Daniel Vieira
In Memoriam
Ao cair da noite estás em Alte, e cais
Nos braços dos teus amigos
Como estranha flor que desperta com o riso
In Ode à Serra do Caldeirão, Em Cena, nº1
Conheci o Daniel Vieira no ano em que fiquei colocado na escola em Messines, onde ele era professor de Educação Visual e Tecnológica. Corria o ano de 1998/99. Tudo nele personificava o artista que era, sempre vestido de preto, cabelo e barba comprida, o eterno relógio de bolso pendurado numa corrente ao peito.
Com ele partilhei as tardes de quarta no Clube de Teatro da escola. Homem simples no estar, transparecia no olhar uma doce bonomia, de sorriso tímido, quase infantil, apesar da idade já avançada.
Despretensioso, sem vaidade, deslocava-se na velha Casal azul entre a sua aldeia natal e a escola.
Em meados de Abril viajámos até à Noruega, no intercâmbio com uma escola em Lillehamer, no âmbito do Erasmus, sem alunos, o que foi um descanso, levávamos apenas uma série de trabalhos, executados em xilogravura nas aulas do Daniel, com a representação de instrumentos musicais. Em Oslo, onde ficámos no primeiro dia, visitámos o museu de Edvard Munch e passeámos pela cidade.
Parecíamos dois serrenhos e ríamos de nós próprios, com as nossas camisolas interiores. Ele todo de preto, como sempre. Eu de gola alta. Os noruegueses de fato treino e manga curta corriam e faziam exercício no Vigeland parque, exuberantes com os 13 º graus e o sol desmaiado que os tinha brindado.

Para Lillehammer fomos de comboio e aí sim os agasalhos fizeram sentido, pois nevava abundantemente para grande frustração dos nossos colegas, iludidos pela expectativa de uma Primavera antecipada. Nas ruas a neve dava-nos pelas canelas e sentia-me como dentro dum daqueles postais de Natal com paisagens nórdicas, as casas cobertas de neve e as árvores gesticulando à nossa passagem com o peso da neve pendente dos ramos.
Ao tempo, tinha um microgravador para o qual íamos falando, tecendo impressões de viagem. Por vezes, ríamos alto na rua o que causava alguma estranheza entre os locais.
Nessa semana, inteirámo-nos do dia a dia de uma escola na Noruega, indo às aulas dos diferentes níveis de ensino, onde nos apresentávamos num inglês trapalhão, mostrando no mapa da Europa o país e a região donde vínhamos, ensinando também algumas palavras em português e cantando algumas canções tradicionais; bem… desafiava o Daniel a cantar umas modinhas algarvias que ele bem sabia e eu desajeitadamente acompanhava. As crianças nórdicas, num misto de espanto e encanto, olhavam curiosamente atentas estes dois espécimes humanos do sul.
Em Lillehammer, cidade com cerca de 30.000 habitantes, os prédios de apartamentos são praticamente inexistentes, as casas são moradias térreas de madeira, com aquecimento central. Rodeados de neve e de gelo, têm um admirável nível de conforto, passando menos frio do que nós no Inverno.
No dia em que nos convidaram para esquiar, caiu um nevão tão agreste que tivemos de desistir. Apesar de já equipados, fomos açoitados por um vento tão forte que tornou os trilhos impraticáveis, com a neve demasiado alta e afofada. Quem sabe… foi melhor assim… imaginem-nos a praticar esqui… seria um fartote de rir.

E foi através dele que cheguei a Alte.
O Daniel Vieira era uma espécie de patriarca de toda aquela malta jovem que acorria à Horta das Artes, espaço atelier por ele criado e aberto a todos os que afluíam para conviver e criar. O Pedro Domingues era dos mais assíduos na aprendizagem das técnicas da pintura; o Nelson Martins, que aí pintou muitos dos painéis de azulejos que eram vendidos na loja de cerâmica da aldeia, fez-se o artista conhecido de hoje com as suas esculturas em cerâmica.
Na Horta das Artes estava também sedeado o Teatro da Estrada – Associação Cultural de Alte, fundada em 1993 a partir de um projeto informal já existente. Muitos desses jovens, com gosto pela arte de representar, aí se reuniam e ensaiavam. A Célia Martins, com a qual colaborei na direção, era a principal dinamizadora do grupo, com a sua capacidade de organização, dedicação associativa e paixão pelo teatro. Não me achando com vocação de ator, acompanhava a produção teatral do grupo sem subir ao palco. O Auto do Curandeiro e outros Quadros, de António Aleixo, encenado por José Teiga, foi uma das peças com que viajámos até Montemor-o-Velho para participar num festival de teatro.

E o Daniel era a confluência anfitriã dos diferentes afluentes artísticos e geracionais: dos mais novos aos mais velhos, da gravura ao teatro, da música e das cantigas ao animado convívio. Alte foi então campo magnético gerador de ideias. Das muitas partilhadas com o Daniel, a Célia, a Nídia e tantos outros, à conversa em reuniões e noites de boémia, a par com o sentimento de insatisfação que calava fundo de criar algo, nasceu a revista Em Cena.
Assim Alte continuava o seu desígnio de aldeia cultural, de que foi precursor o pai do Daniel Vieira, mas agora expressa numa modernidade jovem e irreverente. Então escrevia no editorial: “Neste número de lançamento, sob os signos da poesia, do amor e da liberdade cruzamos um modelo interior de Homem e de Mulher existencialmente preocupados e imaginativos com uma realidade social dura e bela, a do povo amável e esquecido. Daí as fotos de “Gentes do Interior (do Jorge Graça)…”
Convoco a memória da animada passagem de ano de 1999 para 2000, onde no espaço do teatro da Horta das Artes dançamos e bebemos, jovens e velhos. Estavam presentes os velhos da Torre, amigos do Daniel, com uma pedalada… cantando e dançando velhas modas do cancioneiro popular algarvio, as quais alternavam com o pop rock que passava na aparelhagem.
O rumo da vida, a colocação noutra escola, afastaram-me de Alte e do Daniel Vieira, que ao sabor do acaso ia encontrando aqui e ali. Não esqueço o inesperado e agradável encontro na rua da Sé em Lisboa, quando numa visita de estudo aí paramos o autocarro. A sua terra natal não lhe bastava e nem sempre o compreendia, precisava dos ares de Lisboa, do ambiente urbano da grande cidade, onde tinha casa em Alfama e voltou a estudar na faculdade de belas artes.
A última vez que o vi foi na Worten, do Mar Shopping, debruçado sobre um tablet a experimentar um programa de desenho, o que é revelador da sua curiosidade criativa de artista.
Que o vento sopre forte o teu ser no alto da rocha dos Soidos e o rumor das Fontes percorrendo a aldeia possa perpetuar o teu nome.
Adeus amigo
Até sempre!
Paulo Penisga








