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Reading: A segunda revolução na arqueologia
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Ambiente & CiênciaSociedade

A segunda revolução na arqueologia

Terra Ruiva
Última Atualização: 2024/Set/Sex
Terra Ruiva
2 anos atrás
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Na região centro-sul da Sibéria existe um sítio arqueológico chamado Mal’ta. Foi esse o nome utilizado por investigadores, em 2013, para designarem os ossos encontrados de um rapaz que viveu naquele local há cerca de 24 mil anos. A investigação revelou algo que contraria o senso comum: o rapaz de Mal’ta tinha mais afinidade genética com os europeus e nativos americanos do que com os atuais siberianos.

Como é isso possível? Qual é a explicação científica?

A resposta a esta e outras perguntas encontra-se no recente e fascinante livro “Quem Somos e Como Chegámos Aqui” de David Reich, da coleção Ciência Aberta.

Estamos habituados a representar a evolução através da metáfora de uma árvore. Existe um tronco comum e, ao longo do tempo, formam-se vários ramos que se desenvolvem de forma independente. No entanto, a ciência tem desafiado esse modelo através de duas grandes revoluções científicas na arqueologia.

A primeira foi a datação por radiocarbono, descoberta em 1949 por Willard Libby. O vencedor do Prémio Nobel descobriu que a fração dos átomos de carbono em vestígios antigos que têm 14 nucleões (Carbono-14) é conhecida e constante. Isso permite datar compostos orgânicos até 50 mil anos atrás.

O segundo grande passo em frente foi a análise do ADN antigo.

O ADN (Ácido Desoxirribonucleico) é a molécula que contém as instruções genéticas para o desenvolvimento e funcionamento de todos os organismos vivos. É como se fosse o manual de instruções do nosso corpo, que determina características como a cor dos olhos e o tipo de grupo sanguíneo, por exemplo. É composto por duas cadeias que se enrolam umas sobre as outras para formar uma dupla hélice.

O genoma é o conjunto completo de ADN de um organismo. Ele inclui todas as informações necessárias para construir e manter esse ser vivo. No caso dos humanos, o genoma contém cerca de 3 mil milhões de “letras” de código genético, distribuídas em 23 pares de cromossomas. Através do estudo do genoma, é possível traçar a história evolutiva das populações e compreender melhor como a diversidade genética se desenvolveu ao longo de milénios.

Linhas de investigação, como as do geneticista Reich, têm contribuído para demonstrar que os padrões migratórios são bem mais complexos do que se pensava. Ao contrário do que a metáfora da árvore sugere, durante a evolução, os ramos frequentemente se fundiram. Isto significa, por exemplo, que existiram populações híbridas de Neandertais, Denisovanos e humanos modernos.

O estudo do ADN antigo prova, portanto, que as grandes migrações e as misturas entre populações divergentes foram determinantes para a evolução das comunidades humanas.

Este campo da ciência tem também implicações sociais e políticas. Fica provado que as atuais divisões em “raças” distintas são um erro, pois todas as populações são, na verdade, fruto de repetidas e contínuas misturas. Esta diversidade deve ser acolhida, pois foi, e continua a ser, uma alavanca fundamental para o nosso desenvolvimento.

 

Texto : Luís Monteiro ( Médico)

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