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Estudo investigou: Acreditar num mundo justo pode promover o bem-estar?

Terra Ruiva
Última Atualização: 2024/Out/Ter
Terra Ruiva
2 anos atrás
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Investigação explora como a perceção do que acontece como justo se relaciona com a forma como as pessoas lidam com dificuldades financeiras e de saúde em diferentes contextos económicos. Resultados indicam que a Crença no Mundo Justo pode atenuar o impacto negativo de situações adversas no bem-estar, sobretudo em contextos económicos favoráveis.

A perceção do que acontece como justo tem sido operacionalizada no âmbito da Teoria da Crença no Mundo Justo (CMJ). Esta teoria tem sido estudada pela investigadora Isabel Correia, do Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte).

“De uma forma geral”, adianta a investigadora, “esta crença traduz a perceção de que coisas boas acontecem às pessoas boas e as coisas más acontecem às pessoas más, ou, por outras palavras, de que as pessoas têm aquilo que merecem. Deste modo, o que acontece é percebido como justo”. De acordo com a investigação realizada, a perceção de justiça relaciona-se com a forma como as pessoas lidam com situações adversas do dia-a-dia, por exemplo encarando eventos como desafios em vez de ameaças, protegendo-as do stress associado a acontecimentos injustos ou imprevisíveis através de uma sensação de controlo.

Efetivamente, a CMJ pode ajudar a explicar diversos comportamentos, incluindo a legitimação de desigualdades económicas, ou a desvalorização do sofrimento de cuidadores informais. Tal como os autores explicam no artigo, esta atribuição comportamental é funcional, uma vez que dá sentido ao acontecimento imprevisível ou injusto, atenua os sentimentos de injustiça e reduz as emoções negativas, permitindo a manutenção do bem-estar e a preservação das perceções de justiça.

Segundo a equipa de investigação, a CMJ pode ser distinguida a dois níveis: pessoal – os acontecimentos na vida de uma pessoa são justos; e geral – o mundo é um lugar justo, estando estas duas componentes altamente correlacionadas. Neste estudo, “usámos a medida de crença no mundo justo geral, que foi avaliada no European Social Survey, e estudámos o modo como se relaciona com medidas contextuais macroeconómicas e com o bem-estar”, explica a investigadora Helena Carvalho, do Centro de Investigação e Estudos em Sociologia (CIES-Iscte).

O estudo teve por base dados de 38396 participantes do European Social Survey (European Social Survey European Research Infrastructure (ESS ERIC), 2018), um questionário composto por amostras aleatórias representativas de 27 países europeus.

A equipa de investigação composta por Isabel Correia (CIS-Iscte), Helena Carvalho (CIES-Iscte), Kathleen Otto (Philips Marburg University) e Gabriel Nudelman (The Academic College of Tel Aviv-Yaffo), analisou fatores de sofrimento (distress) a nível individual, nomeadamente o comprometimento da saúde e a dificuldade financeira, mas também ao nível do contexto macroeconómico, nomeadamente o PIB per capita.

O objetivo era perceber como a CMJ afeta o impacto destes fatores no bem-estar. De acordo com a equipa de investigação, o PIB foi escolhido por ser um indicador amplamente reconhecido da saúde económica de um país que influencia o bem-estar social.

Através de uma análise multinível e controlando diversos fatores individuais (incluindo género, idade e educação, religião, ideologia política) e ao nível do país (Gini, um indicador de desigualdade de salários), os resultados do estudo indicaram uma associação positiva entre a CMJ e o bem-estar de pessoas com e sem dificuldades financeiras e de saúde. Para a equipa de investigação, este é um resultado que apoia a ideia de que a crença no mundo justo funciona como um recurso pessoal que promove o bem-estar.

Para além disso, os resultados revelaram ainda que, para pessoas em situações de dificuldade, o bem-estar era menos afetado para as que apresentaram níveis mais elevados de CMJ (em comparação com as que apresentaram níveis menores de CMJ), sugerindo que a CMJ pode funcionar como estratégia para lidar com as dificuldades (uma estratégia de coping), diminuindo o seu impacto. Este efeito protetor da CMJ parece, contudo, depender dos fatores contextuais: nos países com maior PIB, as pessoas podem dispor de mais sistemas de apoio (por exemplo, seguros de saúde, subsídios de doença), o que pode aumentar este efeito protetor da CMJ quando as pessoas lidam com problemas de saúde.

Para a equipa de investigação, “Este estudo não só reforça a noção de que a crença no mundo justo é parte integrante do bem-estar individual, mas também um recurso de coping para lidar com as adversidades diárias”, apelando a uma exploração mais profunda dos mecanismos relacionados com a justiça que influenciam as perceções e as crenças das pessoas e da sociedade.

 

Pedro Simão Mendes

Comunicação de Ciência (CIS-Iscte)

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