experiências que já tive, já passei por várias situações, isso contribuiu para a pessoa que sou hoje e o facto de haver resiliência. Quem já fez um triatlo 70.3 que é 2 km a nadar, 90 km a pedalar e 21 km a correr, tem de ser uma pessoa mentalmente muito forte e isso considero que sou.
E ainda tem tempo para treinar e entrar em competições?
Treinei antes de vir hoje de manhã para aqui, treino todos os dias, e ainda dou aulas online e sou treinadora de natação (com especialização em bebés e crianças). E agora vou participar, já me inscrevi, na prova Ironman 70.3 que vai haver em Vilamoura, em abril de 2027, é a primeira vez que esta prova se realiza no Algarve (prova de triatlo com 1,9k, natação, 90 km ciclismo e 21,1 km de corrida). Uma coisa que eu costumo dizer é: quando eu estiver morta bato no caixão para sair, e penso às vezes é desse espírito que a sociedade tem falta.









