A Sociedade de Instrução e Recreio Messinense, fundada a 24 de fevereiro de 1929, festeja o 97º aniversário, com um programa de atividades.
O programa começa na sexta-feira à noite, dia 27 de fevereiro, com a Tertúlia “O Papel das Associações na Dinamização Cultural das Comunidades Locais”, com a participação da Associação Moce, (Maria Lopes); Teia d’ Impulsos (Luís Brito); e Confederação das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto (Tiago Custódio).
No sábado, dia 28 de fevereiro, haverá, pelas 15h, a inauguração da exposição “in natura” de Sofia Mil-Homens e Rita Afonso.
Segue-se pelas 15h30, um concerto com Paulo Pires e Cátia Alhandra.
Pelas 16h30, cantam-se os Parabéns à “menina Sociedade”, com um Bolo de Aniversário.R
À noite, pelas 21h, o Grupo de Teatro Penedo Grande estreia o seu novo trabalho, a peça “O Meu Caso”, de José Régio.
O programa encerra no domingo, com a Caminhada “Juntos pela Natureza”, com início pelas 8h30.
Programa do 97.º Aniversário
Sexta 27/02
21:00 — Tertúlia “O Papel das Associações na dinamização cultural das comunidades locais”
Sábado 28/02
15:00 — Inauguração da exposição “in natura” de Sofia Mil-Homens e Rita Afonso
15:30 — Concerto de Paulo Pires e Cátia Alhandra
16:30 — Bolo de aniversário
21:00 — Teatro: Grupo de Teatro Penedo Grande apresenta “O Meu Caso”, de José Régio
Domingo 01/03
08:30 — Caminhada “Juntos pela Natureza”









Recordo com certa nostalgia a “Sociedade” do meu tempo, sediada no primeiro andar do prédio de gaveto, entre as Ruas João de Deus e a Sacadura Cabral.
Permita-se-me que respigue alguns pequenos excertos de um trabalho que eu próprio redigi …
Era nela que tinha lugar o verdadeiro centro cívico da terra.
Era nela que, ao início de cada noite, após o dia de trabalho, se reuniam os messinenses para ouvir música, ler, jogar as cartas ou bilhar ou, simplesmente, para confraternizar e trocar ideias.
Dela guardo, no mais fundo do meu coração, as melhores recordações de infância.
Nela, na “Sociedade”, se reuniam as verdadeiras forças vivas e produtivas da terra, aquelas que, verdadeiramente, criavam a riqueza, com o esforço do seu trabalho, de que destaco a chamada arraia-miúda, os pequenos comerciantes, artesãos e profissionais das mais variadas artes, assim como democratas de diferentes origens e tendências políticas.
Recordando a “Sociedade” da minha infância, havia, a meio da sala principal, junto à parede, uma velho e enorme aparelho de rádio, tipo móvel.
Na sua frente, à volta, em semicírculo, quatro ou cinco cadeirões de braços, fabricados apenas em madeira, baixos, com os assentos oblíquos e reclinados para trás, ofereciam o convite de um bom descanso, enquanto se ouvia música.
Cada sócio era livre de sintonizar o canal de preferência, sendo que nunca tive conhecimento de disputas, uma vez que se respeitava a opção tomada por outro consócio anterior, aproveitando-se os momentos em que ninguém ouvia a rádio para se fazer a mudança para outra estação, se assim se entendesse.
Recordo-me que o meu pai costumava sintonizar estações de rádio, do norte de África, visto que apreciava ouvir música de toada árabe.
Quem sabe se por algum apelo genético …
Vivia-se o tempo em que Portugal foi, várias vezes, campeão do mundo em hóquei em patins – títulos que repartia com a Espanha e, episodicamente, com a Itália -, sendo frequentes os resultados de quinze ou vinte a zero com que presenteava alguns dos países mais fracos na modalidade, algo que, hoje, já não se verifica …
A Espanha e a Itália eram as nossas grandes rivais, pelo que, no calendário dos jogos, os encontros envolvendo Portugal, Espanha e Itália eram sempre os últimos, visto que era o seu resultado que decidiria o vencedor.
Os nossos heróis, verdadeiras lendas do hóquei em patins, eram :
1 – Emídio Pinto (o melhor guarda-redes do mundo)
2 – António Raio (defesa, tipo muralha)
3 – Edgar (defesa, idem)
4 – Jesus Correia (avançado, um mago sobre os patins)
5 – Correia dos Santos (capitão da selecção, o melhor avançado do mundo e o grande marcador da equipa nacional)
Esta era a equipa básica, tendo como suplente Sidónio Serpa, outro exímio jogador.
José Prazeres era o treinador.
Recordo-me igualmente dos nomes da temível equipa principal espanhola, formada por patinadores de excelência :
1 – Zabalía (um guarda-redes de excepção e quase inultrapassável)
2 – Orpinell (porventura, o melhor defesa do mundo)
3 – Boronat (defesa excelente)
4 – Puigbó (avançado brilhante)
5 – Roca (idem)
Abaixo, gravação, para quem quiser aceder, de uma emocionante final, entre Portugal e Espanha, nos anos 60, que Portugal venceu por 2 – 1, de um Campeonato Mundial de Hóquei em Patins, no Pavilhão de Desportos do Palácio de Cristal, no Porto (a selecção nacional equipa de camisola branca e vence)
Final do Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins – RTP Arquivos
Por norma, no meu tempo de catraio, eram Artur Agostinho ou Amadeu José de Freitas os relatadores dos jogos.
Quando o nosso país marcava na baliza espanhola, era o delírio.
Todos, em uníssono, gritavam e saltavam, dando largas à sua alegria.
Porém, na inversa, sempre que a Espanha marcava, era o silêncio, um silêncio pesado e custoso de suportar.
Uma outra distracção imperdível, por esses tempos – finais dos anos 40 –, eram os relatos, pela rádio, dos jogos do Campeonato Nacional de Futebol, designadamente entre os eternos rivais Sporting e Benfica.
Não existiam ainda as famigeradas “SADS”, que vieram corromper o verdadeiro ideal do desporto pelo desporto, trocando-o pelas espúrias negociatas dos milhões …
Todos os encontros, sem excepção, tinham lugar aos domingos e à mesma hora.
Nesta modalidade, na equipa do Sporting, pontuavam os imortais e míticos “Cinco Violinos”, o quinteto que formou a mais temida linha avançada de sempre do futebol português, cuja principal característica era o sentido de conjunto, pelo que constituíam uma frente demolidora para qualquer defesa.
Falar de “Os Cinco Violinos” – Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano – é falar de magia, talento lendário, futebol-espectáculo, futebol de ataque, golos, muitos golos …
Eis as habituais formações dos dois principais rivais, desses tempos heróicos:
SPORTING: Azevedo; Álvaro Cardoso e Manecas; Octávio Barrosa, Canário e Veríssimo; Jesus Correia, Manuel Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano.
Treinador: Robert Kelly
BENFICA: Pinto Machado; Teixeira e Félix; Jacinto, Moreira e Fernando Ferreira; Espírito Santo, Arsénio, Julio, Baptista e Rogério.
Treinador: Janos Biri
Encontrei, certa vez, o Travassos, na Avenida da Igreja, em Lisboa, já um pouco idoso e vestindo um casaco bastante coçado.
Dirigi-me a ele, na qualidade de um dos grandes ídolos da minha infância.
Falámos um pouco sobre vários assuntos e, no final, perguntei-lhe :
“Travassos, você, que deu tantas tardes de glória ao Sporting e o primeiro jogador português a ter a honra de integrar a selecção do Europa, foi, porventura, um dos maiores do futebol português, de todos os tempos, não tem do seu antigo clube nenhum apoio ?”
Baixou a cabeça e não me respondeu.
O seu manifesto gesto de desgosto foi significativo, pelo que respeitei o seu silêncio e não insisti.
Por aqui fica este meu breve apontamento do que constituiu, nos meus tempos de menino, a “Sociedade” para toda a comunidade messinense, algo muito diferente da função que hoje desempenha a sua sucedânea, instalada no nr. 27 da mesma Rua Sacadura Cabral..
Não pretendo estabelecer aqui qualquer relação de qualidade entre uma e outra.
Sabemos que os tempos são diferentes, porém, só verdadeiramente sabe aquilatar dessa diferença quem conheceu os funcionamentos de uma e de outra.
Falo nessa qualidade e, permita-se-me o desabafo, sem qualquer acrimónia, a diferença é abissal …