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Gruta do Remexido e de Ibn Ammar , com elevado “interesse natural e cultural” até a nível mundial

Terra Ruiva
Última Atualização: 2024/Dez/Sáb
Terra Ruiva
2 anos atrás
Entrada para a gruta que terá acolhido o Remexido e os seus homens
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A Gruta do Algarão do Remexido, em São Bartolomeu de Messines, localmente conhecida como “o buraco do Remexido”, bem como a Gruta de Ibn Ammar, em Lagoa,  estiveram recentemente em processo de consulta pública para ser aberto um processo de classificação das mesmas, devido ao seu “interesse natural e cultural”.

Ambas as grutas estão relacionadas com os concelhos de Silves e de Lagoa. O “Remexido”, como ficou conhecido o guerrilheiro miguelista José Joaquim de Sousa Reis, nasceu em Lagoa, mas viveu em São Bartolomeu de Messines, onde casou e constituiu família.

Já Ibn Ammar, cujas grutas se situam entre Tapadinha e Vale Crevo, Mexilhoeira da Carregação, na União das Freguesias de Estômbar e Parchal, concelho de Lagoa, foi poeta e político árabe que chegou a governador de Silves.

O processo de classificação foi aberto pelo Património Cultural, I.P, em setembro de 2024,na sequência de proposta dos serviços regionais de cultura da ex-Direção Regional de Cultura do Algarve, atualmente Unidade de Cultura da CCDR ALGARVE, efetuada em 2022.

 

Gruta do Algarão do Remexido

O Algarão do Remexido situado no topo da colina sobranceira do Ribeiro Meirinho, na sua margem esquerda, no sítio do Barranco, é, no concelho de Silves, a mais extensa e ampla gruta conhecida e a única com testemunhos da Pré-História confirmados.

Está inserida no “Canhão” cársico do Barranco do Ribeiro Meirinho, classificado como Sítio de Interesse Natural do PDM de Silves.

É uma gruta natural cársica, com várias condutas, câmaras amplas e espeleotemas, com diferentes momentos de utilização antrópica.

Trata-se de cavidade com desenvolvimento sobretudo vertical, e a entrada na mesma carece de equipamento e recurso a técnicas de progressão espeleológica na maior parte do percurso. Depois de entrar na primeira câmara, verifica-se que nesta sala inicial foi remobilizada grande quantidade de pedras, possivelmente para criação de espaço e regularização do piso. A gruta assume, depois, um desenvolvimento em sucessivos desníveis, com condutas e espaços de contornos e dimensões irregulares. Existe também um poço que abre em sala relativamente ampla, e para aceder aos dois troços verticais que constituem o final do algar é necessário escalar uma parede de 3,2m.

Entrada para a gruta que terá acolhido o Remexido e os seus homens

A ocorrência de vestígios líticos atribuídos ao Neolítico-Calcolítico, junto à entrada da gruta, e principalmente a presença atestada de cerâmicas manuais de grandes contentores, no seu interior, provavelmente na Idade do Bronze, testemunham a utilização pré-histórica da cavidade.

Outro uso mais recente envolveu alteração significativa do espaço na primeira sala, através da remobilização massiva de pedras e grandes blocos. Esta evidente intervenção humana harmoniza-se com a memória popular de que o local serviu de refúgio prolongado do famoso guerrilheiro miguelista José Joaquim de Sousa Reis, cognominado o Remexido. Segundo a recolha documental e histórica de José Vilhena Mesquita, o guerrilheiro teria permanecido escondido nas imediações da aldeia, numa fase de prostração e desânimo. Tal situação ter-se-ia agravado quando seus familiares diretos sofreram graves consequências do conflito, apesar da amnistia político-militar então decretada pelo governo.

Seu filho Manuel da Graça Reis foi detido e encarcerado no presídio de Silves, e Maria Clara Machado de Basto, sua esposa, foi submetida a punição pública no adro da Igreja de Messines, com rapagem do cabelo e suplício de palmatoadas. Apreciando a informação histórica e tendo em conta as observações realizadas no interior da gruta, não é despicienda a hipótese de ter, na realidade, ocorrido uma relação do sítio com os acontecimentos históricos em causa, o que poderá vir a ser melhor esclarecido mediante pesquisas mais aprofundadas.

Note-se que os acontecimentos em referência, em contexto das Guerras Liberais, dizem respeito a importante convulsão sociocultural e política de Portugal, ultrapassando largamente a relevância regional, com repercussões na evolução histórica da Nação e dos portugueses.

Conforme corroborou o historiador José Vilhena Mesquita (2009), há de facto uma memória popular sobre os marcantes acontecimentos então ocorridos ancorada na existência perene da gruta. Esta particularidade cultural é significativa, radicada nas convicções identitárias do povo e da sua ancestral ligação ao território, sendo meritória de salvaguarda através da classificação e valorização do imóvel, independentemente de, no presente, não estar cabalmente demonstrada a total veracidade dessa memória de natureza vernácula.

Uma das salas da gruta na qual foram encontrados vestígios pré-históricos

Estas grutas não são passíveis de visita pública por motivos de segurança e de salvaguarda da sensível biodiversidade cavernícola.

Ao que se sabe, os primeiros registos de pesquisas nestas grutas surgiram com a intervenção da Sociedade Portuguesa de Espeleologia que redigiu uma sumária descrição do algar, referindo uma primeira sala e a existência de andares inferiores. A cavidade é presentemente bem conhecida por espeleólogos e foi objeto de pesquisa bioespeleológica por parte da bióloga Ana Sofia Reboleira que aí procedeu a profícuas recolhas de antrópodes.

 

Grutas de Ibn Ammar, as maiores a sul do Tejo

Trata-se de uma série de aberturas cársicas conspícuas, dispostas ao longo da margem esquerda do rio Arade, que fazem parte de um complexo sistema de galerias subterrâneas naturais com utilização humana pré-histórica e histórica.

O processo de classificação das Grutas de Ibn Ammar baseia-se igualmente nos valores histórico arqueológico, científico, paleontológico e etnográfico associados, bem como aos fatores de antiguidade, memória, autenticidade, singularidade e exemplaridade.

Gruta de Ibn Ammar (Foto CCDR Algarve)

Estas grutas, também conhecidas como Cavernas da Mexilhoeirinha, são as maiores a sul do Tejo. Esta foi a primeira designação de que há registo, em alusão à povoação mais próxima. Mas a partir da década de 70 do século XX, a esmagadora maioria dos autores refere-se a estas cavidades como Grutas de Ibn Ammar, designação que parece emergir dos anos 60, aquando das primeiras tentativas de as constituir como atração turística. Abû Bacr Muhammad Ibn Ammâr (1031-1084) foi poeta e político árabe que chegou a governador de Silves.

Por baixo do Algarve que conhecemos, existem dois conjuntos de galerias, a 120 metros de distância um do outro, sem ligação conhecida que permita a progressão humana de um para o outro, com um lago subterrâneo, nascentes e estreitas passagens labirínticas.

Apesar destas grutas terem atraído primeiro a atenção dos arqueólogos, com estudos desde a década de 60 (séc. XX), algumas das primeiras pesquisas concretas a que se acedeu foram realizadas por biólogos.

Esta é uma das principais cavidades do sistema subterrâneo do Algarve, que foi classificado em 2016 como hotspot mundial de biodiversidade cavernícola na “Science”, uma das mais importantes revistas científicas.

Com elevado interesse para a área científica, estes ecossistemas subterrâneos são extremamente importantes em matéria de saúde pública, nomeadamente no que respeita à água disponível para consumo humano: em Portugal, cerca de 50% da água disponível para consumo humano provém de aquíferos de profundidade.

Estas grutas não são passíveis de visita pública por albergarem uma importante e frágil colónia de morcegos de espécies legalmente protegidas, e por motivos de segurança.

 

(Nota: Os elementos históricos e científicos referidos no artigo, bem como as fotos, foram retirados dos documentos que estiveram em consulta pública.)

 

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TAGGED:Gruta do Algarão do RemexidoGrutas de Ibn AmmarLagoaprocesso de classificaçãoRemexidoSão Bartolomeu de Messines
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