No início do mês de fevereiro de 2026, o Município de Silves formalizou um acordo de cooperação com o proprietário de prédios rústicos “com património geológico, histórico e cultural de elevada relevância”.
O objetivo principal é a salvaguarda da Necrópole da Amorosa ao mesmo tempo que se criam condições para que possa ser visitada.

Em junho de 2016, o local foi classificado pela Câmara Municipal de Silves, como “Sítio de Interesse Municipal”, mas com este acordo a autarquia pretende ir mais longe.
“Trata-se de um passo decisivo para a valorização deste património geológico e arqueológico, através da requalificação do seu acesso, da disponibilização de informação sobre este sitio arqueológico e do reforço das condições de segurança e acessibilidade, com vista à sua visitação e interpretação por investigadores, escolas, famílias, visitantes e público em geral”, declara a Câmara Municipal de Silves.
Não esquecendo que este território faz parte integrante do Geoparque Algarvensis.
Para já, para chegar às sepulturas, é necessário ter perna rija e equilíbrio para não tropeçar nas pedras e na vegetação, subindo pela vereda que vai cerro acima, no sítio das Pedreiras, a cerca de um quilómetro da aldeia da Amorosa, na freguesia de São Bartolomeu de Messines.
Uma vez chegados ao destino, encontramos as marcas de um passado bem distante. As cavidades escavadas na rocha, no característico grés de Silves, para servirem de sepultura aos habitantes de uma comunidade que por ali terá vivido no período da Alta Idade Média, entre os séculos VI-VII d.C. .
A chamada Necrópole da Amorosa é composta por 18 sepulturas, divididos em dois núcleos, um com 13 sepulturas e o outro com 5, separados por um caminho. Uma parte das sepulturas apresenta fraturas, mutilações e amputações recentes, provocadas pela maquinaria agrícola pesada que terá sido utilizada aquando da construção de plataformas para a plantação de eucaliptos.
Grande riqueza arqueológica
A Necrópole da Amorosa não é a única na freguesia de São Bartolomeu de Messines, que é considerada uma das mais ricas em património arqueológico no Algarve, com vestígios de presença humana desde os tempos pré-históricos.
Aqui, numa área reduzida, entre as aldeias de Vale Fuzeiros e Amorosa, encontram-se as necrópoles da Amorosa, da Carrasqueira e da Forneca.
Esta riqueza foi alvo da atenção de alguns arqueólogos, nomeadamente do silvense Luís Miguel Cabrita que, além de proceder a escavações, publicou a obra “Povoamento Alto Medieval de São Bartolomeu de Messines” , um trabalho resultante da dissertação efetuada no âmbito do Mestrado em História e Arqueologia Medieval, promovido pelo Departamento de História da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Uma obra editada com os apoios da Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines e Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de SB Messines e São Marcos da Serra. A sua leitura e consulta fornece informação muito interessante e detalhada sobre este património da freguesia de São Bartolomeu de Messines, que seria importante aprofundar e desenvolver.
A ausência de espólios materiais que possam ter sido depositados junto dos corpos, possivelmente em consequência da violação dos túmulos em épocas já recuadas, dificulta ou impossibilita uma maior compreensão da forma de vida destes nossos antepassados. Sabe-se que parecem privilegiar os topos ou as vertentes expostas a Sul das elevações que não superam os 200 m. de altitude, nos cerros da Forneca, Pedreiras, Pedreirinha, Amorosa e Castelo e que se instalavam em locais com presença da água. As planícies mais ou menos extensas que se encontram junto às referidas elevações, permitiam uma agricultura intensiva e a serra, a Norte, oferecia a caça e a madeira como material de construção e combustível para aquecimento.
Segundo Luís Miguel Cabrita, a prática funerária que se encontra nestes penedos parece ter persistido com a cristianização dos territórios do sul da Península Ibérica, mas o início da islamização em 711 terá alterado estas práticas, sendo provável que as sociedades parentais, que se dispersavam pelo território, tenham abandonado esse modo de viver, agregando-se a uma comunidade mais ampla, com indícios de urbanidade.




