O anúncio do início das obras de construção de um hotel em Vale de Olival, em Armação de Pêra, previsto há décadas, trouxe o assunto para a praça pública. Uns a favor outros contra.
No auge da discussão, a Câmara Municipal de Silves entendeu contrariar a desinformação e fazer uma sessão de esclarecimento em Armação de Pêra, fazendo a cronologia do processo, a apresentação do projeto e ouvindo quem quis intervir nessa sessão.
O início
Nos finais da década de 1950, Armação de Pêra era apenas uma pequena vila piscatória, ainda alheada do turismo que iria passar a ser o motor do seu desenvolvimento.
O final da II Guerra Mundial trouxe a possibilidade do turismo crescer e começou a surgir a necessidade de infraestruturas de qualidade para acolher os visitantes atraídos pelo sol, areia dourada e águas quentes do Algarve.
Atenta a esta realidade, a Junta de Turismo incentivou o desenvolvimento turístico de Armação de Pêra. Um terreno situado na falésia, a cerca de 200m do Casino, foi cedido a preço simbólico para a construção de um hotel moderno. O projeto foi iniciado em 1959, por iniciativa de Francisco José Matias de Oliveira Santos e concebido pelo arquiteto Jorge Ferreira Chaves, uma figura notável do modernismo português, com colaboração de Frederico Santana. A arquitetura destacava-se pela integração com a paisagem costeira e pela influência do movimento moderno internacional, com fachadas e espaços interiores pensados para maximizar conforto e vistas sobre o mar.
O Hotel Garbe foi inaugurado oficialmente em 1963, num período em que o Turismo em Portugal começava a ganhar força.
Originalmente tinha cerca de 60 quartos e atraía uma clientela de classe social mais elevada, nomeadamente turistas ingleses e portugueses. O hotel tornou-se um ícone do modernismo no Algarve, sendo citado por autores da época como “o hotel moderno mais elegante da costa”.
Ao longo das décadas seguintes, o hotel passou por várias expansões para acompanhar o crescimento do turismo na região, passando de 60 para 184 quartos. Algumas propostas de expansão mais expressivas, como a construção de uma torre de 13 andares, não foram autorizadas pelas autoridades
Em 2010, o Hotel Garbe, passou a fazer parte da marca internacional Holiday Inn, através de franchising, após remodelação. Nos últimos dois anos, o Hotel Garbe (ou Hotel do Garbe, conforme a designação original), tem estado encerrado, para obras de remodelação que o irão transformar num hotel da cadeia internacional Hilton e cuja abertura está prevista para antes do próximo verão.
O “buraco”
Corria o ano de 1971 quando o terreno ao lado do Hotel Garbe foi adquirido pela empresa Isotal, com a pretensão de construir um hotel. Em 1973, a obra é aprovada pela Direção-Geral do Turismo e em 1975 é licenciada pela Câmara Municipal de Silves.
Os trabalhos têm início e abre-se o famoso “buraco” junto ao Vale do Olival. Mas as alterações trazidas pela Revolução dos Cravos e alguma oposição ao projeto, manifestada também nessa altura por algumas entidades e empresários, levam a Isotal a decidir suspender os trabalhos.
O terreno, encostado à praia, passa a ser utilizado como parque de estacionamento informal, para automóveis e autocaravanas e “caixote do lixo”, principalmente na época balnear. E assim permanece durante anos. Em 1980, vendo que nada avançava e pretendendo intervir na zona, para a sua recuperação, a Câmara Municipal de Silves decide intervir e aciona a cláusula de reversão do direito de propriedade. A empresa não aceita esta decisão e avança com uma ação judicial contra a autarquia de Silves.
Passam mais 15 anos sem que nada aconteça, o tempo que a justiça leva a pronunciar-se. Em fevereiro de 1995, o Supremo Tribunal condena a Câmara Municipal de Silves e reconhece a Isotal como proprietária do terreno.
Mas o Município de Silves não entrega de imediato a propriedade e entretanto entra em vigor o Plano Diretor Municipal (PDM) que inviabiliza a construção do hotel naquele espaço.
Em 1998, a Isotal é informada da inviabilidade do projeto e nesse mesmo ano avança com uma segunda ação judicial contra a Câmara de Silves, reclamando uma indemnização de sete milhões de euros.
Enquanto esta ação corre em tribunal, no ano seguinte, em 1999, o Plano de Pormenor de Armação de Pêra (PPAP) passa a contemplar a possibilidade da construção do hotel com uma área de ocupação equivalente à que fora aprovada em 1975. Este processo ganha substância, quando a Câmara Municipal e posteriormente a Assembleia Municipal de Silves aprovam o PPAP. Dessa forma a Isotal volta a ter a possibilidade de construção e acaba por desistir da ação judicial que tinha contra a Câmara. Em 2014, o tribunal profere o despacho de arquivamento da queixa.
Passam mais anos, mas o “buraco” permanecia, sem que a empresa desse sinal de vida, até que a Câmara Municipal começa a elaborar o PDM de 2ª geração, manifestando intenção de dar outra utilização àquele espaço, considerando que o mesmo não poderia continuar assim “ad eternum”.
Avaliando esta intenção, a Isotal (empresa com capitais públicos e privados), apresenta, em 2019, um pedido de informação prévia e em 2020, um pedido de licenciamento, tendo já os pareceres favoráveis do Turismo de Portugal e da Agência Portuguesa do Ambiente (APA). O processo culmina com a emissão da licença de construção, no final de 2025, e as obras já decorrem no local.
A polémica e a sessão de esclarecimento
A notícia da construção de um hotel no lugar do “buraco” e do estacionamento deu origem a alguma polémica, dividindo opiniões em Armação de Pêra. A seguir ao comunicado da Câmara Municipal, a 5 de dezembro de 2025, dando conta do início das obras e pormenores sobre o projeto, começaram a surgir vozes contrárias a esta construção, alimentadas principalmente em quezílias nas redes sociais.
Entendeu a Câmara Municipal então promover uma sessão de esclarecimento sobre este processo, que teve lugar no dia 18 de dezembro, na sede do Clube Os Armacenenses. Os esclarecimentos foram prestados pelo vereador Maxime Sousa Bispo, responsável pelo pelouro do Urbanismo, bem como pelo arquiteto João Matias, chefe da Divisão da Câmara de Silves.

Perante uma sala com um vasto público presente, o vereador apresentou a cronologia dos acontecimentos, desde o início do processo ate ao momento atual, afirmando que a partir de 2019, quando a Isotal apresentou o pedido de informação prévia, “a Câmara ficou de mãos atadas”. A empresa, disse, cumpria “todas as normas legais” e “não é menos verdade que conseguiu valer-se da oportunidade que lhe fora dada pelo Plano de Pormenor de Armação de Pêra e valer-se dos “direitos adquiridos”, a que somou os pareceres favoráveis das restantes entidades competentes.
Segundo o vereador Maxime Sousa Bispo, à autarquia de Silves não restava outra opção do que proceder ao licenciamento das obras e, a partir daí, “extrair desse licenciamento” o máximo de vantagens para Armação de Pêra, nomeadamente a obrigação do promotor de instalar um coletor de drenagem de águas pluviais (DN1600) na Avenida Beira-Mar poente, bem como a criação de rede pública de saneamento (rede de esgotos domésticos) e de drenagem de águas residuais pluviais na referida Avenida.

Da parte do público, houve várias intervenções, a favor e contra este empreendimento. As intervenções dos opositores centraram-se em dois aspetos: a questão do hotel ser construído junto à falésia, não tendo em conta a erosão costeira, e a preferência que manifestavam por ver aquela área ocupada por uma zona de espaços verdes e de lazer. A estas preocupações, o vereador Maxime Sousa Bispo esclareceu que “ a operação urbanística não ocorre na arriba” e que a APA determinou que a Isotal tem de fazer a monitorização da mesma. Esclareceu ainda que este projeto também contempla uma zona verde e sublinhou que caso a autarquia de Silves se opusesse à Isotal, e fosse condenada pelo tribunal “como já aconteceu no passado” teria de avançar com o pagamento de uma indemnização, que não seria inferior a 20 milhões de euros. E interrogou a assistência, sobre que projetos estariam os armacenenses dispostos a abrir mão para que a autarquia pudesse pagar esse montante.
Já as intervenções a favor centraram-se nos aspetos positivos para a economia local e para o emprego e para a imagem de Armação de Pêra, que ganhará uma unidade hoteleira de qualidade. Várias pessoas lembraram também que “o buraco” esteve aberto “durante 50 anos sem que ninguém se importasse com a situação” fazendo de péssimo cartão de visita de Armação de Pêra, e houve quem lamentasse quererem “deitar abaixo quem quer investir”.
Convidado a pronunciar-se o presidente da Junta de Freguesia de Armação de Pêra, Bruno Alves, ressalvando que estava a conhecer o projeto apenas naquele momento, considerou que o mesmo “combate a sazonalidade, contribui para fixar famílias e permite melhor turismo”. Por isso, afirmou que a Junta de Freguesia “não se opõe” à construção do que considerou um “investimento estrutural e importante” mas que “irá acompanhar o projeto e defender os interesses dos armacenenses”, para que “as mais-valias do empreendimento revertam para a Vila”.
Na sala estavam presentes vereadores do PSD e do Chega, na Câmara Municipal de Silves, que não se pronunciaram. A cabeça de lista do PS à Assembleia Municipal de Silves, Paula Teixeira, fez uma intervenção levantando dúvidas sobre a oportunidade do empreendimento e defendendo outra ocupação para o terreno.
No final da sessão, esgrimidos argumentos e posições, a discussão continuou na rua. Quem está contra isto são os proprietários de uns apartamentos que agora vão ficar sem vista de mar, diziam uns. E aquela que mais falou, é dona de metade de Armação, diziam outros. Vão construir em cima da falésia, no futuro vamos todos receber a conta para pagar mais este erro, diziam outros.
Uns contra, outros a favor. Mas eventualmente mais esclarecidos sobre um processo que teve início há tantas décadas e que animou uma noite bem fria.
O Hotel e o Espaço Público
Local: O hotel será construído na área já escavada desde a década de 1970, próxima da Avenida Beira-Mar. O projeto dispõe de estudo geológico e geotécnico, validado pela Agência Portuguesa do Ambiente, concluindo que a carga do edifício não atinge a face da arriba.
Dimensão: O edifício terá 4 pisos e uma altura máxima de 13,50 metros, inferior à de vários edifícios existentes na envolvente.
Unidade hoteleira: Terá quatro estrelas, 250 unidades de alojamento, com capacidade para 500 utentes, equipado com cave, piscinas interior e exterior e serviços complementares, bem como áreas técnicas e de parqueamento.
Investimento: O projeto ronda os 50 milhões de euros
Emprego: Está prevista a criação de cerca de 100 postos de trabalho diretos.
Espaço Público: Do prédio do hotel, com cerca de 24.000 m², são cedidos 9.000 m² para o domínio público municipal, permitindo: um parque de estacionamento público com cerca de 100 lugares, um parque verde urbano, a continuidade da Ecovia do Litoral Sul, na zona poente de Armação de Pêra.









